14 de nov de 2008

Uma praga chamada fundamentalismo (parte 3)


Já há dois artigos estamos escrevendo sobre o modo fundamentalista de ler a Escritura: aquela leiturazinha chocha da Bíblia, que toma tudo ao pé da letra, sem captar a grande e feliz mensagem de salvação que é a Palavra de Deus. Mostrei o quanto tal leitura é equivocada e trai o sentido da Escritura. No artigo passado comecei, então, a apresentar alguns critérios para uma leitura correta da Escritura Sagrada. Somente para recordar: 1) Cristo é o centro e a chave de toda a Bíblia: é a partir dele, confrontando com ele, que saberemos o que é importante e o que não é na Bíblia, o que foi superado e o que não foi; 2) na Escritura há a analogia da fé, isto é, um fio condutor, que é a mensagem de salvação: o Pai tanto amou o mundo que nos salvou no seu Filho e nos fez o dom do Espírito. Tudo o mais está em função disso, tudo o mais, na Bíblia, é secundário em relação a isso e somente em relação a este centro pode ser interpretado corretamente; 3) a Bíblia não foi escrita privadamente, mas exprime a fé da Comunidade eclesial, da Igreja, de modo que somente a Igreja a pode interpretar corretamente: quem interpreta a Bíblia de modo privado cai em erro e afasta-se do Espírito no qual a Escritura foi escrita!

Agora vamos aos outros critérios para uma reta interpretação das Escrituras Santas:

4) Se a Escritura somente pode ser interpretada em comunhão com a Igreja, na qual o Cristo prometeu permanecer para sempre (cf. Mt 16,18s; 28,20; Jo 16,13s), então é necessário observar como o Espírito Santo foi guiando a Igreja na sua interpretação ao longo dos séculos. Em outras palavras: não se pode compreender bem a Escritura desprezando a história da Igreja de Cristo! Esta Igreja, pela graça de Cristo, é “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15). Somente assim se guardará o depósito da fé apostólica, evitando o palavreado vão e ímpio e as contradições de uma falsa ciência, que desvia da fé àqueles que a professam (cf. 1Tm 6,20s). Alguns exemplos: é um absurdo fazer como os movimentos batistas (são muitos, divididos entre si!) fazem – e depois as outras denominações protestantes também fizeram -, negando o valor do Batismo de crianças, coisa que a Igreja praticou tanto no Ocidente quanto no Ocidente (a história confirma amplamente). É a coisa da receita de bolo: pega-se a Bíblia pela Bíblia, isolada da Igreja, de sua fé, de sua oração, de sua história... e, assim, mata-se a Palavra de Deus! Um outro exemplo interessante temos nos mórmons: eles se fazem batizar pelos mortos! Costume estranho, esquisito, inventado por eles... em nome da Bíblia! Como surgiu isso? Da interpretação fundamentalista da Palavra de Deus. Em 1Cor 15,29 Paulo, repreendendo alguns coríntios porque não queriam acreditar na ressurreição, usa um argumento baseado num costume esquisito que havia somente em Corinto: se não houvesse ressurreição, “que proveito teriam aqueles que se fazem batizar em favor dos mortos?” É a única vez no Novo Testamento que se fala em alguém batizar-se pelos mortos... O que significa isso? Não sabemos! Observem que Paulo não diz que é certo ou errado fazer isso; usa somente essa prática dos coríntios para ilustrar seu argumento em favor da ressurreição. Como quer que seja, a Igreja, desde as origens não abraçou esta prática. Isso significa que ela não era correta nem importante, pois se o fosse o Espírito do Ressuscitado não teria permitido que ela desaparecesse na Comunidade eclesial. Aí vêm os mórmons, lêem esse trechinho perdido de São Paulo.... e retomam essa prática arcaica, sem sentido e fora da Tradição apostólica! Leitura fundamentalista da Escritura! Só um último exemplo: o Novo Testamento está cheio de testemunhos de que Pedro é o chefe da Igreja e que seu papel deverá continuar na Comunidade dos discípulos de Cristo (cf. Jo 1,42; Mt 10,2; 16,16; Jo 6,68; 20,1-9; 21,15ss; Lc 22,31s; 24,33s; 1Cor 15,3ss; At 1,15ss; 2,14; 5,1ss; At 10; Gl 1,18; 2,9). Ora, além de não aceitarem o papel do Papa por puro preconceito, os protestantes fundamentalistas ainda teimam em refutar que a Igreja sempre, desde as origens, viu no Sucessor de Pedro o chefe da Igreja de Cristo! Isso quando a história confirma que a Igreja, desde o início e cada vez mais, foi tomando consciência do papel do Sucessor de Pedro. É como se depois de Cristo o Espírito Santo fosse embora e ficasse dormindo e a Igreja tivesse desaprendido a interpretar a Palavra de Deus. Se isso fosse verdade, Cristo seria um mentiroso, porque prometeu permanecer na sua Igreja e guiá-la à verdade plena (cf. Jo 16,13s)!

5) A verdade que a Escritura apresenta não é verdade científica nem filosófica, mas verdade teológica, verdade salvífica. Ou seja, a Bíblia não é livro de ciência! Nela há erros de história, de geografia, de ciência... Mas, enquanto Palavra de Deus, ela é a verdade: ensina a verdade sobre Deus, sobre o sentido do mundo, do homem e da vida. Por isso mesmo Jesus afirma: “Eu sou a verdade!” - ou seja, “eu sou a vossa verdade: sendo discípulos meus, descobrireis o sentido de vossa vida e da vida do mundo, descobrireis a vossa verdade e nela vivereis!” É neste sentido – e somente neste! – que a Palavra de Deus é a verdade e não erra! Aí lá vêm os fundamentalistas querendo interpretar o Gênesis ao pé da letra! Que inferno!

Continuaremos no próximo artigo. Aí terminaremos de vez! Até lá!


Côn. Henrique Soares da Costa

fonte: www.padrehenrique.com

Fonte: Palavra da Verdade

Meditação sobre o Santo Rosário (III)

Os mistérios luminosos


1. O batismo de Jesus



Leitura: Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,24-34

Este primeiro mistério luminoso é riquíssimo de significado. Vamos contemplá-lo tomando cinco aspectos, quatro facetas desta riquíssima realidade:

1. O batismo do Senhor marca o início de seu ministério público. É verdade que o Senhor Jesus começou sua obra de salvação no momento mesmo de sua Encarnação no seio da Virgem Maria (cf. Hb 10,5-7); ele foi nos salvando nos nove meses de gestação de sua Mãe, na pobreza de seu nascimento, nos anos pobres e apertados de Nazaré, na vida pequena e silenciosa de cerca de trinta anos... Em tudo isso ele foi entrando na nossa vida, no nosso tempo e tudo redimindo, a tudo dando um sabor de eternidade. Mas, se Jesus somente tivesse vivido e morrido entre nós, sem pregar, sem anunciar explicitamente o Reino por palavras e gestos poderosos e cheios de autoridade, se não tivesse escolhido apóstolos e fundado sua Igreja, jamais saberíamos que Deus nos visitou, que fomos salvos e jamais poderíamos responder conscientemente com nossa fé a esse anúncio de salvação. Assim, batizado no Jordão, Jesus é publica e oficialmente apresentado como o Messias esperado por Israel. Nele, se cumpre as esperanças do Antigo Povo e Deus revela sua fidelidade: quando promete, não trai jamais!

2. É impressionante e deve nos inspirar a humildade do Senhor Jesus: ele, que na infância toda submeteu-se humildemente à Lei judaica, agora entra na fila dos pecadores para ser batizado por João. Não somente entra na fila como um qualquer, mas na fila dos que se reconhecem pecadores, necessitados de arrependimento e perdão. Jesus, que não tem pecado, veio assumir nossos pecados para nos libertar dos pecados. Ele é o cordeiro que veio tirar os pecados do mundo. A imagem do cordeiro deve nos recordar o cordeiro sobre o qual o sacerdote impunha as mãos, confessando os pecados do povo. Depois ele era mandado para o deserto. Assim também Jesus: carregando os nossos pecados foi crucificado fora dos muros de Jerusalém, como um rejeitado por Deus e pelo seu povo (cf. Lv 16,5-22; Hb 13,12s); o cordeiro é ainda imagem do cordeiro sacrificado e oferecido a Deus pelos pecados do povo (cf. Lv 16,5-22) e, finalmente, é imagem do cordeiro pascal, sinal da libertação do povo de Deus. Dele, nenhum osso deveria ser quebrado (cf. Ex 12,46; Jo 19,33-36). Pois bem, na fila dos pecadores Jesus se nos apresenta como esse humilde e despojado cordeiro de Deus.

3. O batismo é também o momento da unção messiânica do Senhor. Ele é o Ungido, isto é, o Messias. Já ungido em sua humanidade santíssima, plasmada desde o primeiro momento na potência do Espírito Santo (cf. Lc 1,35), recebe agora uma unção pública (que será unção plena na ressurreição – cf. At 2,32.36) com vistas ao seu ministério público. A partir de agora, Jesus será pleno do Espírito Santo, que o conduzirá na sua missão (cf. Jo 1,33-34; Mc, 1,12; Lc 4,14.17-18; 6,19). Será este mesmo Espírito que o Senhor entregará na cruz ao Pai e receberá de volta de um modo novo na Ressurreição, derramando-o sobre nós (cf. Jo 19,30; At 2,32s).

4. É também para nossa contemplação a palavra de João Batista ao apresentar Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,19). A palavra aramaica é talya que significa ao mesmo tempo cordeiro e servo. Jesus será o Messias Servo Sofredor, cordeiro que morrerá pelos pecados do mundo (cf. Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12).

5. Finalmente, há neste mistério, uma clara manifestação da Trindade Santa: o Pai apresenta o Filho, ungido-o com o Espírito; o Filho humildemente se deixa ungir, como enviado do Pai e seu Servo Sofredor; o Espírito Santo, deixa-se enviar pelo Pai sobre o Filho, em quem repousa e permanece para a missão. Ao aparecer em forma de pomba (como a pomba que, após o dilúvio, trouxe no bico um ramo de oliveira, da qual se faz o óleo da unção), o Espírito manifesta Jesus como aquele que, ungido, é o início de uma nova criação e nova humanidade, como o mundo logo após o dilúvio.



2. A transformação da água em vinho em Caná da Galiléia



Leitura: Jo 2,1-12

Vamos contemplar este mistério a partir de cinco idéias.

1. As bodas de Caná, na narrativa de São João, são imagem da consumação da aliança entre Deus e o seu povo, consumação acontecida precisamente em Jesus, o Messias de Deus. Muitíssimas vezes no Antigo Testamento, a aliança entre Deus e Israel fora comparada a um pacto matrimonial: Deus é o esposo fiel, Israel é a esposa, tantas vezes infiel, prostituindo-se na idolatria. Assim, diante do fracasso da antiga aliança, Deus promete que fará uma aliança eterna com um resto. Seria uma aliança espiritual, nova e eterna. O Messias, com a sua vinda, haveria de selar tal aliança. Pois bem, Caná é imagem dessa nova realidade. Chegaram as núpcias da nova aliança. Jesus é o esposo, o próprio Deus que vem desposar o novo Israel, a Igreja, sua esposa. Aí, a Igreja, a Mulher, é representada pela Virgem Maria. Daí Jesus chamá-la “Mulher”! Assim, contempla-se aqui a fidelidade amorosa do Deus de Israel, que cumpre sua promessa de uma aliança nova e eterna e vem desposar Israel, sua esposa.

2. Estas núpcias, prenunciadas em Caná, somente na Páscoa (morte e ressurreição) do Senhor é que iriam consumar-se. O evangelho insinua isso quando afirma: “No terceiro dia houve núpcias... e Jesus manifestou a sua glória... e seus discípulos creram nele” (Jo 2,1.11b). Isto que aqui é prenunciado, na ressurreição será realizado: ao Terceiro Dia, dar-se-ão as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19,7), quando o Ressuscitado mostrou a sua glória e seus discípulos creram nele! Então, pode-se contemplar neste mistério a união fiel e amorosa entre Cristo e a sua Igreja numa nova e eterna aliança de amor, que começou neste mundo com a morte e ressurreição do Esposo e será plena, um Dia, na glória dos céus. Até lá, a Esposa, ansiosa e amorosamente, caminha exclamando ao Esposo: “Vem!” e ele, fielmente responde: “Sim, venho em breve!” (Ap 22,17.20).

