8 de ago de 2008

Estaria Cristo dividido?


"Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento. Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?" (I Coríntios 1, 10-13)

Qualquer semelhança entre a passagem bíblica acima e os dias atuais não é mera coincidência. Hoje vemos pessoas dizendo "eu sou de Lutero", "eu sou de Calvino", "eu de igreja tal", "eu de fulano", "eu de sicrano", e assim sucessivamente. Percebe-se o quanto a advertência de São Paulo é atual. Na ausência de um legítimo princípio de autoridade — tal como o encontramos na Igreja Católica — a tendência é essa mesma, ou seja, que cada um siga o seu próprio entendimento, e que mais e mais pessoas se julguem no direito de fundar uma nova "igreja", como tem acontecido há quase 500 anos. Rechaçam-se a Tradição e o Magistério de sempre em troca de um arremedo de tradição e de um magistério que se baseia exclusivamente na autoridade humana. Pois cada nova "igreja" tem a sua própria tradição (ex.: "a tradição luterana", "a tradição calvinista" etc.) e o seu "magistério", composto, em nível local, pelos pastores, pelos diáconos e presbíteros, e nos níveis regional, nacional e internacional, pelos sínodos, concílios, convenções, federações etc. Por que não seguir a Tradição bimilenar inaugurada por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, em vez da uma tradição de 400, 200, 80, 50 ou 30 anos? E por que não obedecer ao Magistério instituído pelo próprio Deus Filho, com a escolha dos doze Apóstolos sob a chefia de Pedro, em vez de se submeter ao "magistério" luterano, calvinista, iurdiano ou ainda ao "magistério de um homem só" (no caso daqueles que não se filiam a nenhuma igreja, com a convicção de o Espírito Santo lhes revela, individualmente, a verdadeira ortodoxia)?

Como já foi dito alhures, se Cristo quisesse que cada um O seguisse à sua maneira, isto é, que cada cristão tivesse liberdade tanto para interpretar a doutrina como bem lhe parecesse quanto para seguir a interpretação de uma outra pessoa qualquer (Lutero, Calvino, ...), se fosse essa a vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, Ele não teria escolhido doze Apóstolos, nem teria eleito Pedro como o chefe deles (cf. Mt. 16,15-19 e Jo. 21,15-17). Em outras palavras, não haveria razão para existir, desde os primórdios da Igreja, essa distinção entre os que são incumbidos de ensinar e aqueles aos quais cabe obedecer. É evidente que, quando falta a autoridade, instaura-se o relativismo, o subjetivismo, enfim, o caos. Basta olharmos para as comunidades cristãs não-católicas para comprovarmos esse fato de modo cabal. (Aliás, é triste reconhecer, mas somos forçados a dizer que mesmo no meio católico pode se instalar a desordem, bastando para isso que os católicos ponham de lado a autoridade do Magistério... Mas isso é assunto para um outro artigo.)

Os protestantes afirmam que a única autoridade é a Bíblia (sola Scriptura), mas como pode ser assim, se cada pessoa interpreta a Escritura Sagrada de um jeito? Mesmo entre os próceres do protestantismo há divergências sérias e inconciliáveis, como no que diz respeito ao batismo (por imersão ou por aspersão? Infantil ou só para adolescentes e adultos?), à Santa Ceia (presença real de Cristo nos elementos ou simples simbolismo?), à liturgia de um modo geral, à escatologia, à moralidade (aborto, divórcio, uso de preservativo e controle da natalidade, relacionamentos homossexuais etc.), e outros temas. Imaginem se cada cidadão brasileiro tivesse liberdade para interpretar a Constituição Federal (que é a lei maior do país) à sua maneira! Seria o caos total! É para evitar essa desordem generalizada que existe o Supremo Tribunal Federal, corte máxima do país. Como poderia ser diferente na Igreja de Cristo? Ademais, é inegável que, nos primeiros anos, décadas ou mesmo séculos do cristianismo, a Bíblia, tal como a conhecemos hoje, simplesmente não existia! Primeiro porque os livros que a compõem foram sendo escritos paulatinamente (não surgiram prontos de uma hora para outra!). Em segundo lugar, demorou um bom tempo até que fosse definido o cânon, isto é, a lista definitiva dos livros reconhecidos como legítimos e divinamente inspirados (os quais viram a compor a Bíblia). E aqui é importante ressaltar que esse cânon foi proclamado oficialmente pela Igreja, com base na autoridade delegada por Cristo aos Apóstolos e necessariamente aos seus sucessores. Sem essa definição solene da Igreja, a Bíblia simplesmente não existiria, e até hoje teríamos uma quantidade enorme de livros, sendo literalmente impossível saber, de forma absoluta e definitiva, quais eram realmente inspirados. E em terceiro lugar, durante quase mil e quinhentos anos (repito: mil e quinhentos anos, ou quinze séculos!), a Bíblia estava fora do alcance da grande maioria dos cristãos, seja porque muitos eram analfabetos, seja porque, antes da invenção da imprensa, cópias da Bíblia eram muito caras e trabalhosas. Ora, durante todo esse longo período, ou seja, da fundação da Igreja por nosso Senhor Jesus Cristo até a invenção da imprensa, a que autoridade os cristãos obedeciam? Será que nosso Senhor deixaria Suas ovelhas vagarem a esmo, ou permitiria que elas fossem levadas ao erro, e isso durante 1500 anos (isto é, até que a imprensa fosse inventada e todos os cristãos enfim tivessem acesso à Bíblia), sendo que Cristo prometeu que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra a Sua Igreja (Mt. 16,18) e que Ele permaneceria conosco até a consumação dos séculos (Mt. 28,20)?

É claro que essa idéia protestante, de que a Igreja se "desviou" pouco depois de nascer e permaneceu desviada até ser "restaurada" no século XVI, não tem o menor sentido. Se isso fosse verdade, então Cristo teria faltado com Sua promessa, o que obviamente é impossível. Entre a palavra dos "reformadores" (e dos seus seguidores) e a palavra do Cristo, dos Seus Apóstolos e sucessores, não pode haver dúvida de que lado devemos ficar. Não está claro que, se há erro, esse erro não pode ter sido dos legítimos sucessores dos Apóstolos (Deus não o permitiria!), e sim daqueles que rejeitaram a autoridade do Magistério, preferindo seguir o seu próprio entendimento, como insistem em fazer até hoje os protestantes?

Como é bom saber que, em meio ao relativismo, ao subjetivismo e ao caos que grassam em nossos dias, encontramos na autoridade da Igreja o verdadeiro e único porto seguro no qual nossa mente e nosso coração podem descansar! Como é bom saber que nosso Senhor Jesus Cristo não nos deixou órfãos, não nos deixou a sós, mas nos deu a Igreja como Mãe e Mestra! Como é maravilhoso ter a certeza do caminho a seguir, e uma certeza que não está baseada em nenhuma opinião individual ou meramente humana, mas que está enraizada nas promessas de nosso Senhor Jesus Cristo, no Seu amor e na Sua misericórdia por nós! Como é glorioso saber que na Igreja Católica Apostólica Romana, e somente nela, podemos encontrar a unidade querida por São Paulo e pelo próprio Senhor Jesus Cristo, quando orou ao Pai dizendo: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim." (Jo. 17,20-23).

Fonte: Veritatis Splendor - Por Marcos Monteiro Grillo
Formação da Comunidade Shalom: http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=2827

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