30 de set de 2016

"Oração a Cristo", de Papa Paulo VI

Na postagem anterior da série Oração, vimos a oração do Papa Leão XIII a São Miguel Arcanjo. Agora, apresento-lhe a oração feita por Papa Paulo VI: a « ORAÇÃO A CRISTO ». Aproveite este momento para conversar com Jesus:
"Ó Cristo, nosso único medianeiro.
Tu és necessário: para entrarmos em comunhão com Deus Pai; para nos tornarmos conTigo, que és Filho único e Senhor nosso, seus filhos adotivos; para sermos regenerados no Espírito Santo.
Tu és necessário, ó único verdadeiro mestre das verdades ocultas e indispensáveis da vida, para conhecermos o nosso ser e o nosso destino, o caminho para o conseguirmos.
Tu és necessário, ó Redentor nosso, para descobrirmos a nossa miséria e para a curarmos; para termos o conceito do bem e do mal e a esperança da santidade; para deplorarmos os nossos pecados e para obtermos o seu perdão.
Tu és necessário, ó irmão primogênito do gênero humano, para encontrarmos as razões verdadeiras da fraternidade entre os homens, os fundamentos da justiça, os tesouros da caridade, o sumo bem da paz.
Tu és necessário, ó grande paciente das nossas dores, para conhecermos o sentido do sofrimento e para lhe darmos um valor de expiação e de redenção.
Tu és necessário, ó vencedor da morte, para nos libertarmos do desespero e da negação e para termos certezas que nunca desiludem.
Tu és necessário, ó Cristo, ó Senhor, ó Deus connosco, para aprendermos o amor verdadeiro e para caminharmos na alegria e na força da tua caridade, ao longo do caminho da nossa vida fatigosa, até ao encontro definitivo conTigo amado, esperado, bendito nos séculos."1

29 de set de 2016

Oração do Papa Leão XIII a São Miguel Arcanjo

Vimos anteriormente as orações aos arcanjos Gabriel, Miguel e Rafael. São santas orações. Nesta postagem, veremos uma oração a São Miguel, que é especial porque foi composta por um papa: o Papa Leão XIII. Ele ordenou que se rezasse esta oração ao final das missas, como uma medida para proteger a Igreja dos ataques do maligno, Isso foi cumprido até a década de 1960, quando houve a reforma litúrgica pelo Concílio Vaticano II. 

Rezemos, então, a "Oração a São Miguel Arcanjo":
“Ó glorioso príncipe da milícia celeste, São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate e na terrível luta contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares (Ef. 6)! Vinde em auxílio dos homens os quais Deus criou imortais, feitos a sua imagem e semelhança, e resgatou por grande preço da tirania do demónio (Sab. 2; I Cor. 6).
Combatei neste dia, com o exército dos santos anjos, a batalha do Senhor como noutro tempo combateste contra Lúcifer, chefe dos orgulhosos, e contra os anjos apóstatas que foram impotentes em resistir-te e para quem nunca mais haverá lugar no céu.
Sim, esse grande dragão, essa antiga serpente que se chama demônio e Satanás, que seduz o mundo inteiro, foi precipitado com os seus anjos ao fundo do abismo (Apoc. 12). Mas é aqui que esse antigo inimigo, este antigo homicida levantou ferozmente a cabeça. Disfarçado de anjo de luz e seguido por toda a multidão de espíritos malignos, invade o mundo inteiro para apoderar-se dele e desterrar o nome de Deus e do seu Cristo, para afundar, matar e entregar à perdição eterna às almas destinadas à coroa de glória eterna. Sobre os homens de espírito perverso e de coração corrupto, este dragão malvado derrama também, como uma torrente de lama impura, o veneno de sua malícia infernal, o espírito de mentira, de impiedade, de blasfêmia e o sopro envenenado da imundice, dos vícios e de todas as abominações.
Os inimigos cheios de astúcia têm acumulado de opróbrios e amarguras a Igreja, esposa do Cordeiro imaculado, e lhe dado a beber absinto; sobre seus bens mais sagrados impõem suas mãos criminosas para a realização de todos os seus ímpios desígnios. Lá, no lugar sagrado onde está instituída a sede de São Pedro e a Cátedra da Verdade para iluminar os povos, foi instalado o trono da abominação de sua impiedade, com o desígnio iníquo de ferir o Pastor e dispersar as ovelhas.
Nós te suplicamos, ó príncipe invencível, ajude o povo de Deus e concede-lhe a vitória contra os ataques destes espíritos dos réprobos. Este povo te venera como seu protetor e padroeiro, e a Igreja se gloria de tê-lo como defensor contra os poderes malignos do inferno. A ti, Deus confiou a missão de conduzir as almas para a felicidade celeste. Roga, portanto, ao Deus da paz que submeta Satanás aos nossos pés, tão derrotado e subjugado, que nunca mais possa impor a escravidão aos homens, nem prejudicar a Igreja! Apresenta as nossas orações à vista do Todo-Poderoso para que as misericórdias do Senhor nos alcancem o quanto antes. Submeta o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e o precipite acorrentado no abismo para que não mais possa seduzir as nações (Apoc. 20). Amém.
Desde já confiados à vossa assistência e proteção, com a sagrada autoridade da Santa mãe Igreja, e em nome de Jesus Cristo, Deus e Senhor nosso, empreendemos com fé e segurança repelir aos ataques da astúcia diabólica.
V/ Eis a Cruz do Senhor, fujam potências inimigas.
R/ Venceu o Leão da tribo de Judá, a estirpe de David.
V/ Que as tuas misericórdias, ó Senhor, se realizem sobre nós.
R/ Assim como esperamos em vós.
V/ Senhor, escutai a minha oração.
R/ e que o meu clamor chegue até ti.
Oremos.
Ó Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nós invocamos vosso Santo Nome e imploramos insistentemente a Vossa clemência para que, pela intercessão da Imaculada sempre Virgem Maria, nossa Mãe, e do glorioso São Miguel Arcanjo, de São José, esposo da mesma Santíssima Virgem, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, dignai-vos proteger contra Satanás e contra todos os espíritos malignos que vagueiam pela terra para destruir a humanidade e para a perdição das almas.
Amém.”