3. Ainda digno de contemplação é a água que enchia as talhas usadas para a purificação ritual segundo a Lei dos judeus transformada no vinho novo e bom, sinal do dom do Espírito, Nova Lei da nova e eterna aliança. É o que Jesus, o Ungido do Pai veio nos trazer: a nova aliança no Espírito Santo, Espírito que embriaga e nos dá a perene alegria de Deus (cf. Ef 5,18).

4. Outro ponto para a meditação é o papel exercido pela Mãe do Senhor: “A Mãe de Jesus estava lá” – em Caná e ao pé da cruz (cf. Jo 19,25); estará também com o fruto da Páscoa, da Hora de Jesus: a Igreja nascente, no Cenáculo de Jerusalém (cf. At 1,12-14). É importante compreender isso: a Virgem Mãe nunca é o centro. Centro da nossa fé, centro da nossa salvação é somente o Senhor Nosso Jesus Cristo. Centro de nossa fé é a sua Páscoa: paixão, morte e ressurreição. E, no entanto, em ser o centro, a Virgem sempre está no centro, isto é, sempre está ali, no momento pascal do Senhor, no momento-chave da nossa salvação! Assim contemplemo-la como ministra (servidora) na obra salvífica de Cristo! Ela é não somente nossa Mãe na ordem da graça como também é modelo de serviço e cooperação na obra salvífica de Cristo.

5. Um último ponto para nossa contemplação é o papel de intercessão de Nossa Senhora. Em Caná ela vê a necessidade dos noivos e intercede; sua intercessão é toda obediente, toda de escuta à palavra de Jesus e de plena conformidade com sua vontade. Assim, ela mesma nos ensina a fazer sempre a vontade do Senhor: “Fazei tudo o que ele vos disser!” E, num dos momentos mais impressionantes do Novo Testamento, que deixa confusos até os estudiosos mais eruditos, a Hora do Senhor, Hora de manifestar sua glória na paixão e ressurreição, é misteriosamente antecipada: “A minha Hora ainda não chegou!” Quem pode mudar a Hora de Deus? Ninguém! E, no entanto, misteriosamente, sem pedir nada, sem exigir nada (ela é a Serva e uma serva não tem direitos, não exige nada!), ela antecipa a Hora! Pela sua atitude de amor, de confiança, de humildade, misteriosamente a Hora do Cristo faz-se misteriosamente em Caná e traz o vinho do Espírito, o bom vinho da alegria, sinal do Reino de Deus. Mas, isso somente é possível porque quando chegar a Hora (cf. Jo 17,1), a Mãe de Jesus estará lá, ao pé da cruz (cf. Jo 19,25). Então, somente é possível a intercessão em Cristo quando se estar disposto a levar a cruz com Cristo, permanecendo com ele na sua Hora, na Hora da cruz. Fora disso nenhuma intercessão é possível, nenhuma é válida, nenhuma é em Cristo! Não poderá nunca participar da manifestação da glória de Cristo não está disposto a participar da hora da paixão do Cristo!



3. O anúncio do Reino de Deus e o convite à conversão por parte de Jesus



Leitura: Mc 1,14-15

Podemos dividir a contemplação deste mistério em quatro partes:

1. Jesus saiu proclamando o Evangelho de Deus, isto é do Pai. Pensemos em Jesus. Ele veio da parte do Pai. No nosso Salvador, podemos descobrir toda a bondade da paternidade do nosso Deus. Em Jesus, Deus nos diz que ainda nos ama, que ainda nos espera, ainda crê em nós; mais ainda: dá-nos o seu Filho bendito, que vem ao nosso encontro com os braços e o coração abertos. Em Jesus, aconteça o que acontecer na nossa vida, sabemos que Deus nos ama, faz conta de nós e deseja nos salvar! No rosto de Cristo contemplemos, portanto, a Face bendita do Pai: que sua Face resplandeça sobre nós!

2. Qual é a proclamação de Jesus? O que ele prega? Primeiro: “Cumpriu-se o tempo!” Com Jesus, tudo quanto o Antigo Testamento havia anunciado iria agora realizar-se. Termina agora o tempo da preparação, termina o tempo da profecia, termina o tempo do anúncio distante: com Jesus as promessas de Deus iriam realizar-se. Eis a grande lição: Deus é fiel, nunca falta à sua promessa, nunca volta atrás na sua Palavra! Tudo quando fora anunciado e prometido agora haverá de cumprir-se. Jesus é o Amém, o Sim de Deu a todas as suas promessas!

3. Mas, em que consiste esse cumprimento? “O Reino de Deus está próximo!” Isto é, o Reinado de Deus chegou, aproximou-se, não mais está distante! Com Jesus, Deus está batendo à porta do coração de Israel e da humanidade, pedindo passagem, desejando entrar! Com Jesus, Deus começa o seu Reinado. E onde Deus reina, o homem é feliz, é livre, começa a viver uma vida plena, que desembocará na eternidade. É isto que Jesus manifesta com seus milagres, exorcismos e palavras: que o Reino chegou e, por isso, os cegos enxergam, os coxos andam, os que choram são consolados e os pobres recebem essa Boa-Nova! Também nós devemos escutar esta Boa-Notícia, este Evangelho: o Reino de Deus chegou para nós! Basta que acolhamos Jesus, presente para nós na Santa Igreja, basta que deixemos que o Senhor reine em nossa vida! Deus está às portas; não lhe fechemos o coração!

4. Mas, para que o anúncio do Reino seja eficaz em nossa vida, é necessário a aceitação de nossa parte. Daí a exortação do Senhor: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” Isto é: Convertei-vos e crede neste Evangelho! Que Evangelho? Que o Reino chegou em Jesus. E ninguém pode acolhê-lo, ninguém pode realmente deixar Deus reinar sem se esvaziar de si próprio, do seu pecado, dos seus apegos, dos seus vícios, de suas más tendências! Converte-vos! Eis a condição para acolher o Reino. Então, se ao mesmo tempo o anúncio do Reino é uma alegria imensa é também um imenso desafio, um imenso trabalho de conversão constante! A verdade é que sem conversão não se acolhe verdadeiramente o Reino de Deus!



4. A Transfiguração do Senhor



Leitura: Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36; 2Pd 1,16-18

A Transfiguração do Senhor não é somente um fato histórico ocorrido durante a vida de Jesus neste mundo; é também um mistério, isto é, um acontecimento que tem um significado para a nossa fé, um acontecimento que revela algo da pessoa e da missão de Cristo e algo da nossa salvação. É isto que contemplaremos agora.

Primeiramente, a Transfiguração é uma preparação para a cruz. “Seis dias depois” (Mt 17,1) de anunciar pela primeira vez que morreria em Jerusalém, o Senhor toma três de seus discípulos e se transfigura diante deles. Ou seja, deseja fortalecer a fé de seus discípulos e mostrar que sua paixão caminha para a glória. Não é por acaso que os mesmos que estarão no Jardim do Horto, na agonia, foram os escolhidos para vê-lo em glória no Tabor. Esta idéia aparece ainda muito claro no fato de Moisés e Elias aparecerem com ele falando “de sua partida que iria se consumar em Jerusalém” (Lc 9,31). O sentido é muito bonito: Moisés (que representa a Lei) e Elias (significando os profetas) – Lei e profetas são o Antigo Testamento – anunciam a “partida”, o “êxodo” de Cristo: “Os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse na sua glória? E começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito” (Lc 24,25-26). Tudo isto nos ensina a guardar nos momentos de luz o sentido do amor e da misericórdia de Deus, para resistir nas provações dos momentos de sofrimento e de treva!

Um outro belo aspecto: no Tabor manifesta-se a glória da Trindade: na voz está o Pai, naquele que foi transfigurado está o Filho bendito, na Nuvem luminosa está o Espírito Santo, que é o Espírito de Glória e que a tudo glorifica. Toda a nossa salvação é obra da Trindade. Basta recordar que o Pai enviou o Filho no Espírito Santo para nossa salvação e que o Filho se ofereceu por nós ao Pai num Espírito Eterno (cf. Hb 9,14). Eis aqui outro belo ponto para a contemplação: adorar o amor glorioso e cheio de misericórdia do Deus Uno e Trino, que se nos revela sempre como amor para nossa salvação.

Também devemos aprender a contemplar o que o Pai nos diz: “Este é o meu Filho amado; ouvi-o”. Ou seja: toda a nossa felicidade, toda nossa vida e nosso único caminho para a verdadeira glória consiste em ouvir a voz do Filho amado. Esse “ouvir” não significa simplesmente estar atento à palavra de Jesus, mas, estar atento à própria Pessoa de Jesus: ele todo é a Palavra que estava junto do Pai e que se fez carne e habitou entre nós. Assim, amar Jesus, buscar Jesus, seguir Jesus, contemplar Jesus... tudo isto significa “ouvir” a voz do Filho, que é a única, plena e irrepetível Palavra que o Pai nos dirige no Espírito Santo!

Um outro aspecto que diz muito de nós e deve nos levar a um exame de consciência é o seguinte: no Tabor, os três discípulos se alegram e dizem: “É bom estarmos aqui; vamos fazer três tendas”. É agradável e desejável estar com Cristo na glória, no gozo, na alegria... Depois, no Monte das Oliveiras, esses mesmos três não tem coragem de vigiar com Jesus, dormem, não conseguem estar atentos ao Senhor e ficar com ele! Eis as lições para nós: Quem participa da glória do Tabor deve também estar disponível para ficar com Jesus no Horto da Agonia, pois quem não ama a cruz de Cristo não verá a glória de Cristo! Não se pode ser cristão de verdade sem essa disponibilidade para estar com Cristo nos momentos de cruz e escuridão! Nunca compreenderá de verdade o significado da glória de Cristo quem não participou também da agonia de Cristo. Sem participar da sua cruz, a participação na sua glória seria num sentido interesseiro e mundano, glória do mundo, que não passa de busca de si próprio, que escraviza e não leva a Deus. Somente participando da cruz do Senhor é que experimentaremos o verdadeiro significado e a verdadeira doçura da glória do Senhor. É por isso que Cristo proíbe aqueles três de falarem sobre isso até que ele tenha ressuscitado dos mortos. Somente depois que o virem morrer é que compreenderão o significado da glória da sua ressurreição e da esperança que ele nos prepara!



5. A instituição da Eucaristia



Leitura: Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; Jo 6,51-58; 1Cor 11,23-25

Muitas coisas poderiam ser contempladas neste mistério. Vou tomar cinco pontos, que podem ser de grande utilidade e edificação espiritual para nossa vida.

1. Na instituição da Eucaristia Jesus realiza sacramentalmente a consumação de sua vida que, na Sexta-feira Santa, realizou na cruz. Toda a sua existência, desde a concepção no seio da Virgem, foi uma entrega ao Pai por nós. Ele nunca teve tempo para si mesmo, nunca se buscou, nunca se poupou, nunca procurou sua vontade. Ao final de sua existência, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo, até o fim” (Jo 13,1s). Então, toda a existência de Nosso Senhor foi uma existência para o Pai em favor dos outros, em favor dos seus discípulos e irmãos. Agora, na hora de consumar essa vida vivida como entrega total de si, o nosso Salvador, deixa sua entrega num modo sacramental, para que fique presente no coração da Igreja e do mundo até que ele venha. Na Eucaristia a entrega de Cristo, vivida uma vez por todas na sua humana existência, torna-se continuamente presente sobre o Altar para que nós a recebamos em verdade. Cada cristão de cada época e de cada lugar pode dizer, participando da Eucaristia e recebendo o Corpo e o Sangue do Senhor: “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20).

2. Contemplando o Cristo que se entrega totalmente no simples sinal do pão e do vinho, tornando presente sua entrega total até a morte de cruz, nós somos convidados a compreender a lógica do Reino de Deus: ele não vem em grandes e vistosos feitos, nos gestos teatrais, no poder mundano, derivado do prestígio, da riqueza, do comando... Não! A lógica do Reino aparece no que é pequeno, no que é fraco, naquilo que aparentemente não conta e não tem importância. Que pode haver de mais trivial que um pedaço de pão, um pouco de vinho, umas gotas d’água? E, no entanto, nestes pobres elementos o Senhor se dá a nós e faz-nos participar da sua entrega de amor e já participar das coisas do céu. Esta contemplação deve nos fazer descobrir o valor das coisas pequenas, da fidelidade no cotidiano. Ali Deus se revela, ali nós somos convidados a viver na nossa carne a Eucaristia que celebramos na santa Liturgia.

