15 de nov de 2008

Uma praga chamada fundamentalismo (parte 4)


Com este artigo vamos terminar a série na qual tratamos do modo fundamentalista de ler a Palavra de Deus. Para evitar a praga fundamentalista – que deturpa a Palavra pensando ser fiel à Palavra! – já vimos alguns critérios:

1) Toda a Escritura deve ser lida tomando Cristo como centro e intérprete.

2) É necessário respeitar a analogia da fé, ou seja, levar em conta o fio da meada, o “enredo” da Revelação de Deus, que é uma mensagem de salvação, vida e alegria. Não se pode colocar tudo na Bíblia em pé de igualdade!

3) A Escritura deve ser interpreta na Igreja e com a Igreja. Nenhuma Escritura é para interpretação privada. Jesus não é “meu Salvador pessoal” – ele é o Salvador de todos e nos reúne como membros do seu Corpo que é a Igreja!

4) A Igreja é a única que pode dar a última palavra sobre o sentido da Escritura: ela goza da assistência do Espírito Santo, prometido pelo próprio Cristo. Interpretar a Bíblia contra o sentido e o sentimento da Igreja católica é deturpar a Palavra de Deus. Não é a toa que temos tantas e tantas seitas, cada uma interpretando a Palavra a seu modo... modos errados!

5) A Escritura traz a Palavra de Deus que é a verdade. Mas essa verdade da Bíblia é teológica, salvífica. A Bíblia não quer nos dar nenhuma informação sobre ciência, história, geografia, etc. Sua mensagem é salvífica e, naquilo que consiste em apresentar a vontade de Deus para o mundo e a humanidade ela não erra.

Eis, agora, os últimos três critérios importantes para uma leitura correta e frutuosa da Palavra de Deus:

6) Como toda obra literária, também os livros da Escritura Santa têm, cada um, seu estilo literário próprio. Não se pode ler um salmo como uma carta de São Paulo nem os primeiros capítulos do Gênesis como se fosse uma crônica histórica: os salmos e o Cântico dos Cânticos são poemas, do Gênesis ao 2 Livro dos Reis temos uma meditação teológica sobre a história de Israel, uma teologia da história em forma narrativa; o Livro de Jó é um poema sapiencial, Daniel e Zacarias são, em grande parte, apocalipses... e assim por diante. Então, não compreenderá bem determinado livro e seus capítulos quem não tiver noção razoável destas realidades. Isto não quer dizer que é necessário ser doutor em teologia para ler a Palavra de Deus. Mas é necessário deixar claro que para uma compreensão precisa, exegética, da Escritura, são necessários estes conhecimentos! Caso, contrário, haja interpretação maluca, como as que vemos por aí a fora! Por tudo isso, o caminho seguro e sem erro é interpretar sempre a Bíblia em comunhão com a Igreja, que recebeu a autoridade para interpretá-la!

7) Um outro ponto importante: se é verdade que cada livro da Escritura é Palavra de Deus e que cada autor sagrado é inspirado ao escrever. No entanto, Deus nunca abafa a personalidade do homem, de modo que cada autor conserva seu estilo e, mais ainda, sua teologia: quer dizer que cada autor tem seu modo peculiar de perceber e exprimir o mistério da salvação e da obra de Cristo. Não são modos de ver contraditórios entre si, mas sim complementares. Por exemplo: observe-se o modo de São Paulo apresentar o mistério de Cristo, como é diferente do de São João! Observe-se também como o Jesus de São Marcos é calado e o Jesus apresentado pelo Quarto Evangelho faz longos discursos. Observe como os temas das Cartas de São Pedro são diferentes dos da Carta de São Tiago que são, por sua vez, diferentes dos das Cartas paulinas. Não há contradição; há complementariedade. Pois bem: quando alguém vai ler um livro da Escritura é necessário saber um pouco da mentalidade do Autor: o pessimismo do Eclesiastes, a emotividade de Jeremias, a consciência da santidade de Deus de Isaías, a ranzinzisse de Ageu, o lirismo de Oséias, etc.

Todos estes critérios que aqui apresentei não devem nos fazer desanimar na leitura da Bíblia. Devem somente nos colocar de sobreaviso contra a ilusão da leitura ao pé da letra, tão comum entre as seitas! Uma coisa é certíssima: quem lê a Bíblia em comunhão com a Igreja, com a doutrina recebida dos Apóstolos desde o início, não corre de modo algum o perigo de errar na interpretação da Palavra de Deus! Ao contrário, quem lê a Escritura fora da comunhão da Igreja de Cristo, não somente está sujeito a erros graves, como também arvora-se em juiz da Igreja, caindo num pecado de tremendo orgulho e presunção. Já pensou: eu, sozinho, compreendo mais a Palavra de Deus que a Igreja toda? É pura loucura humana, instigada pelo Diabo, pai da mentira e autor de toda divisão. Prova disso é quantidade de seitas que ferem o cristianismo!

Espero que esta série de artigos tenha sido esclarecedora!

Côn. Henrique Soares da Costa
fonte: www.padrehenrique.com

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