22 de abr de 2009

Amizade Santa Sé-Israel ajuda árabes, cristãos e muçulmanos


Entrevista com o patriarca latino de Jerusalém, Sua Beatitude Fouad Twal


JERUSALÉM, segunda-feira, 20 de abril de 2009 (ZENIT.org).- Poucas semanas antes da visita de Bento XVI à Terra Santa, o patriarca latino de Jerusalém, Sua Beatitude Fouad Twal, oferece à Custódia Franciscana da Terra Santa novas chaves para compreender o objetivo do Papa.

– Beatitude, a peregrinação do Papa Bento XVI acontece em um momento difícil para o país, e os próprios cristãos palestinos manifestaram, mais que ninguém, seu cepticismo, ou melhor dito, sua incompreensão por esta escolha. O que pode dizer-lhes?

– Sua Beatitude Twal: É verdade que a comunidade cristã local, palestina, expressou e nos manifestou sua contrariedade, suas questões e seus temores. Também nós, que tivemos conhecimento antes deles do projeto de Sua Santidade, interrogamo-nos sobre a oportunidade desta viagem. O fato de que o Santo Padre venha em um momento difícil a uma região difícil, para encontrar-se com um povo extremamente sensível, fez-nos refletir. Consultamos os organizadores, o próprio Santo Padre e, aqui em Jerusalém, os nossos irmãos no episcopado da Assembléia de Ordinários Católicos da Terra Santa, os quais tinham as mesmas inquietudes que a comunidade cristã local. Mas, após nosso intercâmbio, tendo constatado que o programa da peregrinação estava muito equilibrado em seus momentos dedicados à Jordânia, Palestina e Israel, terminamos por reconhecer que esta viagem não podia trazer mais que bem, uma bênção para todos.

A ansiedade – ou talvez seria melhor dizer as angústias – que mencionou são, de certo modo, legítimas, mas quero sublinhar o fato de que foram, e em muitos casos continuam sendo, vividas em primeira pessoa pelos árabes cristãos que vivem nos Territórios e em Jerusalém. A realidade dos cristãos israelenses e a dos cristãos jordanos é totalmente diferente. Eles veem a visita do Papa sob outro prisma. Em uma diocese que vive realidades tão diferentes, devemos nos esforçar por ter uma visão mais ampla desta visita e considerá-la em todas suas dimensões: a política, a social, a humana e a religiosa. Mas é inegável que estes três pontos permanecem: o Santo Padre virá em um momento difícil – sobretudo após a guerra de Gaza; a uma região difícil; para realizar uma visita a uma população muito sensível.

– Judeus, cristãos e muçulmanos... todos são «sensíveis»?

– Sua Beatitude Twal: Sim, cada um tem sua própria sensibilidade, seu próprio ponto de vista e neste momento todos se preparam para levar a melhor parte do que esta visita representa...

– Qual é o motivo mais profundo da vinda do Santo Padre neste momento? Poderia se dizer que ele escolheu o pior momento?

– Sua Beatitude Twal: Não, não. Após sua eleição como pontífice, o Papa Bento XVI sempre manifestou seu desejo de vir à Terra Santa como peregrino. Nossa assembléia de bispos o convidou, eu o convidei pessoalmente e ele recebeu também o convite por parte de diversas autoridades jordanas, israelenses e palestinas. Também faz muitos meses que se está preparando esta viagem. Neste tempo estourou a guerra de Gaza, e a temperatura do conflito está de novo subindo. O que fazer, então? Esperar um momento melhor? Mas se esta região não esteve nunca em paz! Esperar a que a questão palestina esteja resolvida? Temo que os próximos dois ou três pontífices passarão sem que esteja completamente resolvida.

É a mesma história do copo meio cheio ou meio vazio... Alguns dizem: «A situação é difícil, por isso é melhor que não venha». Outros, ao contrário, dizem: «A situação é difícil, por isso é melhor que venha». E esta é nossa posição. Nestes tempos difíceis, espero que o Santo Padre venha ajudar-nos a superá-los, a olhar com uma perspectiva mais ampla.

O Papa visitará todas as Igrejas, todas as populações que habitam a Terra Santa para animar-nos a permanecer fiéis à nossa missão, à nossa fé e ao nosso sentido de pertença a esta terra. E não nos esquecemos que vem em peregrinação. Imagine as consequências negativas para a indústria das peregrinações, que para nós é vital, se o próprio Papa tivesse medo de vir como peregrino! O que poderíamos dizer a todos aqueles peregrinos e turistas que acabariam cancelando sua visita? Como poderíamos inclusive animá-los a vir? Um último ponto. Recordo-lhes que o Santo Padre tem 82 anos e que manifestou seu desejo de vir como peregrino à Terra Santa. Uma peregrinação acrescentada a uma viagem apostólica é algo muito fatigoso. Hoje, o Santo Padre tem a força para enfrentá-lo.

– Mas os peregrinos e turistas não deveriam fazer discursos diante das autoridades civis...

– Sua Beatitude Twal: É verdade, mas os cristãos de todo o mundo que acompanharão a peregrinação do Pontífice não têm todos estes dados para fazer uma análise política. A maior parte deles se limitará a dizer: «Se o Papa não tem medo, por que deveríamos tê-lo nós?». Ao Papa peregrino, os cristãos locais dizem «Ahlan wa sahlan!», «Bem vindo!». Suas inquietudes se encontram simplesmente na pergunta: «O que dirá?», ou melhor dito: «O que se obrigará a dizer?».

– Efetivamente, Beatitude, a imprensa israelense e internacional interpreta esta viagem sobretudo como uma vontade de voltar a pacificar as relações entre a Igreja e o mundo judaico, de modo particular após o caso Williamson. O que inquieta os palestinos é o proveito que Israel possa tirar, como Estado...