Oração aos Arcanjos São Gabriel, São Miguel e São Rafael

Hoje, a Igreja Católica festeja a memória dos arcanjos São Gabriel, São Miguel e São Rafael. Eles são expressamente nomeados na Bíblia:
Gabriel está presente no Evangelho2 de São Lucas 1, 19, quando faz o anúncio do nascimento de João Baptista: "...Eu sou Gabriel; assisto diante de Deus e fui enviado para anunciar-te essa boa nova" bem como está presente em Lucas 1,26-28: "o anjo Gabriel foi enviado por Deus (...) a uma virgem (...) e o nome da virgem era Maria. Entrando onde ela estava, disse-lhe: "Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo". "A saudação do anjo Gabriel abre a oração da Ave-Maria. É o próprio Deus que, por intermédio de seu anjo, saúda Maria."(CIC 2676).1
Na Bíblia2, em Daniel 10,13, Miguel é denominado "príncipe". Em Daniel 12, 1 está escrito que ele se conserva "junto dos filhos do teu povo"; Em Judas 1,9, disputa o corpo de Moisés com o diabo e Em Apo 12,7-9, luta com seus anjos contra o diabo e os anjos maus e os vence.
Rafael se revela no livro de Tobias 12,15 "Eu sou Rafael., um dos sete anjos que estão sempre presentes e têm acesso junto à Glória do Senhor"2.

Ao vermos a terceira hierarquia dos anjos, já conhecemos um pouco mais destes arcanjos. Então, hoje compartilho com você a oração de cada um deles:

Oração a São Rafael Arcanjo
"Glorioso Arcanjo São Rafael, que vos dignastes tornar a aparência de um simples viajante para vos fazer o protetor do jovem Tobias. Ensinai-nos a viver sobrenaturalmente elevando sem cessar nossas almas, acima das coisas terrenas.
Vinde em nosso socorro no momento das tentações e ajudai-nos a afastar de nossas almas e de nossos trabalhos todas as influências do inferno.
Ensinai-nos a viver neste espírito de fé que sabe reconhecer a misericórdia Divina em todas as provações e as utilizar para a salvação de nossas almas.
Obtende-nos a graça de uma inteira conformidade à vontade Divina, seja que ela nos conceda a cura dos nossos males ou que recuse o que lhe pedimos.
São Rafael guia protetor e companheiro de Tobias, dirigi-nos no caminho da salvação, preservai-nos de todo perigo e conduzi-nos ao Céu.
Assim seja."

Oração a São Gabriel Arcanjo


"Vós, Anjo da encarnação, mensageiro fiel de Deus, abri os nossos ouvidos para que possam captar até as mais suaves sugestões e apelos de graça emanados do coração amabilíssimo de Nosso Senhor. Nós vos pedimos que fiqueis sempre junto de nós para que, compreendendo bem a Palavra de Deus e Suas inspirações, saibamos obedecer-lhe, cumprindo docilmente aquilo que Deus quer de nós. Fazei que estejamos sempre disponíveis e vigilantes. Que o Senhor, quando vier, não nos encontre dormindo.
São Gabriel Arcanjo, rogai por nós. Amém."







Oração a São Miguel Arcanjo





"Glorioso Príncipe do Céu, protetor das almas, vos chamo para que me livre de toda adverside todo pecado, fazendo-me progredir no serviço de Deus conseguindo-me a graça da perseverança final, que me faça gozá-la na vida eterna.
Amém."









Notas
1.http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/a/anjo.html 
2. Bíblia de Jerusalém SP, Paulus, 2012. 8ª impressão : Tobias 12,15 (pg 677); Daniel 10,13 (pg. 1574); Daniel 12,1(pg. 1578); Lucas 1,13 (pg. 1786); Lucas 1,26 (pg 1787); Judas 1,9 (pg. 2137) e Apo 12,7-9 (pg. 2154).
3. Site da Arquidiocese de Natal: Orações de São Miguel Arcanjo e São Rafael Arcanjo. Disponível em: http://arquidiocesedenatal.org.br/secoes/santos-e-anjos 
4. Portal Padre Reginaldo Manzotti: Oração de São Gabriel Arcanjo. Disponível em http://www.padrereginaldomanzotti.org.br/capela_virtual/oracao_conforto/oracoes/sao-gabriel-arcanjo.html

28 de set de 2016

A oração como escola da esperança

Após refletirmos sobre a oração em comunidade, compartilho com você uma bela argumentação de Papa Bento XVI, na Encíclica Spe Salvi, em que ele aborda a oração como "Primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança":

"I. A oração como escola da esperança

"Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me.[25] Se me encontro confinado numa extrema solidão...o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão.

