13 de nov de 2008

Meditação sobre o Santo Rosário (I)

Introdução

Comecemos com um fato teológico surpreendente: o rosário é um dos modos de oração mais queridos pelo Povo de Deus. Está na alma, no instinto dos fiéis. Simples leigos, iletrados ou cultos, monges, religiosos missionários e religiosas de clausuras, sacerdotes, bispos e papas, uma imensa multidão de fiéis encontram no santo rosário conforto e caminho seguro de oração. Isto não pode ser fruto do acaso, mas revela uma direção na qual o Espírito que guia a Igreja e sustenta o instinto de fé do Povo de Deus, vai conduzindo os discípulos de Cristo na sua prática de piedade. Em outras palavras: na difusão da devoção do rosário certamente há uma providencial ação do Espírito de Deus.

Não é possível datar com certeza a origem do rosário nem determinar com precisão o modo como evoluiu. De modo breve e geral, sabemos que os primeiros monges do deserto, lá pelo século IV, tinham o costume de rezar orações vocais usando pedrinhas como marcadores. Em geral, rezava-se o Pai-nosso. A partir do século XII, difundiu-se o costume de rezar cento e cinqüenta Ave-Marias com cordinhas cheias de nós: era o modo que muitos iletrados encontravam para substituir a oração dos cento e cinqüenta salmos que os monges rezam nos coros das grandes abadias medievais. Depois, se uniu às Ave-Marias os Pai-nossos. Finalmente, uniu-se às orações a contemplação dos mistérios. Foram os dominicanos que, no século XIII, muitíssimo contribuíram para a difusão dessa devoção que, assim, se espalhou por toda a cristandade ocidental. A partir de 1480 iniciou-se a esquematização dos quinze mistérios como tínhamos até a pouco, quando o Servo de Deus João Paulo II introduziu os cinco mistérios luminosos.

Várias vezes, em tempos de graves perigos, provocados por guerras e heresias, foi a oração do rosário que sustentou e consolou a fé do povo de Deus. Basta pensar como os dominicanos usaram esta oração no combate à heresia cátara, no século XIII e como o povo cristão a rezou pedindo socorro contra os muçulmanos na batalha naval de Lepanto, no século XVI.O rosário é, pois, patrimônio da devoção da Igreja do Ocidente. Século após século esta foi sobretudo a oração dos pobres, dos simples, dos desvalidos, seu misterioso elo de ligação com a Igreja e com a vida espiritual e um símbolo claríssimo de identidade católica.

É importante recordar que nas várias aparições da Virgem Maria – sobretudo em Lourdes e Fátima – Nossa Senhora insistiu na reza do rosário. Esses apelos tiveram impressionante eco na Igreja: vários documentos do Magistério papal e o próprio exemplo pessoal dos Papas e dos santos apelam vivamente a essa forma de oração.

A devoção do rosário é preciosa por vários motivos:
(1) é bíblica, ajudando a penetrar contemplativamente os mistérios essenciais da história da salvação,
(2) está toda orientada para Cristo, já que para ele se dirigem e dele decorrem todos os acontecimentos da nossa salvação;
(3) apresenta um caráter contemplativo, pois na cantilena das ave-marias o coração vai repousando no afeto despertado pela pacífica e serena contemplação dos mistérios recordados;
(4) e, finalmente, tem relação profunda com a liturgia, pois é nesta última que se faz o memorial de toda a história da salvação, que tem na Páscoa de Cristo o seu cume.

O rosário tem uma dinâmica própria, que é muito importante que seja bem compreendida: aí louva-se o Cristo. A Virgem abre-lhe o caminho, pois a cadência das palavras com a contemplação dos mistérios permitem ao orante unir-se afetivamente ao Senhor, Autor da nossa salvação e último responsável por tudo quanto ali contemplamos.

Assim, quem reza o rosário de maneira correta sente-se chamado pessoalmente, sente-se preso e inserido no destino e no curso da vida do nosso Salvador. Deste modo, o santo Rosário é realmente oração do Senhor e ao Senhor. Bem rezado, ele é uma forma excelente de oração, que nos exercita na meditação contemplativa, reunindo as forças do espírito e da alma em torno do Redentor, fazendo-nos aderir a ele e moldar nosso coração pelo seu Coração, conformando nossos sentimentos aos seus.

A repetição cadenciada, a atenção atenta, mas não forçada, mais presa pelo afeto que pela racionalidade, une profunda e intuitivamente ao mistério de Cristo, dando-nos aquele conhecimento que ultrapassa todo conhecimento. Deste modo, o santo rosário tem sido a oração dos pequenos, dos simples, dos incultos, formando um inumerável exército de santos.

Notas para bem rezá-lo:
(a) Mais importante que a atenção às ave-marias é a contemplação dos mistérios;
(b) As ave-marias servem para cadenciar a contemplação em união com a Mãe do Senhor, dando paz, repouso e serenidade ao coração e à mente;
(c) É importante ter o rosário em mãos enquanto se reza: o passar as contas é parte da oração e dá-lhe o ritmo;
(d) Deve-se ter atenção ao que se reza: não tanto à palavra, mas primeiramente ao afeto, que vai brotando paulatinamente, à medida que as contas são passadas;
(e) No caso de distração, não se deve preocupar; basta voltar a atenção e continuar tranquilamente a oração. É importante também aprender a fazer da distração a própria oração: aquilo que nos distraiu deve ser colocado na própria oração. Em outras palavras: dizem-se as ave-marias pensando-se nas coisas que nos ocupam e preocupam. Assim, numa impressionante compenetração, a oração entra na vida e a vida se faz oração.
(f) É importante a cadência na recitação. Os pai-nossos e ave-marias devem ser quase que cantados numa espécie de “retotom”...
(g) Mais que em qualquer outro modo de oração vocal, no rosário a coisa não está em pensar muito, mas em amar muito, numa atenção disponível e amorosa para com o Senhor e sua Santíssima Mãe;
(h) Deve-se ser dócil ao Espírito, que indicará o sabor, a intensidade, o tema da oração... Às vezes nossa atenção estará mais nas palavras, às vezes, numa frase; às vezes numa idéia do mistério; às vezes, nos acontecimentos e situações que nos estão preocupando...

Quanto aos tempos de rezá-lo, deve ser rezado diariamente, de modo completo ou espaçado, a sós ou comunitariamente.


Côn. Henrique Soares da Costa
www.padrehenrique.com

2 comentários:

  1. Já lá vai o tempo em que eu rezava o terço e o Rosário, devido à influencia de minha mãe (irmã de padre) que só tinha a 2ª classe.

    Eu tantas vezes que o rezei que até fiquei a pensar que só por causa disso já merecia o céu.

    Também tive uma colecção de continhas.


    São parecidas com as que usam os indianos na adoração aos seus deuses.

    Fala-se muito em meditação, mas na prática é só um sofisma motivador.
    Eu, assim como tu (penso eu) enquanto estava a balbuciar as vãs repetições, meditava sim em algo estranho que eu chamo «a morte da bezerra».

    É difícil fazer duas coisas ao mesmo tempo e quando o fazemos somos orientados pelo instinto.


    Foi por isso e por ter lido na Bíblia os sábios conselhos de Jesus, que me deixei dessas práticas muito à moda do paganismo:

    (Mateus cap. 6)
    «5«Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.
    7*Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. 8Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.»

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  2. O Senhor disse: «Este povo aproxima-se de mim só com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito humano e rotineiro. (Isaias 29,13)

    Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. (Mateus 15,8)

    Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. (Marcos 7,6)

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