30 de mar de 2010

Entrevista com Padre Paulo Ricardo - Tríduo Pascal



Padre Paulo Ricardo
Padre Paulo Ricardo

"No Tríduo Pascal o sentimento de uma única celebração é tal que fazemos o sinal da cruz no início da Missa do Lava-pés e só vamos torná-lo a fazer no final da Vigília Pascal"

Estamos na Semana Maior do Cristianismo e a Igreja nos convida para celebrarmos bem o mistério da nossa salvação: a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. “O Tríduo Pascal são os três dias fundamentais dos quais se deu o mistério da nossa salvação. Liturgicamente corresponde a uma única celebração, que percorre três dias”, afirma padre Paulo Ricardo, reitor do Seminário Cristo Rei da Arquidiocese de Cuiabá (MT), que explica, nesta entrevista, a dinâmica da celebração do Tríduo Pascal.

No Podcast abaixo você confere em áudio esta entrevista na íntegra



cancaonova.com: O ano litúrgico é igual ao ano civil? Qual a diferença? 


Padre Paulo: O ano litúrgico está todo centrado no ministério pascal. A Páscoa é uma festa que acontece todos os anos no domingo e as pessoas sempre se perguntam por que ela [Páscoa] sempre muda de data. É porque se trata de um cálculo feito a partir da primavera lá na terra de Jesus. Quando se inicia a primavera na terra onde Cristo viveu nós olhamos no calendário e procuramos a primeira lua cheia, no domingo seguinte é a Páscoa. É assim que se faz o cálculo dessa festa. Uma vez fixada a festa pascal, daí é que decorre o resto do ano litúrgico. Assim como os planetas giram ao redor do sol, o ano litúrgico gira ao redor da Páscoa, que é o foco da vida cristã.


cancaonova.com:Por que a Páscoa é a festa mais importante para a Igreja Católica e não o Natal, por exemplo?

Padre Paulo: Porque é na Páscoa que nós celebramos o grande mistério da nossa salvação. É evidente que não haveria Páscoa sem o Natal, não haveria redenção sem a encarnação, mas a Páscoa é a finalidade pela qual Jesus se encarnou. Na verdade, é a encarnação que está em função da Páscoa e não o contrário. Cristo se torna homem para descer até o pecado da humanidade. É sempre o mesmo fenômeno de descida, o mesmo dinamismo de descida. Como diria São Paulo, na Carta aos Filipenses no capítulo 2, é um esvaziamento. O Senhor desce e o apóstolo dos gentios descreve esse movimento dizendo: “Ele se fez servo, se esvaziou assumindo a figura de servo, se fez obediente até a morte. E uma morte na cruz”. Nós vemos que degraus vamos descendo, o Senhor se faz homem em forma de servo, obediente e morre na cruz. É o mecanismo de descida até os infernos dos nossos pecados, para, então, de lá nos resgatar para que possamos ir para Deus. São Paulo descreve essa saída do abismo da morte dizendo: “E por isso Deus o exaltou e deu a Ele o nome que está acima de qualquer nome para que todo o joelho se dobre e proclame para glória de Deus Pai que Jesus Cristo é o Senhor”. Este hino de Filipenses, capítulo 2, descreve esta dinâmica pascal, que é a nossa salvação. Portanto, Páscoa e reencarnação não são dois conceitos contraditórios, mas, na verdade, são a mesma dinâmica de descida de Cristo ao inferno do nosso pecado para dali nos resgatar e levar para Deus.
"A Páscoa é a finalidade pela qual Jesus se encarnou"
Foto: Wesley Almeida/CN


cancaonova.com: O senhor pode explicar um pouco sobre o Tríduo Pascal?

Padre Paulo: Se nós olharmos dentro da história, nos envolvimentos no ano litúrgico, o que havia inicialmente eram dois domingos, o Domingo da Paixão e o Domingo da Páscoa. É por isso que ainda hoje nós chamamos o Domingo de Ramos de Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, porque naquele domingo celebramos a Morte de Nosso Senhor Jesus. O Evangelho que é lido nesse dia é o Evangelho da Paixão, no domingo seguinte celebramos, então, a Ressurreição. São estes dois domingos que, inicialmente, eram o ciclo de celebração da passagem da morte para a vida, do pecado para a vida nova. Porém, as pessoas começaram, por devoção, a imitar, nas celebrações, a última semana de Jesus e foi sendo criada a ideia de Semana Santa. Durante essa semana nós temos o Tríduo Pascal, que são aqueles três dias nos quais se deram o mistério da nossa salvação e da nossa redenção.