De forma muito bela Agostinho ilustrou a relação íntima entre oração e esperança, numa homilia sobre a Primeira Carta de João. Ele define a oração como um exercício do desejo. O homem foi criado para uma realidade grande ou seja, para o próprio Deus, para ser preenchido por Ele. Mas, o seu coração é demasiado estreito para a grande realidade que lhe está destinada. Tem de ser dilatado. « Assim procede Deus: diferindo a sua promessa, faz aumentar o desejo; e com o desejo, dilata a alma, tornando-a mais apta a receber os seus dons ». Aqui Agostinho pensa em S. Paulo que, de si mesmo, afirma viver inclinado para as coisas que hão-de vir (Fil 3,13). Depois usa uma imagem muito bela para descrever este processo de dilatação e preparação do coração humano. « Supõe que Deus queira encher-te de mel (símbolo da ternura de Deus e da sua bondade). Se tu, porém, estás cheio de vinagre, onde vais pôr o mel? » O vaso, ou seja o coração, deve primeiro ser dilatado e depois limpo: livre do vinagre e do seu sabor. Isto requer trabalho, faz sofrer, mas só assim se realiza o ajustamento àquilo para que somos destinados.[26] Apesar de Agostinho falar diretamente só da receptividade para Deus, resulta claro, no entanto, que o homem neste esforço, com que se livra do vinagre e do seu sabor amargo, não se torna livre só para Deus, mas abre-se também para os outros.

De facto, só tornando-nos filhos de Deus é que podemos estar com o nosso Pai comum. Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens. Na oração, o homem deve aprender o que verdadeiramente pode pedir a Deus, o que é digno de Deus. Deve aprender que não pode rezar contra o outro. Deve aprender que não pode pedir as coisas superficiais e cômodas que de momento deseja – a pequena esperança equivocada que o leva para longe de Deus. Deve purificar os seus desejos e as suas esperanças. Deve livrar-se das mentiras secretas com que se engana a si próprio: Deus perscruta-as, e o contacto com Deus obriga o homem a reconhecê-las também. « Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas », reza o Salmista (19/18,13). O não reconhecimento da culpa, a ilusão de inocência não me justifica nem me salva, porque o entorpecimento da consciência, a incapacidade de reconhecer em mim o mal enquanto tal é culpa minha. Se Deus não existe, talvez me deva refugiar em tais mentiras, porque não há ninguém que me possa perdoar, ninguém que seja a medida verdadeira. Pelo contrário, o encontro com Deus desperta a minha consciência, para que deixe de fornecer-me uma autojustificação, cesse de ser um reflexo de mim mesmo e dos contemporâneos que me condicionam, mas se torne capacidade de escuta do mesmo Bem.

Para que a oração desenvolva esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo. O Cardeal Nyugen Van Thuan, contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado às palavras de oração da Igreja: ao Pai Nosso, à Ave Maria e às orações da Liturgia.[27] Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus fala a nós. Deste modo, realizam-se em nós as purificações, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e idôneos ao serviço dos homens. Assim tornamo-nos capazes da grande esperança e ministros da esperança para os outros: a esperança em sentido cristão é sempre esperança também para os outros. E é esperança ativa, que nos faz lutar para que as coisas não caminhem para o « fim perverso ». É esperança ativa precisamente também no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus. Somente assim, ela permanece também uma esperança verdadeiramente humana."1

Fonte: Papa Bento XVI, Carta Encíclica SPE SALVI (30 de novembro de 2007), parágrafos 32-34. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi.html

27 de set de 2016

O poder da oração comunitária.


