15 de set de 2009

Santa Teresa, Mestra de Oração




"As melhores palavras sobre a oração serão mudas, ditas ao vento, se quem as pronuncia e quem as escuta não são, num ou noutro grau, orantes.”

Nada podemos saber, falar ou escutar da oração que não seja algo vivido ou experimentado. Em Teresa, mestra da oração, é estreita e forte a relação entre experiência e oração. As suas palavras não estão mudas, antes ecoam em nossos corações. É a partir de sua experiência que iremos refletir.

Falar de Santa Teresa d’Ávila é falar em uma amizade vivida e oferecida a quem sabia que a amava. Esse relacionamento é o desenvolvimento de um dom, de uma graça recebida do próprio Deus. É através deste trato de amizade que ela nos diz o que é ser amigo do Senhor e por onde andar para o ser.

Como um dos maiores orantes da história, encontramos em Teresa de Jesus as condições de todo o autêntico magistério: de receber a comunicação de Deus (experiência), de entender o quanto lhe era dado (entendimento da graça recebida) e, por fim, da faculdade de transmitir. Em seus escritos, dizia: “Uma mercê é dar o Senhor a mercê, outra entender qual é a mercê e qual a graça, e outra o sabê-la dizer e dar a compreender como é”. Percebemos assim que ela recebe, entende e comunica a graça. Por este motivo, é considerada Mestra da Oração.

Conta, narra cada momento e cada experiência. Mas não fala como algo de fora, e sim de sua relação com Deus. Um místico não fala sobre a oração. Ele narra a sua vida de diálogo com o Seu Amado. É uma autobiografia. Ele vai abrindo horizontes, derrubando barreiras. Não questiona, mas dá a solução. Incentiva. “Olhe como fez a mim. E se nela (oração) persevera.. tenho por certo que, por fim, o Senhor a levará a porto de salvação, como, ao que parece, me levou a mim”.

Sobre a experiência com Deus, ela diz que poderia escrever um livro grande. Com o conhecimento da graça que recebia, podia analisar e selecionar as que tinham um maior valor doutrinal. Quanto ao poder comunicativo, confessa sua completa incapacidade de transmiti-la e a inteira intervenção de Deus que tudo lhe inspirava. Escrevia porque Ele dava a inspiração. “...muitas coisas das que escrevo aqui não são da minha cabeça, senão que mas dizia este meu Mestre”.

Sua vida de oração foi determinada por grandes momentos: o encontro espontâneo com Deus, intercalando-se por um tempo de oração difícil e de relações tensas, e que se encerra em um encontro acalentador e plenificante. Aqui, Teresa se rende à perseguição de Deus.

Oração espontânea

Enraizado na verdade, com opção pelo permanente e eterno, este encontro surgiu de maneira natural em sua vida. Teresa de Jesus procurou definir sua vida através da oração. Preferia a solidão para poder estar diante do seu Deus, para poder rezar as suas devoções. Com o pronunciar: “para sempre, para sempre”, o Senhor imprimia em sua meninice o caminho da verdade.

Sem se dar conta, ela trilhou essa estrada antes mesmo de saber o que significava orar. Isto surge em momentos importantes de sua vida, definindo sua tomada de consciência e sua conversão. Foi uma história com os seus altos e baixos, com suas luzes e sombras, convertendo-se definitivamente à oração. Dessa experiência com Deus, partiam todos os seus momentos de bem, e para onde eles voltavam. Isto foi o centro de sua vida.

Teresa tudo traduzia por esses momentos oracionais. Era a oração-exercício e a oração-vida. Uma alimentava a outra. Uma envolvia e arrastava a outra.
Pouco se ouviu falar de uma Teresa mística que lutava pela oração convertida em exercício doloroso, verdadeiramente impraticável. Durante longos anos de sua vida, se transformou na dor mais profunda de sua existência.

Segundo sua autobiografia, a crise da adolescência levou-a ao internamento no mosteiro das Agostinianas. Recuperou-se logo da crise. Então, Teresa de Jesus voltou a fazer orações vocais. Já como religiosa da Encarnação e após leitura de bons livros, passou a procurar a solidão para orar. Nesse tempo, tinha necessidade desses momentos. Ela se determinou, então, por empenhar todas as suas forças para estar na presença de Deus, pois percebeu que isto era parte substancial de sua vida.

Mas o retorno ao exercício da oração não era o que a determinava difícil. As causas desta dificuldade foram a incapacidade de discorrer e a incoerência entre a vida e a oração.
Teresa experimentou a falta de persistência e estabilidade na oração. Era muito difícil para ela tirar conceitos, raciocinar e até mesmo discorrer. Achava que Deus não lhe tinha dado o talento de discorrer com o entendimento e nem de aproveitar da imaginação. Confessava, repetidamente, que eram muitos os pensamentos que a atormentavam. “Passei muitos anos por este trabalho de não poder sossegar o pensamento numa coisa”. Até mesmo em sua vida mística, sofria o incômodo da imaginação, insubordinada, louca, incontrolável. Mesmo com as distrações, ela motivou que não deixassem a oração, porque elas não seriam empecilho.

Encontrou na leitura uma forma de iniciar a sua oração. Muitas vezes abria um livro e nada mais era preciso. Em outros momentos as obras do Criador eram seu livro. Ela reconhecia que essas formas eram penosas, mas era o início de uma contemplação. “Se falta o emprego da vontade e o amor ter coisa presente em que se ocupe, fica a alma como sem arrimo nem exercício; causa grande pena e soledade e aridez e dão grandíssimo combate os pensamentos”.