3. A Eucaristia é também a missão e o destino da Igreja. É sua missão por dois motivos: primeiro, porque o Senhor mandou que ela a celebre em sua memória até que ele venha. Celebrando-a, a Igreja cumpre o mandato do seu Esposo e experimenta realmente sua presença. Em segundo lugar, é sua missão porque tendo escutado o Senhor na Escritura e partido com ele o pão, a Igreja experimenta que ele está vivo realmente, que realmente caminha conosco. Assim, como aqueles dois de Emaús (cf. Lc 24), ela deve sair pelo mundo em missão para anunciar que em verdade o Senhor ressuscitou e caminha conosco como Salvador e Senhor até o fim dos tempos. Deste modo, participar da Eucaristia, ouvindo o Senhor e partindo com ele o pão eucarístico, tornamo-nos suas testemunhas. A Eucaristia nunca é uma realidade somente entre nós e o Senhor. Nós dela participamos como Igreja e Igreja que é missionária de Cristo na nossa vida e no nosso mundo.

4. Outro aspecto importante é ter sempre em mente que a Eucaristia prepara nossa participação no Banquete da glória eterna. Participar da Eucaristia é participar das coisas do céu, é experimentar aqui na terra a glória do mundo que há de vir! Assim, nunca devemos perder de vista que comungando com o Senhor morto e ressuscitado nos tornamos herdeiros da sua santa Ressurreição. Quanto consolo, nos apertos e cansaços da vida, nutrirmo-nos do alimento que faz crescer em nós a vida eterna, aquela mesma que herdaremos em plenitude após a nossa santa morte: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia”.

5. Um último aspecto. A Eucaristia é o sacrifício de Cristo. Cada vez que a celebramos, oferecemo-lo ao Pai, como Senhor, Cordeiro imolado e ressuscitado, Aquele que está de pé, vitorioso, ante o trono do Pai, mas, ao mesmo tempo, é eternamente Cordeiro imolado (cf. Ap 5,6). Assim sendo, celebrar a Eucaristia, participando do Corpo e Sangue do Cordeiro imolado, somos chamados a colocar na nossa vida o Sacrifício que celebramos, celebrando na vida o que oferecemos no Altar. É o que nos diz São Paulo: “Exorto-vos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto no Espírito. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,1-2). Então, não pode participar da Eucaristia quem não estiver disposto a completar na sua carne, a viver na sua vida a entrega do Senhor Jesus ao Pai!


Con. Henrique Soares da Costa
www.padrehenrique.com

Liturgia Diária!!!

Sexta-feira, dia 14 de Novembro de 2008
Sexta-feira da 32ª semana do Tempo Comum

S. José Pignatelli, presbítero, +1811



Comentário ao Evangelho do dia feito por
São Romano : «Deus espera a nossa conversão»

Leituras

2 João 1,4-9.
Muito me alegrei por ter encontrado entre os teus filhos quem caminha na
verdade, conforme o mandamento que recebemos do Pai.
E agora rogo-te, Senhora – e não como quem te escreve um mandamento novo,
mas sim aquele mandamento que temos desde o princípio – que nos amemos uns
aos outros.
Nisto consiste o amor: em caminharmos segundo os seus man-damentos. E este
é o mandamento, segundo ouvistes dizer desde o princípio: que caminheis no
amor.
É que apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo não
veio em carne mortal. Esse é o sedutor e o anticristo!
Acautelai-vos, para não perderdes o fruto do vosso trabalho, mas receberdes
a plena recompensa.
Todo aquele que passa adiante e não permanece na doutrina de Cristo não tem
Deus consigo; mas aquele que permanece na doutrina, esse tem em si o Pai e
o Filho.


Salmos 119,1.2.10.11.17.18.
Felizes os que seguem o caminho da rectidão e vivem segundo a lei do
SENHOR.
Felizes os que cumprem os seus preceitos e o procuram com todo o coração,
Eu procuro-te com todo o coração; não deixes que me afaste dos teus
mandamentos.
Guardo no meu coração as tuas promessas, para não pecar contra ti.
Concede ao teu servo uma longa vida e eu cumprirei as tuas palavras.
Abre os meus olhos para que eu veja as maravilhas da tua lei.


Lucas 17,26-37.
Como sucedeu nos dias de Noé, assim sucederá também nos dias do Filho do
Homem:
comiam, bebiam, os homens casavam-se e as mulheres eram dadas em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na Arca e veio o dilúvio, que os fez perecer a
todos.
O mesmo sucedeu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam,
plantavam, construíam;
mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, Deus fez cair do céu uma chuva de
fogo e enxofre, que os matou a todos.
Assim será no dia em que o Filho do Homem se revelar.
Nesse dia, quem estiver no terraço e tiver as suas coisas em casa não desça
para as tirar; e, do mesmo modo, quem estiver no campo não volte atrás.
Lembrai-vos da mulher de Lot.
Quem procurar salvar a vida, há-de perdê-la; e quem a perder, há-de
conservá-la.
Digo-vos que, nessa noite, estarão dois numa cama: um será tomado e o outro
será deixado.
Duas mulheres estarão juntas a moer: uma será tomada e a outra será
deixada.
Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado.»
Tomando a palavra, os discípulos disseram-lhe: «Senhor, onde sucederá
isso?» Respondeu-lhes: «Onde estiver o corpo, lá se juntarão também os
abutres.»


Da Bíblia Sagrada



Comentário ao Evangelho do dia feito por

São Romano, o Melodista (? – c.560), compositor de hinos
Hino de Noé

«Deus espera a nossa conversão»

Quando contemplo a ameaça suspensa sobre os culpados, no tempo de Noé,
tremo, eu que também sou culpado de pecados abomináveis [...] Aos homens de
então, ameaçou o Criador primeiro, porque esperava o tempo da sua
conversão. Para nós também haverá a hora final, que desconhecemos, e que
até aos anjos foi escondida (Mt 24,36). Nesse último dia, Cristo, o Senhor
de antes dos séculos, virá, cavalgando nas nuvens, para julgar a Terra,
como viu Daniel (7,13). Antes de esta hora cair sobre nós, supliquemos a
Cristo, pedindo-lhe: «Salva da tua cólera todos os homens, pelo amor que
nos tens, ó Redentor do Universo» [...]

O Amigo dos homens, vendo a maldade que então reinava, disse a Noé: «O fim
de toda a humanidade chegou diante de mim, pois ela encheu a Terra de
violência. Vou exterminá-la juntamente com a Terra» (Gn 6,13); «só a ti
reconheci como justo nesta geração» (Gn 7,1). Constrói uma arca de madeiras
resinosas [...] como uma matriz, ela carregará as sementes das espécies
futuras. Fá-la-ás como uma casa, à imagem da Igreja [...] Nela te
guardarei, a ti, que me rezas com fé: «Salva da tua cólera todos os homens,
pelo amor que nos tens, ó Redentor do universo!»»

Com inteligência, o eleito cumpriu a sua obra [...], e pedia com fé aos
homens sem fé: «Depressa! Saí do pecado, rejeitai a maldade,
arrependei-vos! Lavai a mácula das vossas almas, conciliai pela fé o poder
do nosso Deus [...].» Mas os filhos da rebelião não se converteram. À
perversidade, acrescentaram ainda a dureza. Então Noé implorou a Deus, com
lágrimas: «Fizeste que eu nascesse do seio da minha mãe; salva-me ainda
dentro desta arca de socorro. Porque vou fechar-me nesta espécie de
sepultura, mas quando me chamares, dela sairei pela tua força! Nela, vou
prefigurar desde agora a ressurreição de todos os homens, quando salvares
os justos do fogo, como a mim me salvas das ondas do mal arrancando-me do
meio dos ímpios, eu que te rezo com fé, a Ti, o compassivo Juiz: «Salva da
tua cólera todos os homens, pelo amor que nos tens, ó Redentor do
universo!»»




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13 de nov de 2008

Meditação sobre o Santo Rosário (II)

Os mistérios gozosos


É importante notar que estes mistérios são Cristocêntricos, são mistérios de Cristo; é nele que o plano da salvação se realiza. Eis algumas indicações para bem contemplá-los:



1. A Anunciação do anjo e a Encarnação do Verbo



Leitura: Lc 1,26-38

Este primeiro mistério gozoso é profundamente centrado no evento da Encarnação: não é a Virgem, mas o Messias-Salvador o centro de nossa contemplação. Aqui somos chamados a admirar o misterioso plano salvífico de Deus que, quando chegou a plenitude dos tempos, fez aparecer a plenitude da graça, enviando o seu Filho ao mundo: em Jesus, Deus se humaniza, Deus começa sua aventura humana, numa profunda obediência ao Pai (cf. Hb 10,5-7) e numa profunda humildade, num impressionante esvaziamento: fez-se homem, de Maria, a Virgem (cf. Fl 2,5-7).

Se Cristo é o centro, no entanto, este mistério convida-nos também a contemplar a atitude da Virgem Maria. Ela é imagem vivente do Antigo Povo, a Filha de Sião, que é convidada a alegrar-se com a chegada do Salvador-Messias (cf. Sf 3,14-18; Is 12,6; 54,1-17; Zc 2,14-17). Para ela, a Pobre de Nazaré, o Senhor voltou o seu olhar misericordioso e nela realizou maravilhas! Ela é lugar da manifestação graciosa de Deus: seu nome é Toda-Agraciada!

Unindo o Filho que se encarna e a Mãe que o acolhe, aparece misteriosamente a obediência, o “Sim” de total disponibilidade ao Pai: o sim eterno do Filho, que ecoa no tempo através do sim da Virgem Maria. Assim, aparece o quanto a salvação do mundo e da humanidade manifesta-se na atitude de obediência, o contrário da atitude do pecado original: a humanidade voltará pela obediência Àquele de quem se afastou pela covardia da desobediência. O Criador e a criatura, de modo admirável e incompreensível, comungam nessa obediência ao plano amoroso de salvação...

Somos convidados a contemplar a atitude crente, madura e disponível de Nossa Senhora: crente porque se confia totalmente ao Senhor, como Abraão, que “partiu sem saber para onde ia” (Hb 12,8): casamento, futuro, filhos, tudo isso a Virgem Mãe deixou nas mãos de Deus, sem pedir explicações, sem pedir provas, sem pedir garantias... Atitude madura porque humildemente procurou compreender o quanto possível o plano de Deus a seu respeito para melhor aderir a ele; atitude disponível, pela sua insuperável resposta ao convite do Senhor: “Eis a Serva!” – Não se pertence a si própria, não considera sua vida e seu destino a partir de seus interesses e projetos; ela se confia total e absolutamente ao seu Senhor e Deus.



2. A Visitação da Virgem a Isabel e a Exultação de João Batista



Leitura: Lc 1,39-45 e 1,46-56

Inicialmente, há duas realidades a serem contempladas. Primeiramente, o sinal dado pelo Anjo: Isabel, já idosa e estéril, estava grávida por obra de Deus. Tal gravidez prodigiosa era prenúncio da gravidez ainda mais impressionante da Virgem Maria. Deus é o Deus da vida, Deus do impossível (cf. Lc 1,37): onde não há vida, ele faz a vida nascer, onde somente há a morte da esterilidade, sem futuro nem esperança, ele faz brotar a semente bendita da vida. Por isso, a exultação das mães. A segunda realidade é o espírito de serviço de Nossa Senhora: sua relação com Deus não é fechada em si mesma, alienada das necessidades dos irmãos: ela se dirige a Isabel e permanece com ela até o parto: viajou à casa de Isabel para ver o sinal; lá permaneceu para ajudar caridosamente – é a prova de uma vida espiritual sadia e centrada no Deus de amor.

Contemplemos, agora, os três principais personagens desta perícope:

1 - João Batista: Ele é o Precursor, aquele que existe para “cursar-antes”, caminhar abrindo estrada: o anúncio do seu nascimento (cf. Lc 1,5-25) prenuncia o anúncio do nascimento de Jesus (cf. Lc 1,26-38); o seu nascimento e circuncisão (cf. Lc 2,57-66) prenunciam o nascimento e circuncisão de Jesus (cf. Lc 2,1-21); do mesmo modo, seu ministério e morte prenunciam o ministério e morte de Jesus. Que nos ensina este fato? Que somos todos envolvidos no plano salvífico de Deus. Não devemos nos fixar nos nossos planos, mas nos alegrar por participar de um desígnio muito maior. Nossa vida será verdadeira e terá sentido, será preciosa aos olhos do Senhor, na medida em que for humilde disponibilidade ao serviço da santa vontade de Deus. Mais tarde, João dirá: “Um homem nada pode receber a não ser que lhe tenha sido dado do céu. Não sou eu o Cristo, mas fui enviado adiante dele. É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,27-30).