Depois de aprendermos com os Salmos, convido você a refletir sobre o poder da oração em comunidade, nas horas de provação. E, para isso, compartilho esta bela catequese de Papa Bento XVI:
"Hoje gostaria de meditar sobre o último episódio da vida de são Pedro, narrado nos Atos dos Apóstolos: o seu aprisionamento por vontade de Herodes Agripa e a sua libertação através da intervenção prodigiosa do Anjo do Senhor, na vigília do seu processo em Jerusalém (cf. Act 12, 1-17).
A narração é mais uma vez caracterizada pela oração da Igreja. Com efeito, são Lucas escreve: «Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus instantemente por ele» (Act 12, 5). E, depois de ter deixado milagrosamente o cárcere, por ocasião da sua visita à casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, afirma-se que «numerosos fiéis estavam reunidos a orar» (Act 12, 12). Entre estas duas anotações importantes que explicam a atitude da comunidade cristã diante do perigo e da perseguição, são narradas a detenção e a libertação de Pedro, que dura a noite inteira. A força da oração incessante da Igreja eleva-se até Deus e o Senhor ouve e realiza uma libertação impensável e inesperada, enviando o seu Anjo.
(...) Com efeito, narram os Atos dos Apóstolos: «De repente, apareceu o Anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz, tocando-lhe no lado, e disse-lhe: “Ergue-te depressa”» (Act 12, 7). (...) Finalmente, o convite: «Cobre-te com a capa e segue-me» (Act 12, 8), faz ressoar no coração as palavras da chamada inicial de Jesus (cf. Mc 1, 17), repetida depois da Ressurreição no lago de Tiberíades, onde o Senhor diz duas vezes a Pedro: «Segue-me» (Jo 21, 19.22). É um convite premente ao seguimento: só vivemos a liberdade verdadeira se sairmos de nós mesmos, para nos colocarmos a caminho com o Senhor e cumprirmos a sua vontade.
Gostaria de ressaltar também outro aspecto da atitude de Pedro no cárcere; com efeito, notemos que, enquanto a comunidade cristã reza com insistência por ele, Pedro «estava a dormir» (Act 12, 6). Numa situação tão crítica e de perigo sério, é uma atitude que pode parecer estranha, mas que ao contrário denota tranquilidade e confiança; ele confia em Deus, sabe que está circundado pela solidariedade e pela oração dos seus e abandona-se totalmente nas mãos do Senhor. Assim deve ser a nossa oração: assídua, solidária com os outros, plenamente confiante em relação a Deus, que nos conhece no íntimo e cuida de nós, a tal ponto que — diz Jesus — «até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois...» (Mt 10, 30-31). Pedro vive a noite do cativeiro e da libertação do cárcere como um momento do seu seguimento do Senhor, que vence as trevas da noite e liberta da escravidão das correntes e do perigo de morte. A sua libertação é prodigiosa, caracterizada por vários trechos descritos cuidadosamente: orientado pelo Anjo, não obstante a vigilância dos guardas, atravessa o primeiro e o segundo posto de guarda, até à porta de ferro que introduz na cidade: e a porta abre-se sozinha diante deles (cf. Act 12, 10). Pedro e o Anjo do Senhor percorrem juntos uma parte do caminho até que, voltando a si, o apóstolo se dá conta de que o Senhor realmente o libertou e, depois de ter meditado, vai à casa de Maria, mãe de Marcos, onde muitos dos discípulos estão reunidos em oração; mais uma vez, a resposta da comunidade à dificuldade e ao perigo é confiar em Deus, intensificar a relação com Ele.
Aqui, parece-me útil evocar outra situação difícil, que foi vivida pela comunidade cristã das origens. Fala-nos dela são Tiago na sua Carta.
Trata-se de uma comunidade em crise, em dificuldade, não tanto devido às perseguições, mas porque no seu interior há invejas e conflitos (cf. Tg 3, 14-16). E o apóstolo interroga-se acerca do motivo desta situação. Ele encontra duas razões principais: a primeira é deixar-se dominar pelas paixões, pela ditadura dos próprios desejos, pelo egoísmo (cf. Tg 4, 1-2a); a segunda é a falta de oração — «não pedis» (Tg 4, 2b) – ou a presença de uma oração que não se pode definir como tal — «Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para satisfazer os vossos prazeres» (Tg 4, 3). Segundo são Tiago, esta situação mudaria se a comunidade falasse totalmente unida com Deus, se rezasse realmente de modo assíduo e unânime. Com efeito, também o discurso sobre Deus corre o risco de perder a sua força interior e o testemunho esgota-se, se não forem animados, sustentados e acompanhados pela oração, pela continuidade de um diálogo vivo com o Senhor. Uma exortação importante inclusive para nós e para as nossas comunidades, quer pequenas, como a família, quer as mais vastas, como a paróquia, a diocese e a Igreja inteira. E isto faz-me pensar que rezavam nesta comunidade de são Tiago, mas rezaram mal, somente para satisfazer os próprios prazeres. Temos que aprender sempre de novo a rezar bem, a orar realmente, orientando-nos para Deus e não para o nosso próprio bem.
Ao contrário, a comunidade que acompanha o cativeiro de Pedro é uma comunidade que reza verdadeiramente, durante a noite inteira, unida. E a alegria que invade o coração de todos quando, inesperadamente, o apóstolo bate à porta é irreprimível. São a alegria e a admiração diante da obra de Deus que ouve. Assim, da Igreja eleva-se a oração por Pedro, e na Igreja ele volta para narrar «como o Senhor o tinha tirado da prisão» (Act 12, 17). (...)
Caros irmãos e irmãs, o episódio da libertação de Pedro, narrado por Lucas, diz-nos que a Igreja, cada um de nós, atravessa a noite da provação, mas é a vigilância incessante da oração que nos sustém (...) Com a oração constante e confiante, o Senhor liberta-nos das cadeias, guia-nos para atravessar qualquer noite de cativeiro que possa afligir o nosso coração, infunde-nos a serenidade do coração para enfrentar as dificuldades da vida, até a rejeição, a oposição e a perseguição. O episódio de Pedro mostra esta força da oração. E mesmo aprisionado, o apóstolo sente-se tranquilo, na certeza de que nunca está sozinho: a comunidade reza por ele, o Senhor está-lhe próximo; aliás, ele sabe que «a força de Cristo se manifesta plenamente na fraqueza» (2 Cor 12, 9). A oração constante e unânime é um instrumento precioso também para superar as provações que podem surgir ao longo do caminho da vida, porque o fato de estarmos profundamente unidos a Deus permite-nos estar também profundamente unidos aos outros. Obrigado!"1
Na próxima postagem veremos a relação entre oração e esperança.

Notas
1. Papa Bento XVI, Audiência Geral (9 de Maio de 2012). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2012/documents/hf_ben-xvi_aud_20120509.htm
2. Imagens
1ª Imagem é de autoria de midiagospel.com
2ª Imagem é de autoria desconhecida.

Salmos: escola de oração

Continuando a série sobre Oração, conheceremos agora o valor do livro dos Salmos na aprendizagem do orar. 

O livro dos Salmos é uma "escola de oração"1Nele, aprendemos "continuamente a orar."(CIC 2587)4. Nele, "a Palavra de Deus se torna oração do homem"(CIC 2587)4.