– Sua Beatitude Twal: Compreendo, e sei que cada uma das partes tentará aproveitar-se ao máximo desta visita, tanto na Jordânia como em Israel e Palestina, e inclusive na Igreja local. Mais um motivo para que cada um de nós esteja o melhor preparado possível. Israel fará todo o possível para apresentar seu próprio país sob a melhor luz. Eu o entendo, estão em seu direito. Não nos cabe denunciar ou criticar o que os outros fazem. A nós compete trabalhar de modo que a visita seja o mais pastoral possível, e de fazer que nossos cristãos tenham a possibilidade de ver o Santo Padre, de rezar com ele e escutar sua mensagem de paz e justiça para todos. Se consideramos todas as mensagens que a Santa Sé publicou referentes à Terra Santa, ao Iraque e ao Oriente Médio, encontramo-nos frente a um capital imenso de discursos de apoio, de intervenções ricas de humanidade, de espírito cristão e de justiça. Não tenho dúvida alguma de que, durante sua visita à Terra Santa, o Santo Padre seguirá por esta direção. A nós, a Igreja local, cabe velar sobre o equilíbrio do programa: os lugares a visitar, as pessoas com as quais se encontrará, os discursos a pronunciar. Está em nós «estender uma mão ao Santo Padre». Ele está continuamente informado acerca de nossa situação, tanto em seus aspectos positivos como nos negativos. Conhece nossos meios, nossa ansiedade, mas também nossas esperanças e nossa alegria de recebê-lo, em estreita colaboração com todas as autoridades civis.

– O núncio apostólico disse que esta viagem não será política, ainda que se poderia dar uma leitura política...

– Sua Beatitude Twal: Neste país é impensável deixar de lado a dimensão política. O núncio tem razão quando insiste em dizer que se trata antes de mais nada de uma peregrinação. Mas não o escondamos, há também uma dimensão política evidente. Cada dia, cada gesto, cada encontro e visita, tudo terá uma conotação política. Aqui se respira política, nosso oxigênio é a política. O que é mais grave é que todos fazem política, sem deixar este trabalho a quem deveria: aos políticos e ao parlamento. Cada um acrescenta seu grão de areia, e isso não ajuda. Não se pode negar, portanto, que também esta peregrinação tem um aspecto político relevante.

– Podemos então esperar avanços no campo político e/ou novos passos nas relações entre a Santa Sé e o Estado de Israel?

– Sua Beatitude Twal: A Santa Sé deu sempre o primeiro passo, tomou sempre a iniciativa do diálogo e do encontro. Agora, neste período, apesar dos interrogantes e dos medos, o Santo Padre tem o valor de dar o primeiro passo, com a esperança de poder melhorar as relações entre a Santa Sé e o Estado de Israel. A esperança de que Israel, nesta ocasião favorável, faça ao menos um gesto de cortesia para avançar no processo de paz.

Quanto a este famoso acordo, sempre em discussão, para regular as relações entre a Santa Sé e Israel, haverá progressos, se dermos crédito aos especialistas.

– Todos os comunicados, há cinco anos a esta parte, anunciam progressos, mas não se conclui nada...

– Sua Beatitude Twal: É verdade, mas neste tempo, assim como no campo do processo de paz, as coisas avançam, ainda que estes progressos não sejam públicos. Para mim, neste período cheio de encontros e diálogo, a palavra chave é «confiança».

Mas também é verdade que serão necessários alguns gestos valiosos, que instalem realmente as bases para uma relação de confiança. É inegável que falta a confiança recíproca.

– Como já fez João Paulo II, que definiu os judeus como «nossos irmãos maiores na fé», o Papa Bento XVI sublinhará a relação natural entre os cristãos e o judaísmo. Mas, dado que tudo se politiza, isso corre o risco de ser interpretado como um apoio a Israel, como Estado. Não se corre o risco também assim de colocar os cristãos em dificuldades, tanto aqui como em todo o Oriente Médio?

Sua Beatitude Twal: É difícil encontrar o equilíbrio justo e mantê-lo. Dito isso, quanto mais amigo de Israel for o Vaticano, mais poderá valer-se desta amizade para fazer avançar a paz e a justiça. Se as tensões entre a Igreja Católica universal e Israel permanecem, afetam a todos, cristãos e árabes. Ao contrário, se Israel olhasse com confiança para a Santa Sé, se poderia, sobre a base desta relação de amizade, falar de verdade, de justiça e de paz. De fato, só com a linguagem da amizade se podem pronunciar palavras que, em boca de um inimigo, seriam rejeitadas.

Ser amigos e falar como tais só pode ser proveitoso para cada uma das partes: ao amigo, a Israel e a todos. Espero sinceramente que a amizade entre a Santa Sé e Israel seja recíproca.

Quero chamar vossa atenção sobre o fato de que a Santa Sé já mantém relações diplomáticas com quase todos os países árabes, e que tais relações são boas. A leitura dos discursos dos embaixadores árabes na Santa Sé mostra que também eles têm necessidade da Igreja: não só do Vaticano, mas da Igreja em cada parte do mundo na qual se encontra. É necessário ter esta visão global para compreender a situação da Santa Sé, este pequeno estado sustentado por todo o mundo católico, e não limitar-se a ver as coisas só a partir de um único ponto de vista, que pode deformar a visão de conjunto.

Quanto maior for a relação de amizade com Israel, mais poderá intervir a favor de todos os habitantes da Terra Santa: judeus, muçulmanos e cristãos. Este é o nosso maior desejo.

[Por Marie-Armelle Beaulieu]

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