19 de out de 2008

Homilia - Raniero Cantalamessa


“A César o que é de César”


XXIX Domingo
A - 2008-10-19
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Isaías, 45, 1.4-6; 1ª Tessalonicenses 1, 1-5b; Mateus 22, 15-21


O Evangelho deste domingo termina com uma daquelas frases lapidárias de Jesus, que deixaram uma marca profunda na história e na linguagem humanas: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Não é mais «ou César ou Deus», e sim um e outro, cada um no seu lugar. É o começo da separação entre religião e política, até então inseparáveis em todos os povos e regimes. Os hebreus estavam acostumados a conceber o futuro reino de Deus instaurado pelo Messias como uma «teocracia», isto é, como um governo dirigido por Deus em toda a terra através do seu povo. Agora, no entanto, a palavra de Cristo revela um reino de Deus que «está» no mundo, mas que não «é» do mundo, que caminha numa longitude de onda diferente e que, por isso, coexiste com qualquer outro regime, seja de tipo sacro ou «leigo».

Revelam-se, assim, dois tipos qualitativamente diferentes de soberania de Deus no mundo: a «soberania espiritual», que constitui o reino de Deus e que Ele exerce diretamente em Cristo, e a «soberania temporal» ou política, que Deus exerce indiretamente, confiando-a à livre escolha das pessoas e às causas segundas.
César e Deus, no entanto, não estão no mesmo nível, porque César também depende de Deus e deve prestar-lhe contas. «Dai a César o que é de César» significa, portanto: «Dai a César o que ‘o próprio Deus quer’ que seja dado a César». Deus é o soberano de todos, incluído César. Não estamos divididos entre duas pertenças, não estamos obrigados a servir «dois senhores». O cristão é livre para obedecer o Estado, mas também para resistir ao Estado quando este se coloca contra Deus e contra a sua lei. Neste caso, não vale invocar o princípio da ordem recebida dos superiores, como costumam fazer diante dos tribunais dos responsáveis de crimes de guerra. Antes de que aos homens, é preciso obedecer a Deus e à própria consciência.
O primeiro em tirar conclusões práticas deste ensinamento de Cristo foi São Paulo. Ele escreveu: «Submetam-se todos às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não provenha de Deus, e as que existem, por Deus foram constituídas. De modo que, quem se opõe à autoridade, se rebela contra a ordem divina... Por isso precisamente pagais os impostos, porque são funcionários de Deus, ocupados assiduamente nesse ofício» (Rm 13, 1ss.). Pagar lealmente os impostos para um cristão (também para toda pessoa honrada) é um dever de justiça e, portanto, um dever de consciência.

Garantindo a ordem, o comércio e todos os demais serviços, o Estado dá ao cidadão algo pelo qual tem direito a uma contrapartida, precisamente para poder continuar prestando estes serviços.
A evasão fiscal, quando alcança certas proporções – recorda o Catecismo da Igreja Católica – é um pecado mortal, similar ao de qualquer roubo grave. É um roubo feito não ao «Estado», ou seja, a ninguém, mas à comunidade, ou seja, a todos. Isso supõe naturalmente que também o Estado seja justo e equitativo quando impõe as taxas.

A colaboração dos cristãos na construção de uma sociedade justa e pacífica não se reduz a pagar os impostos; deve estender-se também à promoção de valores comuns, como a família, a defesa da vida, a solidariedade com os mais pobres, a paz. Há também outro âmbito no qual os cristãos deveriam dar uma contribuição maior à política. Não tem tanto a ver com os conteúdos, mas com os métodos, o estilo. É necessário mudar o clima de luta permanente, procurar maior respeito, compostura e dignidade nas relações entre partidos. Respeito ao próximo, moderação, capacidade de autocrítica: são traços que um discípulo de Cristo deve levar a todas as coisas, também à política. É indigno de um cristão abandonar-se a insultos, sarcasmo, rebaixar-se a brigas com os adversários. Se, como dizia Jesus, quem chama o irmão de «estúpido» já é réu da Geena, que será de muitos políticos?


[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.]

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