O Papa Bento XVI1, em sua audiência "O povo de Deus que reza: os Salmos", nos ensina o valor dos Salmos na aprendizagem do orar:
"Os Salmos são dados ao fiel precisamente como texto de oração, que tem como única finalidade tornar-se a oração daqueles que os assumem e com eles se dirigem a Deus. Dado que são uma Palavra de Deus, quem recita os Salmos fala a Deus com as palavras que o próprio Deus nos concedeu, dirige-se a Ele com as palavras que Ele mesmo nos doa. Deste modo, recitando os Salmos aprendemos a rezar. Eles constituem uma escola de oração."
"Algo de análogo acontece quando a criança começa a falar, ou seja, a expressar as próprias sensações, emoções e necessidades, com palavras que não lhe pertencem de modo inato, mas que ele aprende dos seus pais e de que vive ao seu redor. Aquilo que a criança quer manifestar é a sua própria vivência, mas o instrumento expressivo pertence a outros; e ele apropria-se do mesmo gradualmente, as palavras recebidas dos pais tornam-se as suas palavras e através destas palavras aprende também um modo de pensar e de sentir, acede a um inteiro mundo de conceitos, e nele cresce, relaciona-se com a realidade, com os homens e com Deus. Finalmente, a língua dos seus pais tornou-se a sua língua, ele fala com palavras recebidas de outros, que já se tornaram as suas palavras. Assim acontece com a oração dos Salmos. Eles são-nos doados para que aprendamos a dirigir-nos a Deus, a comunicarmos com Ele, a falar-lhe de nós com as suas palavras, a encontrar uma linguagem para o encontro com Deus. E, através de tais palavras, será possível também conhecer e aceitar os critérios do seu agir, aproximar-se ao mistério dos seus pensamentos e dos seus caminhos (cf. Is 55, 8-9), de maneira a crescer cada vez mais na fé e no amor. Do mesmo modo como as nossas palavras não são apenas palavras, mas ensinam-nos um mundo real e conceitual, assim também estas preces nos ensinam o Coração de Deus, pelo que não só podemos falar com Deus, mas podemos aprender quem é Deus e, aprendendo a falar com Ele, aprendemos como ser homens, como sermos nós mesmos."
"Quer se trate de um hino, de uma oração de aflição ou de ação de graças, de uma súplica individual ou comunitária, de canto de aclamação ao rei ou de um cântico de peregrinação, ou ainda de uma meditação sapiencial, os Salmos são o espelho das maravilhas de Deus na história de seu povo e das situações humanas vividas pelo salmista."(CIC 2588)4.

"Um Salmo pode refletir um acontecimento do passado, mas é de uma sobriedade tão grande que pode ser rezado na verdade pelos homens de qualquer condição e em qualquer tempo."(CIC 2588)4.Com sua linguagem concreta e variada, nos ensinam a fixar nossa esperança em Deus: "Esperei ansiosamente pelo Senhor, Ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito" (Sl ,2). "Que o Deus da esperança vos cumule de toda alegria e paz em vossa fé, a fim de que pela ação do Espírito Santo a vossa esperança transborde" (Rm 15,13)."(CIC 2657)4.

Papa Francisco2, ao falar do salmo 51, chamado Miserere, nos ensina como viver a Palavra de Deus contida nos Salmos:
"Trata-se de uma oração penitencial na qual o pedido de perdão é precedido pela confissão da culpa e na qual o orante, deixando-se purificar pelo amor do Senhor, se torna uma nova criatura, capaz de obediência, de firmeza e de louvor sincero.
O «título» que a antiga tradição judaica deu a este Salmo refere-se ao rei David e ao seu pecado com Betsabé, a esposa de Urias, o Hitita. Conhecemos bem a história. O rei David, chamado por Deus para apascentar o povo e para o guiar pelos caminhos da obediência à Lei divina, atraiçoa a própria missão e, depois de ter cometido adultério com Betsabé, manda matar o seu marido. Pecado horrível! O profeta Natan revela-lhe a sua culpa e ajuda-o a reconhecê-la. É o momento da reconciliação com Deus, na confissão do próprio pecado. E aqui David foi humilde, foi grande! Quem reza com este Salmo é convidado a ter os mesmos sentimentos de arrependimento e de confiança em Deus que David teve quando se arrependeu e, mesmo sendo rei, se humilhou sem ter receio de confessar a culpa e mostrar a própria miséria ao Senhor, convicto contudo da certeza da sua misericórdia. E não era um pecado de pouca importância, o que ele tinha cometido: um adultério e um assassínio!
O Salmo começa com estas palavras de súplica: «Tende piedade de mim, Senhor, / segundo a Vossa misericórdia, / segundo a vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. / Lavai-me totalmente das minhas iniquidades» (vv. 3-4).
A invocação é dirigida ao Deus de misericórdia para que, movido por um amor grande como o de um pai ou de uma mãe, tenha piedade, isto é, conceda a graça, mostre o seu favor com benevolência e compreensão. É um apelo urgente a Deus, o único que pode libertar do pecado. São usadas imagens muito plásticas: cancela, lava-me, purifica-me. Manifesta-se, nesta oração, a verdadeira necessidade do homem: a única coisa da qual temos deveras necessidade na nossa vida é ser perdoados, libertados do mal e das suas consequências de morte. Infelizmente, a vida faz-nos experimentar muitas vezes estas situações; e antes de tudo devemos confiar na misericórdia. Deus é maior do que o nosso pecado. (...) E o seu amor é um oceano no qual nos podemos imergir sem receio de ser subjugados: para Deus, perdoar significa dar-nos a certeza de que Ele nunca nos abandona. Independentemente do que nos reprovemos, Ele é ainda e sempre maior do que tudo (cf. 1 Jo 3, 20), porque Deus é maior do que o nosso pecado.
Neste sentido, quem reza com este Salmo procura o perdão, confessa a própria culpa, mas reconhecendo-a celebra a justiça e a santidade de Deus. E depois pede ainda graça e misericórdia. O salmista confia na bondade de Deus, sabe que o perdão divino é sumamente eficaz, porque cria aquilo que diz. Não esconde o pecado, mas destrói-o e cancela-o; mas cancela-o precisamente pela raiz, não como fazem na lavandaria quando levamos uma veste e tiram uma nódoa. Não! Deus cancela o nosso pecado precisamente pela raiz, todo! Por isso o penitente volta a ser puro, toda a mancha é eliminada e agora ele está mais branco que a neve incontaminada. Todos nós somos pecadores. É verdade isto? Se algum de vós não se sente pecador que levante a mão... Ninguém! Todos o somos.
Nós, pecadores, com o perdão, tornamo-nos criaturas novas, repletas do espírito e cheias de alegria. Agora começa para nós uma nova realidade: um coração novo, um espírito novo, uma vida nova. Nós, pecadores perdoados, que acolhemos a graça divina, podemos até ensinar aos outros a não voltar a pecar.(...)
Diz o Salmista: «Ó Senhor, criai em mim um coração puro, / e renovai ao meu interior um espírito reto. [...] Então ensinarei aos iníquos os Vossos caminhos / e converter-se-ão a Vós os pecadores» (vv. 12. 15)."
"Tomemos portanto na nossa mão este livro santo, deixemo-nos ensinar por Deus a dirigir-nos a Ele, façamos do Saltério uma guia que nos ajude e nos acompanhe quotidianamente no caminho da oração." nos convida Papa Bento XVI.