A incoerência da vida era a outra dificuldade que afetava a essência de sua oração. Esta se reduzia então a momentos mais ou menos longos e mais ou menos intensos de trato amistoso com Deus. Quando se determinava a corresponder o amor com amor, não era constante. Suas determinações não eram suficientes e era necessário algo mais que isso. As exigências da amizade pediam doação total e um não pactuar com a mediocridade.

O mal vinha de não cortar a raiz das ocasiões. Nesse tempo, procurava ter oração e viver a seu bel-prazer. O seu exercício não era mais sustentado pela vida. A vida, agora, minava seu coração. Sentia medo de rezar e vergonha de se apresentar diante de Deus. Ela era tentada pelo demônio para não pretender ter amizade tão estreita com o Senhor. Precisava doar-se por completo a Deus. Porém, não voltou as costas ao amor ou mesmo deixou silenciar as vozes de exigência e doação completa. Teresa fazia oração, mas não vivia. Ela se apartava muitas vezes para rezar e ler muito. Por isto, exortava os seus discípulos, que queriam chegar a uma verdadeira e íntima união com Deus, a se empenharem na mudança de suas vidas.

Passou a viver um dilema: escolher Deus ou o mundo. Ou vivia uma oração que conquistasse sua vida, que a marcasse, em que ela fosse amiga do Senhor, ou uma vida sem tanto trato com Deus. Queria ser sincera: não era possível ser orante sem o ser. Sabia que não podia brincar com o Amado. Mas quando decidida a abandonar a oração, disse para si mesma que voltaria a ela quando fosse capaz de reconstruir a sua vida, quando já não mais existisse a divisão que acontecia dentro dela mesma. Abandonou, e esse foi o momento onde a vida espiritual de Teresa atingiu o nível mais baixo. “O tempo em que estive sem oração andava muito mais perdida a minha vida... Vida tão baixa de perfeição... A minha alma tão estragada”.

Foi assim que saiu do mosteiro para cuidar do pai doente. O abandono da oração foi o que fez desmoronar a vida espiritual de Teresa. Ela confessou: “este foi o mais terrível engano... julgo não ter passado perigo tão perigoso”. Não devemos nunca abandonar a vida de oração por mais ruim ou pecadores que sejamos. A vida ruim não nos deve levar a abandoná-la, mas, sim, a intensificá-la. “Quando cair... olhe, olhe por amor de Deus, não a engane o demônio levando-a a deixar a oração - como fez a mim - por falsa humildade”.

Ao recordar esses acontecimentos, já em sua vida mística, qualificou essa decisão como humildade tão soberba, falsa. Não vira que a verdadeira humildade se coloca sob a misericórdia de Deus e por isso tem esperança. Começa a ver o sentido entre oração e vida. Passa a ter uma visão clara e nítida que a sua essência é um trato de amizade. Empenha todo o seu ser agora à exigência de doação total, exigência radical de encontro das condições de Deus e do homem no amor. Orar não se reduzia a um exercício, e sim, mais vida. “Primeiro me cansei eu de o ofender, que Sua Majestade de me perdoar”.

Oração mística

Desde muito cedo, Teresa de Jesus experimentou oração mística, muito embora de forma passageira, esporádica e fugaz. Mas ela se torna habitual, definindo sua vida de uma maneira progressiva, em abundância e qualidade quando o seu encontro com Cristo endireita definitivamente a sua vida.

A oração mística é o desenvolvimento máximo da oração. Ela é a definição mais simples e perfeita. E assim passamos a perceber que ela não vem anular a outra, mas dar maior sentido à anterior.

Aos primeiros passos de Teresa na oração, era ela que procurava chegar a Cristo, alcançar a Sua pessoa, mesmo que nem sempre conseguisse. Na oração mística, acontece o contrário. O próprio Deus vem fazer-se vivo e irresistivelmente presente. Ativo. Revelador. Refazendo sua vida. Unificando-a. A oração infusa traz, e é em si mesma, uma experiência da presença viva de Deus.
É possível perceber três fases: a experiência de Deus, a experiência de Cristo e a experiência da Trindade.

A primeira leva Teresa de Jesus a ter uma consciência viva de que Deus está realmente presente nela. “Um sentimento de presença de Deus que de nenhuma maneira podia duvidar que estivesse dentro de mim e eu toda engolfada nele”. A segunda experiência era uma presença que a enamorava e libertava, levando-a ao mistério trinitário. Esse momento lhe foi oferecido como um livro vivo onde via as verdades. E a última era uma presença habitual, uma companhia suave.
O encontro do homem com a Pessoa Divina traz consigo, simultaneamente, a experiência do próprio interior. Nessa relação, é possível perceber o papel que se tem a desempenhar. Assim, a oração é o verdadeiro encontro de amizade, onde cada um vê e assume a sua função. Existe uma harmonia e integração.

Fazer oração era então se chegar a Ele, encerrar-se dentro de si com Ele. A sua forma, agora, era o momento de comunhão com o próprio Deus. Abandonou os recursos que usava anteriormente para entrar em contato com Cristo. “Eu por mim confesso que nunca soube o que era rezar com satisfação até que o Senhor me ensinou este modo; e sempre encontrei tanto proveito neste costume de me recolher dentro de mim...”

A base do amor esponsal é o caminho do trato de amizade com Deus. Não chegamos ao ápice sem antes passarmos pelas pedras. Nós que almejamos ser almas esposas de Cristo temos que dar passos. Precisamos conhecê-lo e nos deixar conhecer; declarar o nosso amor e atender as exigências do nosso Amado para chegarmos ao ato de profunda comunhão com Ele.

Fonte: site da comunidade católica shalon

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