2 - A Virgem Maria: Ela é toda exultação, numa explosão de admiração e gratidão ao Deus Salvador do seu povo. Pela sua voz é todo Israel que canta a fidelidade de Deus que invade amorosamente a história humana e faz triunfar o seu plano de amor e salvação. O Magnificat (cf. Lc 1,46-55) deve ser lido com o pensamento no Êxodo (quando a outra Maria, irmã de Moisés, cantou e dançou porque Deus derrubara os soberbos egípcios e elevara o humilde Israel – Ex 15,21), em Ana (que experimentou a ação de Deus, exaltando os humildes e derrubando os soberbos – 1Sm 2,1-10), em Maria (a pobre esquecida de Nazaré, elevada a Mãe do Messias), na Páscoa (onde Deus revela de modo definitivo a força do seu braço, exaltando o Pobre Jesus e julgando o Pecado do mundo) e no Juízo Final (quando já não haverá noite e toda soberba do mundo será destruída). Todas as tardes, quando o sol se põe e a escuridão começa a cobrir a terra, a pobre Igreja, de quem Maria é figura e modelo, canta o hino de louvor e confiança na misericordiosa salvação de Deus.

3 - Deus: Silenciosamente, é ele o autor da salvação, é ele a causa da alegria do Batista, do júbilo de Isabel e da exultação de Maria. Seu modo de agir subversivo da nossa lógica, sua fidelidade desconcertante e seu modo misterioso e sábio de guiar a história – tudo isso é cantado no Magnificat.

Todo este mistério nos faz intuir e contemplar um Deus que é próximo, que age no mundo, que entra na nossa vida, que nunca nos abandona. É um clima de exultação pela presença de Deus na humilde existência de cada um de nós...



3. A Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne



Leitura: Lc 2,1-20

Vamos meditar este mistério tomando três diversos pontos de observação:

Primeiro: o ponto de vista de Jesus. Quem é este que nasce? É o Emanuel, o Deus-conosco. Ele nasce no meio da noite humana como luz, ele nasce na pobreza, na humildade e na privação: precisa do leite da mãe, do cuidado de José. Nasce Deus dependente, Deus pobre, Deus fraco. É um mistério que jamais poderemos compreender completamente! Imaginamos um Deus grande e potente, e Deus nos ensina um outro caminho – o seu caminho – totalmente diverso do nosso. É um caminho que nos envergonha a todos! Não nos iludamos: jamais compreenderemos este mistério! Em Jesus, Deus quis comunicar-se de forma completa a um outro ser, diferente dele: o Criador quis experimentar ser criatura! Dignou-se se dar de presente a nós, veio a nós. Ele não quis ficar unicamente Deus, não se contentou em nos amar de longe, em debruçar-se sobre nós, simplesmente... Sem deixar de ser o Deus que sempre fora, fez-se homem, fez-se criança, fez-se um de nós! Ele quis saber por experiência o que é ser humano! No século XII, São Bernardo já explicava: “Ouviste dizer que o Verbo se fez carne. E por quê? Porque Deus quis saber o que é ser realmente humano. Mas, Deus já não sabe tudo? Não conhece o que é o homem, o que há nele? Sim! Mas, o amor quer experimentar a realidade do amado. Assim, ele quis conhecer por experiência o que significa a nossa humana realidade!” Pois bem, em Jesus Deus, pessoalmente, desceu para nos fazer subir; fez-se humano para encher a humanidade da vida divina! Quão grande aos olhos de Deus deve ser a criatura humana para que ele quisesse fazer-se um de nós! Grande coisa sim, porque fomos criados grandes, à sua imagem! Ele veio para uma humanidade ferida, veio para nos curar, nos erguer nos salvar... Ele teve compaixão de nossa solidão, de nossa pobreza, de nossa incapacidade de caminhar sozinhos... Veio para nos conduzir à comunhão com o Pai! Ele é um Deus que se faz próximo (cf. Lc 10,25-37). Como dizia Santo Elredo de Rieval: “Ouviste o nome do Menino: Emanuel, Deus conosco. Antes parecia ser Deus sem nós, Deus acima de nós e até mesmo Deus contra nós. Mas, agora, não: é Deus conosco: conosco nas alegrias, conosco nas tristezas, conosco nos trabalhos, conosco no descanso. Eis o seu nome: Emanuel! Nunca mais nós sem Deus; nunca mais Deus sem nós!”

Segundo: o ponto de vista de Maria e José. Em Belém, tudo é aperto, pobreza, imprevisibilidade: não há lugar para eles, não há tempo para providenciar, não há condições ideais para o parto. Há somente o silêncio de Deus. Como pode ser, um Deus que não cuida do seu Amado, um Deus que não abre portas, que não providencia? Silêncio... Qual a atitude de Maria e de José? Abandono, confiança... E seu fruto é a paz: a Virgem guardava tudo no coração. José, o Guardador de Jesus, faz o que pode, abandonando-se em Deus...

Terceiro: o ponto de vista dos outros personagens: (a) A simplicidade crente dos pastores, que vêem a Luz e, crendo, enchem-se de alegria, descobrindo a salvação de Deus. (b) A humilde docilidade dos magos que, como Abraão, deixam-se guiar pela luz do Menino, partem sem saber aonde iam e, assim, alcançam o Inalcançável e, cheios de alegria, voltam por outro caminho! (c) A arrogância de Herodes: apegado ao poder, fecha-se para as surpresas de Deus, torna-se medroso e tenta matar a ação de Deus. Somente consegue matar os outros e a si mesmo... (d) A cegueira de Jerusalém, sua descrença, tão pesada e densa, que chega a obscurecer a Estrela do Menino. Na Cidade Amada, não se pode ver a Estrela... Eis um grave risco para nossa alma: tornar-se como Jerusalém!



4. A Apresentação de Jesus no Templo e a Purificação da Virgem Maria



Leitura: Lc 2,22-40

Se pensarmos bem, a Apresentação não é um mistério gozoso, mas doloroso. Doloroso e rico de significados e lições para a nossa vida com Deus.

A primeira lição é a da humilde obediência da Sagrada Família à Lei de Deus: “Quando chegou a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho nascido de mulher, nascido sob a Lei para resgatar os que estavam debaixo da Lei” (Gl 4,4s). É comovente contemplar o Filho eterno do Pai, José e Maria Santíssima submeterem-se à Lei de Moisés (Lc 2,22.23.24.39), que prescrevia a consagração do macho primogênito ao Senhor e a purificação da mãe após o parto – quer o parto fosse normal quer não (cf. Ex 13,2; 13,11). Além da humildade, há duas razões teológicas: Jesus, sendo o primogênito de José, é o descendente de Davi, o herdeiro das promessas feitas a Davi, é o Messias-Rei de Israel; além do mais, assumindo a submissão à Lei, ele nos libertaria da Lei, pois nele toda Lei se cumprirá...

A segunda lição é de pobreza. José e Maria apresentam a oferta dos pobres: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lv 5,7; 12,8). Não têm gado graúdo nem miúdo... O Filho de Deus nasceu pobre entre os pobres; ele viveu como pobre! Mais uma vez, na contemplação dos mistérios do terço aparece o mistério da santa pobreza, que Deus escolhe para confundir a lógica humana, fundada na força, na própria segurança e na prepotência... Deus ama os pobres, porque eles não confiam em si mesmos, mas coloca sua confiança no Senhor e por ele esperam. E, na sua pobreza, José e Maria ofertam tudo quanto têm ao Senhor: ofertam o Primogênito, o filho único... como a viúva pobre, como nosso pai Abraão no monte Moriá, entregam tudo quanto possuem, sem nada reter...

Terceira lição: O Senhor aceita a oferta: o Menino será sinal de contradição e a oferta seria consumada no Calvário, quando uma espada traspassararia o coração de Maria: coração íntegro, imaculado, todo ferido, todo vazio de si mesmo, todo oferente na oferta do Filho. Os pais de Jesus admiram-se e se abandonam nas mãos de Deus, Senhor do nosso futuro e da nossa vida...

Quarta lição: a fidelidade de Deus, que aparece na exultação de Simeão e Ana. Esses dois anciãos são imagens do Antigo Testamento, do Israel que esperou pacientemente, contra toda esperança. Agora, podem, finalmente, ver a salvação de Deus! Esses dois personagens nos ensinam a esperar na perseverança, esperar, esperando pacientemente oDeus de Deus, porque ele é fidelíssimo.

Há ainda, neste mistério, um sentido litúrgico muito belo. Os orientais chamam esta apresentação de Jesus de “Encontro”. É o primeiro encontro do Messias com a Cidade Santa, Jerusalém (cf. Ml 3,1). Ele vem como “Luz para iluminar as nações e ser glória de Israel, seu povo” (Lc 2,29-32; Is 42,6; 49,6). Por isso, a liturgia faz, na Festa do Encontro, em 2 de fevereiro, uma procissão com velas. Aí, a Igreja-Esposa vai ao encontro do Messias-Esposo com as lâmpadas acesas, prefigurando o Encontro no final dos tempos. Assim a Igreja deve viver e ser: Esposa vigilante e paciente, que aguarda o seu Senhor!



5. Jesus encontrado no Templo por José e Maria



Leitura: Lc 2,41-52

Este último mistério gozoso, misturando cores dolorosas e gozosas, apresenta-nos algumas lições simples, discretas e profundas:

A simplicidade de José e de Maria que, como judeus piedosos, vão a Jerusalém para as festas de Israel.

O Bar-Mitzá de Jesus: aos doze anos, ele se torna “filho do preceito”: sendo considerado adulto em Israel, poderia agora ler na sinagoga e explicar a Lei. Jesus foi verdadeiramente homem, verdadeiramente judeu... Na simplicidade de sua vida, Deus ia enchendo de sentido a simples vida humana e ia cumprindo, isto é, realizando o judaísmo e, assim, superando-o...

Jesus é encontrado “três dias depois” na Casa do Pai – assim ele o será de modo pleno e definitivo após a Ressurreição. Assim nós o poderemos encontrar para sempre, de modo definitivo, ressuscitado, na Casa do Pai, por toda a eternidade!

A angústia de José e Maria, procurando Jesus. A fé e a amizade com Deus não nos livram das tensões, problemas e surpresas da vida. Mas, a Sagrada Família foi vivendo tudo humildemente, na fé, guardando tudo no coração, mesmo sem compreender. Crer não é compreender tudo; crer é abandonar-se, é entregar-se... é caminhar como se visse o invisível... O mesmo vale ante a misteriosa resposta de Jesus, que deixou seus pais desconcertados. José e Maria, muito cedo, começaram a perder Jesus para o Pai; tudo, na vida deles, foi colocado a serviço de Deus e do seu Reino... e isso, na simplicidade de cada dia, sem barulho, sem dramalhões nem holofotes...

Jesus no Templo, entre os doutores, é a própria Sabedoria de Deus, que se faz presente para nos iluminar. É impressionante a consciência desse Manino: só o Pai é importante, só o Pai é sua última opção e compromisso.

Finalmente, o modo doce como Lucas termina a narrativa: a vida simples em Nazaré, a submissão de Jesus a seus pais, o dia-a-dia vivido na alegria, na simplicidade, na humildade, diante de Deus e dos homens. Nada é tão belo como uma vida normal, vivida sem dramas nem falsos conflitos; nada agrada tanto a Deus; nada é tão monástico e cristão. Mas só os simples são capazes disso...


Côn. Henrique Soares da Costa
www.padrehenrique.com

Meditação sobre o Santo Rosário (I)

Introdução

Comecemos com um fato teológico surpreendente: o rosário é um dos modos de oração mais queridos pelo Povo de Deus. Está na alma, no instinto dos fiéis. Simples leigos, iletrados ou cultos, monges, religiosos missionários e religiosas de clausuras, sacerdotes, bispos e papas, uma imensa multidão de fiéis encontram no santo rosário conforto e caminho seguro de oração. Isto não pode ser fruto do acaso, mas revela uma direção na qual o Espírito que guia a Igreja e sustenta o instinto de fé do Povo de Deus, vai conduzindo os discípulos de Cristo na sua prática de piedade. Em outras palavras: na difusão da devoção do rosário certamente há uma providencial ação do Espírito de Deus.