Na próxima postagem da série sobre orações, veremos o poder da oração comunitária.

Nota:
1. Papa Bento XVI, Audiência Geral: O homem em oração (7): O povo de Deus que reza: os Salmos (22 de junho de 2011). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20110622.html

3. Desconheço a autoria da imagem.
4. Catecismo da Igreja Católica, índice analítico:S.13 Salmos. Disponível em: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/s/salmos.html

Compreendendo o ato de orar

Iniciamos, hoje, uma série de postagens sobre oração. Primeiramente, nesta postagem, teremos a noção conceitual e posteriormente teremos postagens diversas sobre o orar, seus benéficos, sua importância na Igreja, etc., sempre de acordo com a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.

O que é orar? Orar é um ato de amor, de vontade, de intelecto, no qual se estabelece uma relação com Deus, se fala com Ele. 
De amor, porque abrimos o nosso coração Àquele que nos ama infinitamente. Segundo o Catecismo da Igreja Católica(CIC)1, no parágrafo 2567: "Na oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é sempre uma resposta.".
De vontade, porque é "uma resposta decidida da nossa parte" (CIC 2725)2.
De intelecto porque orar "é própria da criatura racional"3. Orar é o ato de voltar a atenção a Deus; de ter consciência dos próprios atos e reconhecer-se pecador; de tomar consciência d'Aquele a Quem falamos; de expressar o que há na alma pelo silêncio, por orações e cânticos de suplica e louvor.
Quais as formas de oração? O CIC fala em 6 formas:
Bênção - " é o encontro de Deus com o homem"(CIC 2626)4, que se faz de "duas formas fundamentais: umas vezes, a bênção sobe, levada por Cristo no Espírito Santo, para o Pai (nós O bendizemos por Ele nos ter abençoado) (Ef 1, 3-14; 2 Cor 1, 3-7; 1 Pe 1, 3-9); outras vezes, implora a graça do Espírito Santo que, por Cristo, desce de junto do Pai (é Ele que nos abençoa) (2 Cor 13, 13; Rm 15, 5-6.13; Ef 6, 23-24)" (CIC 2627)4.
Adoração  - "É a prostração do espírito perante o «Rei da glória» (Sl 24, 9-10) e o silêncio respeitoso face ao Deus «sempre maior»"(CIC 2628)4.
Petição - é o ato de pedir. Em "Êxodo 32, 7-14 , "Moisés «fala livremente diante do Senhor». E fazendo assim «ensina-nos a rezar: sem medo, livremente, até com insistência». Moisés «insiste, é corajoso: a oração deve ser assim!».«quando rezamos a Deus, não é um diálogo a dois» mas a três, «porque sempre em cada oração está presente o Espírito Santo»"5. Jesus afirma: "Até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita." (Jo 16,24); " todo aquele que pede, recebe." (Mt 7,8)". E é na confiança de Sua Palavra que se faz a oração de petição. Com fé, esperança e amor, a criatura humana se volta ao Criador em busca de ajuda, de proteção. A oração de petição é "já um regresso a Ele."(CIC 2629)4 e o " pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição (...) é o preâmbulo da liturgia Eucarística, bem como da oração pessoal."(CIC 2631)4.
Intercessão - é pedir a favor de outrem. "Na intercessão, aquele que ora não «olha aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros» (Fl 2, 4), e chega até a rezar pelos que lhe fazem mal (cf. Act 7, 60; Lc 23, 28.34.)"(2635)4. "A intercessão dos cristãos não conhece fronteiras: «[...] por todos os homens, [...] por todos os que exercem a autoridade» (1 Tm 2, 1), pelos perseguidores (Cf. Rm 12, 14), pela salvação dos que rejeitam o Evangelho (Cf. Rm 10, 1)."(CIC 2636)4. São Tomás de Aquino afirma que "Orar pelos outros é obra de caridade"6 e orar pelos inimigos é "é obra de perfeição"6.
Ação de graças - é reconhecer que tudo é dom de Deus e agradecer a Ele pelos bens recebidos, pelas graças alcançadas. "As cartas de São Paulo muitas vezes começam e acabam por uma ação de graças, e nelas o Senhor Jesus está sempre presente: «Dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito» (1 Ts 5, 18); «perseverai na oração; sede, por meio dela, vigilantes em acções de graças» (Cl 4, 2)."(CIC 2638)4.
Louvor - "é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus! Canta-O por Si próprio, glorifica-O, não tanto pelo que Ele faz, mas sobretudo porque ELE É. Participa da bem-aventurança dos corações puros que O amam na fé, antes de O verem na glória. Por ela, o Espírito junta-Se ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus (Cf. Rm 8, 16) e dá testemunho do Filho Único no qual fomos adotados e pelo qual glorificamos o Pai. O louvor integra as outras formas de oração e leva-as Aquele que delas é a fonte e o termo: «o único Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos» (1 Cor 8, 6)."(CIC 2639)4.
Como expressar o orar? " a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação."(CIC 2699) 2
