16 de nov de 2008

Interpretação da Sagrada Escritura

A Constituição Dogmática Lúmen Gentium do Concílio Vaticano II sobre a Revelação divina, diz :

“Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.” (DV. 12)

Para esse fim, o Concílio lembra-nos que é preciso ter em conta o seguinte :

A - Os gêneros literários: "A verdade é proposta e expressa ora de um modo ora de outro, segundo se trata de gêneros históricos, proféticos, poéticos ou outros. Estes gêneros devem ser entendidos como os entenderam os povos semitas no tempo em que foi escrito cada um dos Livros." ( DV 12)

B - Os sentidos bíblicos: Tradicionalmente têm-se distinguido na Bíblia o sentido literal, o sentido pleno, o sentido consequente e o sentido típico.

Sentido Literal é aquele que todo o autor atribui ao texto. Pode ser próprio e impróprio, figurado ou metafórico.

O sentido próprio é aquele em que as palavras são tomadas no seu significado óbvio.

O sentido impróprio é aquele em que as palavras são tomadas no sentido derivado ou figurado, como vós sois o sal da terra. (Mt 5, 13)

Sentido Pleno é o significado mais profundo dum texto determinado pretendido pelo autor divino e que se descobre à luz duma revelação ulterior, especialmente à luz do Novo Testamento.

O Sentido Pleno resulta do fato de a Bíblia ter dois autores: Deus que, ao inspirar determinado texto, tem já presente toda a Revelação ulterior e o hagiógrafo, que apenas conhece a revelação já feita e por isso só tem presente o mistério que Deus quer revelar nesse determinado momento histórico.

Temos um exemplo claro disto nas profecias messiânicas do Antigo Testamento. Para nós são claras porque o Messias já veio, e tudo se cumpriu até ao último til.

Mas o seu significado, pelo que hoje tem para nós, não foi atingido pelo hagiógrafo e Deus teve-o desde o princípio.

Sentido Conseqüente - É o princípio que se deduz do texto sagrado por um simples raciocínio, muito usado pela escolástica, hoje praticamente abandonado porque pouco de acordo com a teologia bíblica.

Sentido Típico - Este sentido dá-se, quando os acontecimentos, instituições, pessoas, etc., designadas pelos textos sagrados, representam e prefiguram acontecimentos, instituições e pessoas de ordem superior, sendo querida e pretendida por Deus essa correspondência entre as duas realidades.

Assim, a serpente de bronze erguida por Moisés é a figura de Cristo crucificado:

“Faz uma serpente ardente e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido, olhando para ela, viverá.” (Nm 21, 8-9)

“Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também tem de ser levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que n’Ele crer tenha a vida eterna.” (Jo 3, 14-15)

A passagem do Mar Vermelho é a figura do Batismo e o maná é a figura da Eucaristia.

“Os filhos de Israel desceram a pé enxuto para o meio do mar, e as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda deles.” (Ex 14, 22)

“Todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar. Todos foram batizados e comeram do mesmo alimento espiritual...” (1 Cor 10, 2).

C - Sentido Acomodatício: Consiste em dar às palavras da Sagrada Escritura um sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar, devido a uma certa semelhança entre a passagem bíblica e a sua aplicação. Este sentido é muito usado na liturgia e na pregação.

Temos um exemplo claro nas Missas de Nossa Senhora que aplicam a Maria os textos que se referem à Sabedoria divina :

“O Senhor me criou como primícia das Suas obras, desde o princípio antes que criasse coisa alguma. Desde a eternidade fui constituída, desde as origens antes que a terra fosse criada...” (Prov 8, 22-23)

“Ele criou-me desde o princípio, antes de todos os séculos, e não deixarei de existir até ao fim dos séculos.” (Ecle 24, 14)

No sentido acomodatício não devemos buscar tipos onde eles não existem, mas também não devemos desprezar este gênero de Interpretação, pois tudo quanto se integra na vida do Povo de Deus possui um sentido em relação com o mistério de Deus manifestado em Cristo.

Cristo constitui o centro da história. E para o compreender não basta considerar os anos da Sua Vida Pública, mas é preciso ter em conta o tempo que O precedeu e o tempo após a Sua Ressurreição.

D - Regras Teológicas de Interpretação: Além do já aduzido, o Concílio aponta outros princípios que devem reger a Interpretação da Sagrada Escritura. São eles :

1 – “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita". (cf.DV 12). Portanto, o mesmo Espírito que inspirou os Livros Santos deve iluminar os teólogos, que docilmente e com espírito de fé, se dedicam a interpretá-las.

2 – Cabe aos exegetas trabalhar de harmonia com estas regras para entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, "mercê deste estudo preparatório, amadureça o juízo da Igreja" (DV 12). Esta é a função dos exegetas : preparar o juízo da Igreja e não substituí-lo.

3 – “Com efeito, tudo quanto diz respeito à Interpretação da Sagrada Escritura está sujeito ao juízo último da Igreja que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus” (DV 12).

À Igreja, portanto, pertence-lhe propriamente velar o trabalho dos exegetas, para que esse trabalho seja feito de harmonia com a Tradição e os dados da Sagrada Escritura e se mantenha no reto caminho.

Como os Livros da Bíblia não foram escritos no mesmo tempo histórico, ficaram sujeitos à História Literária do seu tempo.

Por John Nascimento

Fonte: http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/articles/article.php?id=9

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