Não é possível datar com certeza a origem do rosário nem determinar com precisão o modo como evoluiu. De modo breve e geral, sabemos que os primeiros monges do deserto, lá pelo século IV, tinham o costume de rezar orações vocais usando pedrinhas como marcadores. Em geral, rezava-se o Pai-nosso. A partir do século XII, difundiu-se o costume de rezar cento e cinqüenta Ave-Marias com cordinhas cheias de nós: era o modo que muitos iletrados encontravam para substituir a oração dos cento e cinqüenta salmos que os monges rezam nos coros das grandes abadias medievais. Depois, se uniu às Ave-Marias os Pai-nossos. Finalmente, uniu-se às orações a contemplação dos mistérios. Foram os dominicanos que, no século XIII, muitíssimo contribuíram para a difusão dessa devoção que, assim, se espalhou por toda a cristandade ocidental. A partir de 1480 iniciou-se a esquematização dos quinze mistérios como tínhamos até a pouco, quando o Servo de Deus João Paulo II introduziu os cinco mistérios luminosos.

Várias vezes, em tempos de graves perigos, provocados por guerras e heresias, foi a oração do rosário que sustentou e consolou a fé do povo de Deus. Basta pensar como os dominicanos usaram esta oração no combate à heresia cátara, no século XIII e como o povo cristão a rezou pedindo socorro contra os muçulmanos na batalha naval de Lepanto, no século XVI.O rosário é, pois, patrimônio da devoção da Igreja do Ocidente. Século após século esta foi sobretudo a oração dos pobres, dos simples, dos desvalidos, seu misterioso elo de ligação com a Igreja e com a vida espiritual e um símbolo claríssimo de identidade católica.

É importante recordar que nas várias aparições da Virgem Maria – sobretudo em Lourdes e Fátima – Nossa Senhora insistiu na reza do rosário. Esses apelos tiveram impressionante eco na Igreja: vários documentos do Magistério papal e o próprio exemplo pessoal dos Papas e dos santos apelam vivamente a essa forma de oração.

A devoção do rosário é preciosa por vários motivos:
(1) é bíblica, ajudando a penetrar contemplativamente os mistérios essenciais da história da salvação,
(2) está toda orientada para Cristo, já que para ele se dirigem e dele decorrem todos os acontecimentos da nossa salvação;
(3) apresenta um caráter contemplativo, pois na cantilena das ave-marias o coração vai repousando no afeto despertado pela pacífica e serena contemplação dos mistérios recordados;
(4) e, finalmente, tem relação profunda com a liturgia, pois é nesta última que se faz o memorial de toda a história da salvação, que tem na Páscoa de Cristo o seu cume.

O rosário tem uma dinâmica própria, que é muito importante que seja bem compreendida: aí louva-se o Cristo. A Virgem abre-lhe o caminho, pois a cadência das palavras com a contemplação dos mistérios permitem ao orante unir-se afetivamente ao Senhor, Autor da nossa salvação e último responsável por tudo quanto ali contemplamos.

Assim, quem reza o rosário de maneira correta sente-se chamado pessoalmente, sente-se preso e inserido no destino e no curso da vida do nosso Salvador. Deste modo, o santo Rosário é realmente oração do Senhor e ao Senhor. Bem rezado, ele é uma forma excelente de oração, que nos exercita na meditação contemplativa, reunindo as forças do espírito e da alma em torno do Redentor, fazendo-nos aderir a ele e moldar nosso coração pelo seu Coração, conformando nossos sentimentos aos seus.

A repetição cadenciada, a atenção atenta, mas não forçada, mais presa pelo afeto que pela racionalidade, une profunda e intuitivamente ao mistério de Cristo, dando-nos aquele conhecimento que ultrapassa todo conhecimento. Deste modo, o santo rosário tem sido a oração dos pequenos, dos simples, dos incultos, formando um inumerável exército de santos.

Notas para bem rezá-lo:
(a) Mais importante que a atenção às ave-marias é a contemplação dos mistérios;
(b) As ave-marias servem para cadenciar a contemplação em união com a Mãe do Senhor, dando paz, repouso e serenidade ao coração e à mente;
(c) É importante ter o rosário em mãos enquanto se reza: o passar as contas é parte da oração e dá-lhe o ritmo;
(d) Deve-se ter atenção ao que se reza: não tanto à palavra, mas primeiramente ao afeto, que vai brotando paulatinamente, à medida que as contas são passadas;
(e) No caso de distração, não se deve preocupar; basta voltar a atenção e continuar tranquilamente a oração. É importante também aprender a fazer da distração a própria oração: aquilo que nos distraiu deve ser colocado na própria oração. Em outras palavras: dizem-se as ave-marias pensando-se nas coisas que nos ocupam e preocupam. Assim, numa impressionante compenetração, a oração entra na vida e a vida se faz oração.
(f) É importante a cadência na recitação. Os pai-nossos e ave-marias devem ser quase que cantados numa espécie de “retotom”...
(g) Mais que em qualquer outro modo de oração vocal, no rosário a coisa não está em pensar muito, mas em amar muito, numa atenção disponível e amorosa para com o Senhor e sua Santíssima Mãe;
(h) Deve-se ser dócil ao Espírito, que indicará o sabor, a intensidade, o tema da oração... Às vezes nossa atenção estará mais nas palavras, às vezes, numa frase; às vezes numa idéia do mistério; às vezes, nos acontecimentos e situações que nos estão preocupando...

Quanto aos tempos de rezá-lo, deve ser rezado diariamente, de modo completo ou espaçado, a sós ou comunitariamente.


Côn. Henrique Soares da Costa
www.padrehenrique.com

Fonte: Palavra da Verdade

Uma praga chamada fundamentalismo (parte 2)


No artigo passado escrevemos sobre a interpretação fundamentalista, isto é, literal da Escritura. Vimos então que interpretar a Palavra de Deus ao pé da letra é um erro, uma ilusão e uma traição ao que o Senhor nos quer revelar. Os motivos foram apresentados de modo bastante detalhado! No presente artigo gostaríamos de explicar como se deve proceder para uma leitura correta e frutuosa da Palavra santa de Deus, sem cair no erro grosseiro dos fundamentalistas. Para tanto é necessário levar em conta os seguintes pontos:

1) O centro de toda a Escritura é Jesus Cristo; foi para ele que os livros santos foram escritos: tudo leva ao Cristo e somente nele encontra sentido! Este fato nos deve recordar duas coisas: (1) No Antigo Testamento é importante, é normativo (obrigatório) para nós cristãos somente aquilo que conduz a Cristo, aquilo que se relaciona diretamente com ele. Eis alguns exemplos: preceitos como não comer carne de porco, guardar o sábado, não usar imagens, a circuncisão... nada disso tem mais importância alguma para nós! E por quê? Porque Cristo cumpriu a lei, quer dizer, realizou tudo isso que era apenas figura do que deveria vir! Já São Paulo alertava os cristãos para isso: “Ninguém vos julgue por questões de comida e de bebida, ou a respeito de festas anuais ou de lua nova ou de sábados, que são apenas sombra de coisas que haviam de vir, mas a realidade é o corpo de Cristo” (Cl 2,16s); (2) O Antigo Testamento é preparação para o Novo, de modo que é um grave erro interpretá-lo em si mesmo, sem observar como os primeiros cristãos reinterpretaram as Escrituras de Israel à luz de Cristo. Por exemplo: é desconhecer a ressurreição de Cristo afirmar que os mortos ficam dormindo: se o Antigo Testamento afirma isto é porque os judeus esperavam o Messias; ora, nós cristãos sabemos que o Messias já veio! É também uma leitura errada um cristão falar em “batismo nas águas”. Este era o batismo de João Batista; com a ressurreição do Senhor, o batismo com água é batismo no Espírito do Ressuscitado: no Novo Testamento, a água é símbolo do Espírito (cf. Jo 7,37-39; 4,13-14; 19,34)

2) Nas Escrituras Sagradas existe uma coisa chamada “analogia da fé”, quer dizer um fio condutor, uma idéia de fundo que atravessa todos os livros. Que idéia é essa? É que Deus deseja salvar toda a humanidade através do seu Filho Jesus, fazendo-lhe o dom do Espírito. Ora, não se pode, então, ler corretamente algum texto da Bíblia esquecendo isso! Por exemplo: os textos nos quais se fala da salvação são mais importantes que aqueles que falam em condenação. A Bíblia fala na possibilidade de condenação por um motivo só: para nos recordar que nós podemos, com nossa liberdade, dizer “não” a Deus, fechando-nos para ele, que é a Vida! Então, colocar todos os textos num mesmo pé de igualdade e fazer da Escritura um livro carrancudo que se compraz em ameaçar com o inferno seria uma gravíssima traição a Deus e ao Evangelho (= feliz notícia!) de Cristo! Pense-se naqueles pregadores que só falam em ira, condenação, inferno... que “Boa notícia”, que Evangelho é esse? Mais uma coisa: ter consciência da “analogia de fé” evita dar importância ao que é secundário na Palavra de Deus, caindo em erros graves. Por exemplo: lembro-me de dois mórmons que, certa vez, em minha casa, vieram com um texto de Amós 3,7: “Pois o Senhor Deus não faz coisa alguma sem revelar o seu segredo a seus servos, os profetas”. Partindo deste texto eles queriam afirmar que o fundador de sua religião, Joseph Smith, era um verdadeiro profeta de Deus e fundara uma religião verdadeira por ordem de Deus! Ora, tal texto de Amós está muito, mas muito longe de ser um texto central ou importante para a mensagem da Escritura! Em outras palavras: coam o mosquito e deixam passar o camelo: apegam-se a um texto sem importância e esquecem textos centrais como a fé na Igreja que Cristo confiou a Pedro e seus sucessores, o fato de Jesus ser o centro da revelação e não mais se poder inventar outras revelações (como o Livro de Mórmon, que Joseph Smith inventou...). Um outro exemplo interessante são as Testemunhas de Jeová: apegam-se a duas ou três frases soltas de Isaías: “As minhas testemunhas sois vós!”(43,10) e “Vós sois as minhas testemunhas” (43,12) e, partindo daí, consideram-se as testemunhas de Jeová (o nome correto é Javé!). Ora, a Testemunha Fiel e verdadeira é uma só: Cristo Jesus, o Filho eterno do Pai: quem não aceita Jesus como Senhor e Deus, não aceita o testemunho de Deus (cf. 1Jo 4,3; 1Cor 12,3; Rm 9,5). Assim, as Testemunhas de Jeová, apegando-se a uma frase solta e sem grande importância do Antigo Testamento, traíram a mensagem central do Novo Testamento! Apegando-se à letra mal lida, sufocaram o Espírito de Deus no qual confessamos que Jesus é Senhor e Deus! Ainda mais dois exemplos simples de interpretação fundamentalista por não se ter em mente a “analogia da fé”: os líderes da Igreja Universal levarem orações dos fiéis para colocar no Muro das Lamentações em Jerusalém... Nem se recordam que o Templo não tem mais valor algum e que o verdadeiro templo é o Cristo ressuscitado (cf. Jo 2,19-21; 4,21)! Assim, enfatizam o Antigo, obscurecendo o Novo Testamento; trocam o vinho novo pela água da purificação dos judeus! O último exemplo a ser dado é de um grupo de católicos que, em suas reuniões, estava ungindo com o “óleo da alegria”, baseando-se em uma frase solta de Isaías (cf. Is 61,3). Ora, primeiramente o profeta está usando uma imagem e, depois, o único óleo da alegria que o cristão conhece é o Espírito Santo, com o qual fomos ungindos no Batismo e na Crisma! O fundamentalismo é venenoso sempre, leva sempre ao erro e a deturpar a Palavra de Deus, mutilando-a! É necessário, então, não tomar tudo na Bíblia como se se tratasse de afirmações absolutas e desligadas umas das outras! Toda frase, todo texto, deve ser interpretado no seu contexto... e o contexto da Escritura é a salvação que o Pai nos dá em Cristo!