Oração vocal se expressa mediante palavras,"mentais ou vocais"(CIC 2700)2. "Nós somos corpo e espírito e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. Devemos rezar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica a maior força possível".(CIC 2702)2. E "esta necessidade corresponde também a uma exigência divina. Deus procura quem O adore em espírito e verdade e, por conseguinte, uma oração que suba viva das profundezas da alma. Mas também quer a expressão exterior que associe o corpo à oração interior, porque ela Lhe presta a homenagem perfeita de tudo a quanto Ele tem direito."(CIC 2703)2.
"A oração vocal é, por excelência, a oração das multidões. Mas até a oração mais interior não pode prescindir da oração vocal. A oração torna-se interior na medida em que tomamos consciência d'Aquele «a Quem falamos»(...). Então, a oração vocal torna-se uma primeira forma da contemplação."(CIC 2704)2.
Meditação - busca "compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede. Exige uma atenção difícil de disciplinar. "(CIC 2705)2. Habitualmente, recorre-se à ajuda dum livro e os cristãos não têm falta deles: a Sagrada Escritura, em especial o Evangelho, os santos ícones (as imagens), os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, o grande livro da criação e o da história, a página do «hoje» de Deus."(CIC 2705)2. "Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: «Senhor, que quereis que eu faça?»."(CIC 2706)2. "A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir a Cristo. A oração cristã dedica-se, de preferência, a meditar nos «mistérios de Cristo», como na « lectio divina» ou no rosário."(CIC 2708)2. 
Contemplação - é " um olhar de fé fixo em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um amor silencioso.." (CIC 2724). "Nesta modalidade de oração pode, ainda, meditar-se; todavia, o olhar vai todo para o Senhor."(CIC 2709)2." A entrada na contemplação é análoga à da liturgia eucarística: «reunir» o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, habitar na casa do Senhor que nós somos, despertar a fé para entrar na presença d'Aquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar o nosso coração para o Senhor que nos ama, de modo a entregarmo-nos a Ele como uma oferenda a purificar e transformar."(CIC 2711)2. "A escolha do tempo e duração da contemplação depende duma vontade determinada, reveladora dos segredos do coração. Não se faz contemplação quando se tem tempo; ao invés, arranja-se tempo para estar com o Senhor, com a firme determinação de não Lho retirar durante o caminho, sejam quais forem as provações e a aridez do encontro. Não se pode meditar sempre; mas pode-se entrar sempre em contemplação, independentemente das condições de saúde, trabalho ou afectividade. O coração é o lugar da busca e do encontro, na pobreza e na fé. "(CIC 2710)2. É preciso consentir em velar uma hora com Ele (Mt 26, 40-41)."(CIC 2719)2
Segundo Papa Bento XVI, Maria é modelo insuperável de contemplação a Cristo:
"O rosto do Filho pertence-lhe a título especial, porque foi no seu seio que se formou, assumindo dela também um semblante humano. Ninguém se dedicou à contemplação de Jesus com tanta assiduidade como Maria. O olhar do seu coração concentra-se sobre Ele já no momento da Anunciação, quando O concebe por obra do Espírito Santo; nos meses seguintes sente pouco a pouco a sua presença, até ao dia do nascimento, quando os seus olhos podem fixar com ternura materna o rosto do Filho, enquanto o envolve em faixas e o coloca na manjedoura. As recordações de Jesus, gravadas na sua mente e no seu coração, marcaram cada momento da existência de Maria. Ela vive com os olhos postos em Cristo e valoriza cada uma das suas palavras. «Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19), assim apresenta são Lucas a atitude de Maria diante do Mistério da Encarnação, atitude que se prolongará por toda a sua existência. Lucas é o evangelista que nos faz conhecer o Coração de Maria, a sua fé (cf. 1, 45), a sua esperança e obediência (cf. 1, 38), a sua interioridade e oração (cf. 1, 46-56), a sua adesão livre a Cristo (cf. 1 55). E tudo isto procede do dom do Espírito Santo que desce sobre Ela (cf. 1, 35), como descerá sobre os Apóstolos segundo a promessa de Cristo (cf. Act 1, 8). Esta imagem de Maria apresenta-a como modelo de cada crente que conserva e confronta as palavras e as acções de Jesus, um confronto que é sempre um progredir no conhecimento d’Ele. Na esteira do beato João Paulo II (cf. Carta ap. Rosarium Virginis Mariae) podemos dizer que a recitação do Rosário tem o seu modelo precisamente em Maria, porque consiste em contemplar os mistérios de Cristo em união espiritual com a Mãe do Senhor. A capacidade de Maria de viver do olhar de Deus é, por assim dizer, contagiosa."11
De onde brota a oração? "Seja qual for a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que ora. Mas para designar o lugar de onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito ou, com mais frequência, do coração (mais de mil vezes). É o coração que ora. Se ele estiver longe de Deus, a expressão da oração será vã." (CIC 2562)1.