3) A Escritura não pode ser interpretada de modo privado (cf. 2Pd 1,20-21)! O Antigo Testamento nasceu no seio do Povo de Israel e era interpretado no seio da Comunidade. Do mesmo modo o Novo Testamento nasceu no seio da Igreja católica: foi escrito por católicos e para a Comunidade cristã, que era toda católica. O Novo Testamento nada mais é que o essencial da Tradição oral da Igreja (quer dizer, da pregação apostólica e da vida dos primeiros cristãos) colocada por escrito. O próprio Jesus não mandou escrever nada, mas sim pregar (oralmente e pela vida) o Evangelho. Basta pensar nisto: Cristo morreu e ressuscitou no ano 30 da nossa era; o livro mais antigo do Novo Testamento, o primeiro a ser escrito, foi a Primeira Carta aos Tessalonicenses, no ano 51; o primeiro evangelho a ser escrito foi o de Marcos, lá pelo ano 64. O cânon definitivo do Novo Testamento somente foi definido pela Igreja lá pelo século II-III. Tudo isto significa que a Igreja existe antes do Novo Testamento e o Novo Testamento nasceu na Igreja, quer dizer, na Comunidade sob a liderança de seus pastores legítimos, de modo que os escritos neotestamentários nada mais são que expressão da fé da Comunidade. Assim sendo, somente em comunhão com a Comunidade, que é a Igreja, pode-se interpretar corretamente a Escritura. Interpretada de modo individual e individualista, a Palavra vira confusão. Basta ver a multidão de seitas em que se esfacelou e continua esfacelando-se o cristianismo. Estamos como no tempo dos juízes de Israel, quando cada um fazia como queria (cf. Jz 17,6; 21,25); hoje cada um pensa que pode interpretar a Bíblia como quer... e fundar sua igrejinha, baseando-se na sua “sábia” interpretação. Ao invés, se olharmos bem o Novo Testamento, veremos que Cristo e os Apóstolos recomendam que a Igreja viva da Tradição recebida oralmente (quer dizer naquelas coisas que vêm dos Apóstolos) ou por escrito (ou seja, a Tradição atestada nos livros do Novo Testamento) – cf. At 2,42; 1Tm 6,20; 2Tm 1,12-14; 1Cor 11,23s). O Catecismo da Igreja Católica exprime isso de modo muito preciso: “Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles transmitindo seu próprio encargo de Magistério. Com efeito, a pregação apostólica, que é expressa de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos” (n.77). Ler a Escritura fora ou contra a Comunidade eclesial na qual ela nasceu é como querer compreender e saborear as emoções de um álbum de família sem pertencer àquela família e sem ter participado de sua história... Esse ficará sempre por fora! Infelizmente é isso que vemos hoje: tantos e tanto, coitados, lendo a Bíblia como se fosse uma receita de bolo: uma pitadinha de oração; um bocadinho de culto de louvor, alguns exorcismos, meia dúzia de aleluias, tantos gramas de orações pela paz de Jerusalém, meio quilo de observâncias arcaicas do Antigo Testamento... e pensa-se que se está cumprindo as Escrituras! Ledo engano! Não podemos interpretar corretamente a Bíblia a não ser que a interpretemos com a Igreja. Portanto, é necessário perguntar: como as primeiras gerações, inspiradas pelo Espírito, interpretaram e viveram as Santas Escrituras? O que ensinaram os Santos Doutores da Igreja antiga sobre elas? Como os cristãos, guiados pelo Espírito foram interpretando estes livros santos, vivendo e morrendo por eles? Como os legítimos pastores da Igreja os ensinaram? Aí sim, teremos a estupenda alegria de ver o Espírito do Senhor, sempre presente na Igreja, conduzindo o rebanho de Cristo à verdade plena (cf. Jo 14, 16-17; 16,13-14; Mt 28,20; 16,16-18).

Teremos ainda um terceiro artigo sobre este tema. Aí vamos continuar a apresentar os critérios para uma interpretação correta da Escritura Sagrada. Até lá!

Côn. Henrique Soares da Costa
fonte: www.padrehenrique.com

Liturgia Diária!!!

Quinta-feira, dia 13 de Novembro de 2008


Santo Estanislau Kostka, religioso, +1568



Comentário ao Evangelho do dia feito por
Concílio Vaticano II : "O Reino de Deus está no meio de vós

Leituras

Filémon 1,7-20.
De facto, foi grande a alegria e a consolação que tive com o teu amor,
porque os corações dos santos foram reconfortados por meio de ti, irmão.
Por isso, embora tenha toda a autoridade em Cristo para te impor o que mais
convém,
levado pelo amor, prefiro pedir como aquele que sou: Paulo, um ancião e,
agora, até prisioneiro por causa de Cristo Jesus.
Peço-te pelo meu filho, que gerei na prisão: Onésimo,
que outrora te era inútil, mas agora é, para ti e para mim, bem útil.
É ele que eu te envio: ele, isto é, o meu próprio coração.
Eu bem desejava mantê-lo junto de mim, para, em vez de ti, se colocar ao
meu serviço nas prisões que sofro por causa do evangelho.
Porém, nada quero fazer sem o teu consentimento, para que o bem que fazes
não seja por obrigação, mas de livre vontade.
É que, afinal, talvez tenha sido por isto que ele foi afastado por breve
tempo: para que o recebas para sempre,
não já como escravo, mas muito mais do que um escravo: como irmão querido;
isto especialmente para mim, quanto mais para ti, que com ele estás
relacionado tanto humanamente como no Senhor.
Se, pois, me consideras em comunhão contigo, recebe-o como a mim próprio.
E se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve, põe isso na
minha conta.
Sou eu, Paulo, que o escrevo pela minha própria mão: serei eu a pagar.
Isto, para não te dizer que me deves a tua própria pessoa.
Sim, irmão, possa eu sentir-me satisfeito contigo no Senhor: reconforta o
meu coração em Cristo.


Salmos 146,7.8-9.9-10.
Ele é eternamente fiel à sua palavra; salva os oprimidos, dá pão aos que
têm fome; o SENHOR liberta os prisioneiros.
SENHOR dá vista aos cegos, o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama o
homem justo.
SENHOR protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva,
mas entrava o caminho aos pecadores.
SENHOR protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva,
mas entrava o caminho aos pecadores.
SENHOR reinará eternamente! O teu Deus, ó Sião, reinará por todas as
gerações!


Lucas 17,20-25.
Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus
respondeu-lhes: «O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva.
Ninguém poderá afirmar: 'Ei-lo aqui' ou 'Ei-lo ali', pois o Reino de Deus
está entre vós.»
Depois, disse aos discípulos: «Tempo virá em que desejareis ver um dos dias
do Filho do Homem e não o vereis.
Vão dizer-vos: 'Ei-lo ali', ou então: 'Ei-lo aqui.' Não queirais ir lá nem
os sigais.
Porque, como o relâmpago, ao faiscar, brilha de um extremo ao outro do céu,
assim será o Filho do Homem no seu dia.
Mas, primeiramente, Ele tem de sofrer muito e ser rejeitado por esta
geração.


Da Bíblia Sagrada



Comentário ao Evangelho do dia feito por

Concílio Vaticano II
Constituição sobre a Igreja no mundo actual "Gaudium et spes", § 38

"O Reino de Deus está no meio de vós

O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas, fazendo-se homem e
vivendo na terra dos homens, entrou como homem perfeito na história do
mundo, assumindo-a e recapitulando-a. Ele revela-nos que «Deus é amor» (1Jo
4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana
e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor...
Suportando a morte por todos nós pecadores, ensina-nos com o seu exemplo
que também devemos levar a cruz que a carne e o mundo fazem pesar sobre os
ombros daqueles que buscam a paz e a justiça.

Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo, a quem foi dado todo o
poder no céu e na terra (Mt 28,18), actua já pela força do Espírito Santo
nos corações dos homens; não suscita neles apenas o desejo da vida futura,
mas, por isso mesmo, anima, purifica e fortalece também aquelas generosas
aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana e a
submeter para esse fim toda a terra. Sem dúvida, os dons do Espírito são
diversos: enquanto chama alguns a darem claro testemunho do desejo da
pátria celeste e a conservarem-no vivo no seio da família humana, chama
outros a dedicarem-se ao serviço terreno dos homens, preparando com esta
sua actividade como que a matéria do reino dos céus. Liberta, porém, a
todos, para que, deixando o amor próprio e empregando em favor da vida
humana todas as energias terrenas, se lancem para o futuro, em que a
humanidade se tornará oblação agradável a Deus.

* * *
«Faz frutificar em nós, Senhor, a Eucaristia que nos reuniu: é por
ela que Tu formas, desde agora, através da vida deste mundo, o amor com que
eternamente te amaremos.» (Missal romano: oração depois da comunhão, 1º
domingo do Advento)




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12 de nov de 2008

Uma praga chamada fundamentalismo (parte 1)


O fundamentalismo: a Bíblia como receita de bolo – I

Já há alguns anos temos presenciado no seio dos cristãos um amor renovado à Palavra de Deus; uma verdadeira sede de conhecer as Escrituras Sagradas. Deus seja louvado por tudo isso! O problema é o modo que muitas vezes se tem de ler e interpretar a Escritura; modo este que termina mais atrapalhando que ajudando, mais afastando que aproximando da verdade, mais confundindo que esclarecendo. É este o caso da leitura fundamentalista da Escritura, que vamos abordar no presente artigo.

O fundamentalismo é um modo literal de ler a Bíblia: lê-la ao pé da letra, como está lá! Para os fundamentalistas as Sagradas Escrituras, por serem inspiradas por Deus, não contêm erros ou evoluções de modo algum. Tudo nela deve ser interpretado de modo estritamente literal! Assim, o mundo foi criado em seis dias, a humanidade toda veio de um casal só – Adão e Eva, o dilúvio aconteceu tal e qual o Gênesis afirma, Sodoma e Gomorra pereceram tal qual está na Escritura, o sol e a lua pararam por ordem de Josué, Jonas permaneceu três dias no ventre de um peixe... e por aí a fora.

A mentalidade fundamentalista surgiu entre grupos protestantes norte-americanos do início deste século, seguidos por alguns grupos europeus. Entre nós tal mentalidade encontra-se sobretudo na grande maioria das denominações protestantes. Estes grupos sentem-se muito seguros de si porque lêem a Bíblia assim, literalmente! Só que tal segurança é absolutamente falsa. E isto por vários motivos:

1) A Bíblia interpretada de modo literal torna-se completamente contrária a muitas das descobertas da ciência atual, levando o crente a negar a ciência e a ciência a zombar da fé. Ora, o Deus que se revelou e nos convida à fé é o mesmo Deus que deu ao homem a inteligência para descobrir e pesquisar cientificamente! Como ignorar hoje a teoria de Charles Darwin, segundo a qual as espécies – inclusive a humana – evoluem? Como negar as descobertas arqueológicas que corrigem com razão muitas das afirmações da Bíblia? Como ignorar as descobertas dos astrofísicos sobre a origem e evolução do universo? Seria loucura e pura insensatez meter a cabeça no buraco e ignorar solenemente tudo isto. É como se religião fosse coisa para analfabeto e ignorante! Esta atitude fundamentalista é um assassinato à fé cristã: seria afirmar que num mundo científico não haveria lugar para Deus: ou um ou outro, ou Deus ou a ciência! Ora, tal visão nega e afronta a própria Bíblia: “Façamos o homem... que ele domine sobre os peixes do mar e as aves do céu...” (Gn 1,26); “O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo” (Gn 2,15). A ciência não é obra do diabo, mas fruto da inteligência que Deus deu ao homem para progredir e cuidar do mundo por ele criado!