Quais características deve ter quem ora? Jesus nos ensina isso em três parábolas do Evangelho de Lucas, que são as "três parábolas principais sobre a oração" (CIC 2613)2:
"A primeira, a do «amigo importuno» (Lc 11, 5-13), convida-nos a uma oração persistente: «Batei, e a porta abrir-se-vos-á». Aquele que assim ora, o Pai celeste «dará tudo quanto necessitar» e dará, sobretudo, o Espírito Santo, que encerra todos os dons.
A segunda, a da «viúva importuna» (Lc 18, 1-8), está centrada numa das qualidades da oração: é preciso orar sem se cansar, com a paciência da fé. (...)
A terceira, a do «fariseu e do publicano» (Lc 18, 9-14), diz respeito à humildade do coração orante. «Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador»."
Assim, Jesus, como "bom pedagogo"(CIC 2607)2, mostra que as características desejáveis são: persistência, paciência e humildade.

O que pedir na oração? Jesus nos ensina que devemos buscar "em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo."(Mt 6, 33). "Quando, nas nossas orações, pedimos o necessário à salvação, conformamos a nossa vontade com a de Deus, da qual diz a Escritura, que quer que todos os homens se salvem.", diz São Tomás de Aquino7.
Para Santo Agostinho, devemos pedir primeiro o "reino de Deus, como nosso bem" e "os bens temporais, em segundo lugar". Os bens temporais são desejáveis "enquanto conservam a saúde do corpo e servem para mantermos o estado conveniente à nossa pessoa, de modo a não ser penosa para os outros a nossa convivência. Por onde, quando os temos, devemos orar para não os perdermos; e quando não os temos, para que os consigamos"(apud 8)

Por quem orar? São Tomás de Aquino nos instrui que "devemos desejar o bem, não só para nós, mas também para os outros (...) a caridade exige que oremos pelos outros"9
Segundo São João Crisóstomo, "A necessidade obriga a orarmos por nós; e a orar pelos outros a caridade fraterna nó–la exorta. Ora, perante Deus, é mais doce a oração que não se funda na necessidade, mas se inspira na caridade fraterna."(apud 9).

Deus pode nos negar o pedido? São Tomás de Aquino afirma que "pode acontecer às vezes, que a oração feita em benefício de outrem, mesmo se for pia, perseverante e pedir o que lhe respeita à salvação, não consiga o que pede, por causa de algum impedimento por parte daquele por quem oramos, conforme àquilo da Escritura: Ainda que Moisés e Samuel; se pusessem diante de mim, não está a minha alma com este povo."9

Quais os lugares favoráveis à oração? O Catecismo, parágrafo 269110, dá a resposta:
"igreja, casa de Deus, é o lugar próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial. É também o lugar privilegiado para a adoração da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. (...)
para a oração pessoal, pode servir um «recanto de oração», com a Sagrada Escritura e ícones (imagens) para aí se estar «no segredo» diante do Pai (Mt 6, 6). Numa família cristã, este gênero de pequeno oratório favorece a oração em comum;
nas regiões onde existem mosteiros, tais comunidades estão vocacionadas para favorecer a participação dos fiéis na Liturgia das Horas e permitir a solidão necessária para uma oração pessoal mais intensa (II Concílio do Vaticano, Decr. Perfectae caritatis, 7: AAS 58 (1966) 705);
as peregrinações evocam a nossa marcha na terra para o céu. São tradicionalmente tempos fortes duma oração renovada. Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver «em Igreja» as formas da oração cristã."
Quando orar? "Tiago (Tg 1, 5-8) e Paulo nos exortam a orar em todas as ocasiões (Ef 5, 20; Fl 4, 6-7; Cl 3, 16-17; 1 Ts 5, 17-18)."(CIC 2633)"A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua. Alguns são quotidianos: a oração da manhã e da noite, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O Domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração. O ciclo do ano litúrgico e as suas grandes festas constituem os ritmos fundamentais da vida de oração dos cristãos."(CIC 2698)2.

Assim, o " O Senhor conduz cada pessoa pelos caminhos e da maneira que Lhe apraz. Por seu turno, cada fiel responde-Lhe conforme a determinação do seu coração e as expressões pessoais da sua oração."(CIC 2699)2.

Na próxima postagem, veremos que o livro do Salmos é um livro que nos ensina a orar com as Palavras de Deus.

Nota
1.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos  2558-2565. disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4-intr_2558-2565_po.html
2.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2697-2758. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4s1cap3_2697-2758_po.html
3. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 10. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/4363
4. Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2566-2649. Disponível em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4s1cap1_2566-2649_po.html
5. Papa Francisco, meditações matutinas: "Um amigo ao qual orar" (03 de abril de 2014). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2014/documents/papa-francesco_20140403_meditazioni-44.html
6. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 8. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/3978
7. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 5. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/3975
8. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/3976
9. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 7. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/3977
10.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos  2650-2696. disponível em:
11. Papa Bento XVI, Audiência Geral: "A oração e a Santa Família de Nazaré" (28 de dezembro de 2011). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20111228.html
12.Desconheço a autoria da imagem.



"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12