2) A Escritura, se tomada literalmente, sem o auxílio da exegese, apresenta contradições insuperáveis, que terminam por desmoralizá-la completamente. Basta citar alguns exemplos: em Gn 1,26-27 Deus criou o homem e a mulher de uma só vez, e isso depois de ter criado todos os animais; já em Gn 2,7-8.18-23 Deus criou primeiro o varão, depois as plantas, depois os animais e, somente depois, a mulher, da costela do homem! Outro exemplo: em Gn 1,26-27 Deus cria o homem pela sua palavra; em Gn 2,7 Deus cria o homem plasmando-o da argila da terra! E agora? Outro exemplo: na história de José está dito que os mercadores a quem José foi vendido eram ismaelitas (cf. Gn 37, 25); mais adiante, está dito que eram madianitas (cf. Gn 37,28). Em Gn 6,6 está dito que Deus se arrependeu de ter criado o homem; em 1Sm 15,29 diz-se que Deus não se arrepende nunca! Mateus diz que Jesus pronunciou as bem-aventuranças numa montanha (cf. Mt 5,1); Lucas diz o contrário: Jesus pronunciou as bem-aventuranças numa planície (cf. Lc 6,17-23); Mateus afirma que Jesus subiu aos céus na Galiléia (cf. Mt 28,16ss); Lucas garante que foi nos arredores de Jerusalém, em Betânia e, portanto, na Judéia (cf. Lc 24,50ss). Marcos afirma que era um só o cego de Jericó (cf. Mc 10,46ss); Mt 20,29ss afirma que eram dois. Estou citando apenas alguns exemplos. Poderia citar muitíssimos, no Antigo e no Novo Testamento, que mostram contradições entre vários textos bíblicos. Estaria a Bíblia errada? Não! Errados estão os que a lêem literalmente, como se ela fosse uma crônica histórica! A Bíblia não mente: ela traz a verdade de nossa salvação!

3) De acordo com a própria Escritura, Deus nunca age sufocando o ser humano. Isto vale também para a inspiração. Os autores dos livros sagrados não eram simples instrumentos passivos nas mãos de Deus. Não se deve pensar a inspiração como uma psicografia, na qual o escritor simplesmente copia o que lhe foi ditado. Nada disso! Quando o autor sagrado escreve, muitas vezes nem sabe que está escrevendo um livro inspirado, livro que fará parte da Bíblia. Assim, ele escreve com sua mentalidade, seu estilo literário, suas características. Por exemplo: o estilo do Evangelho de Marcos é grosseiro e o seu modo de escrever o grego é muito feio e ruim. Já o estilo de São Lucas e São João é muito belo. Cada autor tem suas idéias próprias, seu modo de ver e avaliar a situação em que viveu. Além do mais, ninguém escreve um livro (nem os livros da Bíblia) a toa. Para compreender bem um livro da Escritura é necessário saber ao menos um pouco quem escreveu, para quem e com que intenção. Repito: quem escreveu o livro não sabia que estava escrevendo um livro inspirado! Então, quem é que diz que tal livro é inspirado? Lembre-se do artigo sobre o cânon! A única instância que pode afirmar se um livro é ou não inspirado por Deus é a Igreja, sob a guia dos seus legítimos pastores!

4) O fundamentalismo toma o texto bíblico sem observar como cada livro se formou. O resultado é uma leitura totalmente deturpada! Por exemplo: a revelação não foi feita de uma só vez, mas foi acontecendo aos poucos, na história do povo de Israel. Assim, há na própria Bíblia uma evolução. Eis alguns exemplos: (a) a questão da vida após a morte: no começo Israel pensava que, com a morte, todos ficariam para sempre no sheol, num sono eterno e sem nenhuma esperança (cf. Is 38,9-11.18; Sl 6,6; Sl 88,11-13); somente a partir do século IV antes de Cristo, Israel começou a esperar na ressurreição (cf. 2Mc 7,8-9.11.14.22-23.27-29; Dn 12,2-3). Então, há livros na Bíblia que esperam na ressurreição e livros que não esperam! (b) A própria questão do Deus único evoluiu na Bíblia: no começo Israel pensava que existiam muitos deuses, mas somente Javé era o Deus de Israel; Javé era maior do que os outros deuses (pensava-se assim: esses deuses existiam, mas Israel somente servirá a Javé). Os livros mais antigos da Bíblia têm essa mentalidade (cf. Ex 20,1-3; Sl 95,3; Gn 31,53; Nm 21,29; Jz 11,23s; 1Sm 26,19; Sl 89,6-9); já os livros escritos pela época do Exílio de Babilônia deixam claro que não há outros deuses: só existe Javé (cf. Is 44,6-8; Jr 2,10s). (c) Mudou também o modo de a Bíblia ver a monarquia: primeiro era contra (cf. 1Sm 8,1-9; 10,17-24), depois passou a ser a favor (cf. 9,1 – 10,16; Sl 21,1-2). Bastam estes exemplos para fazer compreender que não se pode entender bem a Escritura simplesmente interpretando tudo ao pé da letra, sem olhar o contexto em que cada livro foi escrito!

5) Outro problema sério é o do gênero literário: ninguém lê uma poesia como quem lê um jornal; ninguém lê um romance como quem lê um manual de eletrodoméstico. Em outras palavras: cada livro tem um gênero literário e se não se estiver atento a isto pode-se cometer erros grosseiros. Assim, por exemplo, os salmos são poesia; Gn 1-12 são como parábolas sapienciais; Jó é um longo poema como a nossa literatura de cordel; Êxodo é uma epopéia; Isaías é uma coleção de oráculos; Cântico dos Cânticos é uma coleção de poemas de amor; Ester e Jonas são pequenas novelas; Daniel é um livretinho apocalíptico; Romanos é uma carta. Para ser bem interpretada, cada obra desta deve ser lida dentro do seu estilo literário... senão o leitor vai trair a intenção do autor do livro, traindo, assim, a revelação de Deus!

6) Uma outra coisa: estes fundamentalistas pensam que estão interpretando a Bíblia ao pé da letra mas, na verdade, a estão interpretando de acordo com suas pré-compreensões, seus “pré-conceitos”. Estão fazendo a Bíblia dizer o que eles querem que ela diga e não o que ela quer dizer! Eis alguns exemplos: por que os protestantes não aceitam a afirmação de Jesus: “Isto é o meu corpo; isto é o meu sangue” (Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20)? Jesus foi tão claro: “A minha carne é verdadeiramente comida e o meu sangue e verdadeiramente bebida”(Jo 6,55)! Por que não aceitam Pedro como chefe da Igreja, se Jesus diz claramente: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18)? A resposta é simples: quando eles lêem e interpretam a Bíblia já levam o preconceito, isto é uma pré-compreensão, que faz com que eles entendam a Bíblia como eles acham que devem entender! Então, cuidado: é somente na aparência que os fundamentalistas parecem ser mais fiéis à Bíblia: na verdade, apegando-se à letra, traem o espírito!

Bom, por agora basta! No próximo artigo vou explicar como fazer para ler e interpretar a Bíblia corretamente, sem cair nos erros dos fundamentalistas! A Bíblia é para todos, não somente para especialistas; mas há um modo inteligente e um modo bobo de ler a Palavra de Deus! O modo fundamentalista é bobo!...


Côn. Henrique Soares da Costa
fonte: www.padrehenrique.com

Fonte: Palavra da Verdade

Mês de Novembro com Santa Faustina


O Pe. Milton Kenan Jr, da Arquidiocese de Jaboticabal, preparou-nos um belíssimo presente: Mês de Novembro com Santa Faustina

1 – “Vive na minha presença, pede o auxílio da Minha Mãe e dos Santos.” (Jesus a Santa faustina, V, 1560)

2 – “Eterno Pai, olha com olhos de Misericórdia às almas que sofrem no purgatório, e que estão encerradas no piedosíssimo Coração de Jesus.” (Santa Faustina, III, 1227)

3 – “ Tenho sentido na alma uma fome tão grande de Deus que me parecia morrer de desejo de unir-me a Ele; compreendi o que é a saudades que provam as almas do purgatório.” (Reflexão de S. Faustina, III, 1186)

4 – “Enquanto vivemos o amor de Deus aumenta em nós. Até a morte devemos empenhar-nos pelo amor de Deus.” (Reflexão de S. Faustina, III, 1191)

5 – “Quando a alma se sente fraca como uma criança então se agarra com toda força em Deus.” (Reflexão de S. Faustina, II, 944)

6 – “A paciência, a oração e o silêncio fortalecem a alma.” (Reflexão de S. Faustina, II, 944)

7 – “Ó meu Jesus, te suplico, fica comigo a cada momento.” (Santa Faustina a Jesus, II, 954)

8 – “Não cessa de rezar pelos pecadores. Tu sabes o quanto eles estão no meu Coração.” (Jesus a Santa Faustina, II, 975)

9 – “Sinto que nada me separará do Senhor, nem o céu, nem a terra, nem o presente, nem o futuro. Tudo pode mudar, mas o amor jamais, jamais: ele é sempre o mesmo.” (Reflexão de S. Faustina, II, 947)

10 – “A existência do mundo é sustentada pelas almas eleitas.” (Reflexão de S. Faustina, III, 1434)

11 – “Os momentos livres, mesmos se breves, utiliza-os para rezar pelos agonizantes.” (Reflexão de S. Faustina, III, 861)

12 – “Não é grande coisa amar Deus na prosperidade e agradecer-lhe quando tudo vai bem, mas adora-o entre as mais graves adversidades e põe nele a confiança.” (Reflexão de S. Faustina, II, 995)

13 – “O amor se esconde sob a aparência do pão...o amor ardente o esconde sob estas espécies.” (Reflexão de S. Faustina, III, 1002)

14 – “O Senhor tem uma predileção pelas almas pequenas e humildes. Quanto mais profundamente uma alma se humilha, tanto mais amávelmente o Senhor se aproxima dela.” (Reflexão de S. Faustina, III, 1092)

15 – “Ó Jesus, guiai-me vós mesmo, porque vós sabeis o que eu posso suportar. Creio firmemente que Deus não pode confiar-me mais do que posso suportar.” (Santa Faustina a Jesus, III, 1118)

16 – “Filha minha, saiba que às almas soberbas não concedo as Minhas graças, ma tiro mesmo aquelas que lhes concedi.” (Jesus a Santa Faustina, III, 1170)

17 – “O meu olhar nesta imagem é tal qual o meu olhar na cruz.” (Jesus a Santa Faustina, I, 326)

18 – “Ó Jesus, dai-nos sacerdotes santos e zelosos.” (Santa Faustina a Jesus, II, 940)

19 – “A tua Misericórdia, ó Jesus, esteja impressa no meu coração e na minha alma como um selo e isto será o meu sinal distintivo nesta e na outra vida.” (Santa Faustina a Jesus, III, 1242)

20 – “Sou o Rei da Misericórdia.” (Jesus a Santa Faustina, I, 88)

21 – “A Virgem Santa, qual lírio branco, por primeiro adora a onipotência da Tua Misericórdia.” (Santa Faustina a Jesus, IV, 1746)

22 – “Ó Jesus, ó Deus eterno, Te agradeço pelos teus inúmeros benefícios e tuas graças. Cada batida do meu coração seja um hino de agradecimento a Ti, ó Deus.” (Santa Faustina a Jesus, VI, 1794)

23 – “ Ò fonte de vida, insondável Misericórdia de Deus, envolvei o mundo inteiro e derramai-vos sobre nós!” (Santa Faustina a Jesus, VI, 1319)

24 – “Mesmo se os teus sofrimentos fossem os maiores, não perde a serenidade do espírito e não deixa-te vencer pelo desconforto.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1487)

25 – “Conta-me tudo, revela-me todas as feridas do teu coração. Eu as curarei e o teu sofrimento tornar-se-á fonte da tua santificação.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1487)

26 – “A causa das tuas quedas depende do fato que contas demasiadamente contigo mesma e te apóias muito pouco em Mim.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1488)

27 – “Saiba que a força que tens para suportar os sofrimentos, deves à Santa Comunhão freqüente.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1487)

28 – “Quando é recitada o coroinha [da Misericórdia] junto aos agonizantes, me colocarei entre o Pai e alma agonizante não como justo Juiz, mas como Salvador Misericordioso.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1541)

29 – “Minha criança, a vida sobre esta terra é uma luta e uma grande luta pelo o Meu Reino, mas não temas, pois não estás só. Eu te sustento sempre.” (Jesus a Santa Faustina, V, 1488)

30 – “Ó Jesus, Misericórdia, abraça o mundo inteiro e estreita-o ao Teu Coração. Permiti à minha alma, ó Senhor, de repousar no mar da Tua insondável Misericórdia.” (Santa Faustina, II, 869)

Fonte:http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/smartsection/item.php?itemid=171

Liturgia Diária!!!

Quarta-feira, dia 12 de Novembro de 2008


S. Josafá Kuncevicz, monge, bispo, mártir, +1623



Comentário ao Evangelho do dia feito por
S. Bernardo : «Os outros nove, onde estão?»

Leituras

Tito 3,1-7.
Recorda-lhes que sejam submissos e obedientes aos governantes e
autoridades, que estejam prontos para qualquer boa obra,
que não digam mal de ninguém, nem sejam conflituosos, mas sejam afáveis,
mostrando sempre amabilidade para com todos os homens.
Pois também nós éramos outrora insensatos, rebeldes, extraviados, escravos
de toda a espécie de paixões e prazeres, vivendo na maldade e na inveja,
odiados e odiando-nos uns aos outros.
Mas, quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor
para com os homens,
Ele salvou-nos, não em virtude de obras de justiça que tivéssemos
praticado, mas da sua misericórdia, mediante um novo nascimento e renovação
do Espírito Santo,
que Ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador,

a fim de que, justificados pela sua graça, nos tornemos, segundo a nossa
esperança, herdeiros da vida eterna.


Salmos 23(22),1-3.3-4.5.6.
SENHOR é meu pastor: nada me falta.
Em verdes prados me faz descansar e conduz-me às águas refrescantes.
Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu
nome.
Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu
nome.
Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu
estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.
Preparas a mesa para mim à vista dos meus inimigos; ungiste com óleo a
minha cabeça; a minha taça transbordou.
Na verdade, a tua bondade e o teu amor hão-de acompanhar-me todos os dias
da minha vida, e habitarei na casa do SENHOR para todo o sempre.


Lucas 17,11-19.
Quando caminhava para Jerusalém, Jesus passou através da Samaria e da
Galileia.
Ao entrar numa aldeia, dez homens leprosos vieram ao seu encontro;
mantendo-se à distância,
gritaram, dizendo: «Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!»
Ao vê-los, disse-lhes: «Ide e mostrai-vos aos sacerdotes.» Ora, enquanto
iam a caminho, ficaram purificados.
Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta;
caiu aos pés de Jesus com a face em terra e agradeceu-lhe. Era um
samaritano.
Tomando a palavra, Jesus disse: «Não foram dez os que ficaram purificados?
Onde estão os outros nove?
Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?»
E disse-lhe: «Levanta-te e vai. A tua fé te salvou.»


Da Bíblia Sagrada



Comentário ao Evangelho do dia feito por

S. Bernardo (1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja
Sermões diversos, n.º 27

«Os outros nove, onde estão?»

Vemos, hoje em dia, muitas pessoas que rezam, mas, afinal, não as vemos a
voltar atrás para dar graças a Deus [...] «Não foram os dez curados? Onde
estão pois os outros nove?» Estais a lembrar-vos, penso eu, que foi nestes
termos que o Salvador se lamentou acerca da ingratidão dos outros nove
leprosos. Podemos ler que eles sabiam «rezar, suplicar e pedir», pois
tinham levantado a voz para exclamar: «Jesus, Filho de David, tende piedade
de nós». Mas faltou-lhes uma quarta coisa que o apóstolo Paulo reclama: «a
acção de graças» (1Tm2,1), porque não voltaram para dar graças a Deus.

Nos nossos dias é ainda frequente ver um considerável número de pessoas
pedir a Deus com insistência o que lhes falta, mas são em pequeno número as
que parecem ficar reconhecidas com os dons recebidos. Não há mal em pedir
com insistência, mas o que faz que Deus não nos atenda é considerar que nos
falta gratidão. Afinal, talvez seja até um acto de clemência da sua parte
recusar aos ingratos o que estes pedem, para que não venham a ser julgados
com rigor por causa da sua ingratidão [...]. É pois por misericórdia que
Deus retém por vezes a sua misericórdia [...]

Vede portanto como todos os que estão curados da lepra do mundo, quero
dizer, das desordens evidentes, não aproveitam a sua cura. Alguns, com
efeito, foram atingidos por uma chaga bem pior do que a lepra, tanto mais
perigosa por ser uma chaga mais interior. É por isso com razão que o Senhor
do mundo pergunta onde estão os outros nove leprosos, porque os pecadores
se afastam da salvação. É por isso que, depois de o primeiro homem ter
pecado, Deus lhe perguntou: «Onde estás?» (Gn 3,9).




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11 de nov de 2008

VIDA DE SÃO PAULO


Paulo nasceu entre o ano 5 e 10 da era cristã, em Tarso, capital da Cilícia, na Ásia Menor, cidade aberta às influências culturais e às trocas comerciais entre o Oriente e o Ocidente. Descende de uma família de judeus da diáspora, pertencente à tribo de Benjamim, que observava rigorosamente a religião dos seus pais, sem recusar os contactos com a vida e a cultura do Império Romano.

Os pais deram-lhe o nome de Saul (nome do primeiro rei dos judeus) e o apelido Paulo. O nome Saul passou para Saulo porque assim era este nome em grego. Mais tarde, a partir da sua primeira viagem missionária no mundo greco-romano, Paulo usa exclusivamente o sobrenome latino Paulus.

Recebeu a sua primeira educação religiosa em Tarso tendo por base o Pentateuco e a lei de Moisés. A partir do ano 25 d.C. vai para Jerusalém onde frequenta as aulas de Gamaliel, mestre de grande prestígio, aprofundando com ele o conhecimento do Pentateuco escrito e oral.

Aprende a falar e a escrever aramaico, hebraico, grego e latim. Pode falar publicamente em grego ao tribuno romano, em hebraico à multidão em Jerusalém (Act 21,37.40) e catequizar hebreus, gregos e romanos.

Paulo é chamado “o Apóstolo” por ter sido o maior anunciador do cristianismo depois de Cristo. Entre as grandes figuras do cristianismo nascente, a seguir a Cristo, Paulo é de facto a personalidade mais importante que conhecemos. É uma das pessoas mais interessantes e modernas de toda a literatura grega, e a sua Carta aos Coríntios é das obras mais significativas da humanidade.

Escreveu 13 cartas às igrejas por ele fundadas: cartas grandes: duas aos tessalonicenses; duas aos coríntios; aos gálatas; aos romanos. Da prisão: aos filipenses; bilhete a Filémon; aos colossenses; aos efésios. Pastorais: duas a Timóteo e uma a Tito.

Quando estava preso em Cesareia, Pau-lo apela para César e o governador Festo envia-o para Roma, aonde chegou na Primavera do ano 61. Viveu dois anos em Roma em prisão domiciliária. Sofreu o martírio no ano 67, no final do reinado de Nero, na Via Ostiense, a 5 quilómetros dos muros de Roma.

A conversão

Chamado por Deus

O Pentateuco - Lei de Deus

A salvação vem de Deus

Jesus Cristo para Paulo

O centro da pregação de Paulo


Fonte: Palavra da Verdade

Ano Paulino: Expectativas


O Ano Paulino chegou em hora oportuna. Poderá projetar a “primavera da Igreja” neste inicio de milênio. Reforçará o Ano Catequético, iluminará o sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e missão da Igreja, impulsionará a recepção do Documento de Aparecida. Vejamos então algumas expectativas referentes ao Ano Paulino.

Um convite à conversão. Paulo faz uma experiência viva, decisiva e persuasiva de encontro com Cristo. Sua conversão emerge da fascinação por Cristo experimentada na estrada de Damasco. O perseguidor passa agora a ser perseguido. Deus já o perseguia há tempo. Saulo, judeu de Tarso, fiel praticante do farisaísmo converte-se em discípulo apaixonado de Jesus Cristo seu “bem supremo”. Ele foi “conquistado por Jesus” (Fl 3, 12) e de agora em diante dirá: “É Cristo que vive em mim” (Gl 2,21). Paulo é vaso de eleição, doutor da graça, apóstolo por ordem de Deus, que o vinha perseguindo, até rendê-lo pela “forte luz do céu”. Ano Paulino é ano de conversão.

Um salto missionário. A Igreja precisa de uma “forte comoção”, de um salto, uma reviravolta, diz o Documento de Aparecida. O Ano Paulino nos oferece essa chance. Paulo, missionário itinerante, incansável, cheio de audácia, criatividade e ímpeto evangelizador, prega a Palavra e insiste, tanto nos centros urbanos como nas periferias. Vai além fronteiras, é apostolo dos gentios e das nações. Paulo tem coração ardente, inteligência lúcida, é um pedagogo e estrategista, um operário intrépido e valente. Nem as doenças, nem as cadeias entravam sua audácia missionária. O Ano Paulino é um ano que vem dar impulso, motivação e um “salto missionário” para a Igreja em estado permanente de missão.

Uma oportunidade para a Lectio Divina. Não há melhor caminho para conhecermos a mensagem paulina que uma forte experiência, um real ensino da Leitura Orante dos textos paulinos. Sem a Lectio Divina, o Ano Paulino será mais uma teoria, uma doutrina, do que um encontro, um acontecimento, uma experiência. A Lectio Divina nos enriquecerá com a alegria, a gratidão, o amor, até às dores de parto que marcaram a personalidade de Paulo. Agora é a hora de sermos as “cartas vivas” como também “o perfume de Cristo”, graças à Leitura Orante das cartas paulinas e dos Atos dos Apóstolos. O Ano Paulino para ser verdadeiro e eficaz, deve nos levar a Leitura Orante da Bíblia.

Um relançamento da Iniciação Cristã. A vida de Paulo é uma trajetória que contem todos os elementos da iniciação cristã: encontro com Cristo, conversão que brota da fascinação do encontro, inserção na vida da comunidade, conhecimento bíblico e doutrinal sempre em processo de crescimento e decisão pela vida missionária. Paulo é um fundador de comunidades, verdadeiro protetor dos grupos de reflexão, da Igreja nas casas. Ele mesmo fez a trajetória da iniciação cristã a partir da qual o que vale é a “nova criatura” (Gl 6,15) e a missão com desassombro (cf. At 9,26). O Ano Paulino ajudará para um relançamento da iniciação cristã na catequese e na vida da Igreja.

Um reavivamento da ética cristã. A ética cristã em Paulo é uma resposta ao amor fiel, eterno e imensurável do Pai, revelado em Jesus. É a ética do seguimento de Jesus, ética do discipulado, da vida no Espírito e não na carne. Temos em Paulo uma decidida ética sexual, matrimonial, familiar e social. “A fé sem obras é morta” (Tg 2,20) e “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) Nossa cultura voltou ao paganismo pela idolatria, imoralidade, consumismo e individualismo. O Ano Paulino é um reavivamento da ética cristã.

Um aprofundamento da teologia da Cruz. Paulo completa em seu sofrimento o que falta à cruz de Cristo (cf. Cl 1,24). A “ciência da cruz” tem em Paulo um discípulo fiel. Apedrejado, flagelado, prisioneiro, marcado para morrer, doente, com lágrimas nos olhos e as marcas de Cristo em seu corpo, Paulo, sofre com o espinho na carne. È perseguido e fugitivo. Escapa escondido num cesto (cf. At 9, 25). Passa por perigos no mar, nos rios, no deserto, nos naufrágios, além de ser incompreendido pelos irmãos de raça, pelos pagãos e pelos falsos irmãos.

Todo esse sofrimento se transforma em vigor, entusiasmo, desassombro e ímpeto missionário. Paulo é uma personalidade invejável que tem energia indomável, obstinação missionária, vontade férrea, ternura de mãe, calor humano, mística e oração. Os sofrimentos fizeram dele um mestre da teologia da cruz. O Ano Paulino tem tudo para fortalecer-nos na espiritualidade e mística da dor em favor da salvação dos irmãos, da glória de Deus, do testemunho dos mártires, da intrepidez missionária. Em Paulo quanto maior é o sofrimento, maior será a glória.

Uma chance para a catequese. Paulo é catequista, pregador, teólogo, pedagogo, estrategista. Catequiza nas cidades e periferias, nos templos e nas casas, prepara catequistas e pregadores, sabe inculturar a mensagem, sofre pela fidelidade à sã doutrina, corrige os erros, anima os catequistas, trabalha com seus colaboradores e ganha o pão com suas mãos. Muitas pessoas marcaram a vida catequética de Paulo: Estêvão, Ananias, Barnabé, Eunice, Loide, Timóteo, Febe, Pedro, Tiago, João, Áquila, Priscila, Lídia e tantas outras. Paulo catequiza com sua vida, sofrimentos, escritos e na cadeia escreve livros de catequese. É um catequista convertido, discípulo, perseguido, prisioneiro, viajante, sofredor, orante, místico, teólogo. Enfrenta o paganismo e o judaísmo para implantar o cristianismo. Faz-se tudo para todos. O Ano Paulino consolidará o Ano Catequético e toda a catequese que é o sangue do Corpo de Cristo, a Igreja.

Dom Orlando Brandes

Arcebispo de Londrina-PR


"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12