Vamos aprender a contar o Tríduo Pascal:

Primeiro dia: Os judeus começavam as contagens dos dias a partir do aparecer da primeira estrela, ou seja, no pôr do sol quando aparece a primeira estrela, ali começou o dia. Isso quer dizer que, na quinta-feira à noite, quando apareceu a primeira estrela, Jesus estava no cenáculo celebrando a Eucaristia com os discípulos. A instituição da Eucaristia na quinta à noite, na verdade, não é na quinta, pois, de acordo com o comportamento do judeu, já estamos da sexta-feira. Ou seja, Jesus instituiu a Eucaristia no mesmo dia em que Ele morreu na cruz. Naquele mesmo dia em que Jesus a instituiu Ele morreu e foi sepultado na Sexta-feira [Santa]; este é o primeiro dia.

Segundo dia: O sábado, que é o grande dia do silêncio, é um dia alitúrgico por não existir nenhuma celebração para ser feita nesse dia. O sábado é o dia do silêncio, porque é o dia em que a pedra rolou sobre o túmulo. É então, quando o sol se põe no sábado à noite, ao aparecer da primeira estrela, que nós já estamos no Domingo de Páscoa, que é o terceiro dia. Então a Vigília Pascal é o momento em que nós celebramos a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ficou uma linguagem um pouco antiquada chamar o sábado de “Sábado de Aleluia”. Antes da reforma litúrgica, que foi realizada pelo Papa Pio XII, na década de 50, a Vigília Pascal era celebrada no sábado de manhã, por causa do escrúpulo que as pessoas tinham em função do jejum, pois havia uma lei afirmando que o jejum Eucarístico precisava ser guardado desde a meia-noite até a hora da comunhão. Então é evidente que se o jejum começava meia-noite seria muito difícil as pessoas celebrarem uma Santa Missa na noite do sábado, porque significariam quase 24 horas de espera sem comer nada. Por isso, a Missa era celebrada no sábado de manhã. Pio XII mudou esta lei e transferiu a Missa da Vigília Pascal para a noite entre o sábado e o domingo, que é a noite na qual Jesus ressuscitou, porque não tinha sentido nenhum fazer uma Vigília Pascal e entrar na igreja cantando: “Eis a luz de Cristo” em pleno sábado de manhã com o sol brilhando lá fora. Então foi uma reforma que veio em boa hora.

Este é o Tríduo Pascal, são estes três dias em que nós celebramos a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Estes três dias coincidem com esses três dias em que Cristo permaneceu no túmulo. No primeiro dia o Senhor institui a Eucaristia, morre na cruz e é sepultado. No segundo dia é o dia em que Ele fica completamente no túmulo. No terceiro dia é o dia em que Jesus ressuscita, Ele estava no túmulo, mas sai ressuscitado para a nossa salvação.

:.Confira a programação do Acampamento de Semana Santa

cancaonova.com: Poderíamos dizer então que o Tríduo constitui uma única celebração da Páscoa?

Padre Paulo: Sim. Liturgicamente o Tríduo Pascal é uma única celebração. É preciso também recordar uma outra realidade canônica: a Igreja pede que nós estejamos na Missa todos os domingos, portanto, a obrigação canônica de guardar os domingos e os dias santos é a obrigação de ir à Santa Missa no Domingo de Páscoa. É importante que os fiéis saibam que não existe obrigação canônica de ir à celebração da Sexta-feira Santa ou da Quinta-feira Santa, ou mesmo à celebração da Vigília Pascal. A obrigação canônica é de ir à Santa Missa no Domingo de Páscoa. Se você foi à Missa na Vigília Pascal o domingo está guardado, se você foi à Missa durante o período pascal o domingo está guardado. Essa é a realidade canônica.

Agora, a realidade litúrgica e espiritual diz que é muito importante participar das celebrações litúrgicas do Tríduo Pascal. Não é uma obrigação canônica, mas nós não fazemos somente aquilo que é obrigatório, nós aquilo que nos faz bem e é bom para nós. Nós iniciamos o Tríduo com a Missa de Quinta-feira Santa, a instituição da Eucaristia e de lava-pés, quando este [Tríduo] começa. É importante notar que fazemos o sinal da cruz no início da celebração da Quinta-feira Santa e só vamos fazer esse sinal outra vez no final da Santa Missa da Vigília Pascal, como se fosse realmente uma única celebração, que começou com o sinal da cruz na Quinta à noite e termina com esse sinal na Missa da Vigília na noite de Sábado para Domingo.

Neste intervalo de tempo, no missal, não está previsto nenhum sinal da cruz, porque a Missa de lava-pés termina em silêncio e sem bênção final. A celebração da adoração da santa cruz, na Sexta-feira Santa, começa e termina sem traçar o sinal da cruz. A Vigília Pascal, no Sábado à noite, começa sem o sinal da cruz e, então, somente no final desta [Vigília] é que se recebe a bênção pascal, a bênção do Ressuscitado. É interessante ver que existe uma grande harmonia nestas várias celebrações, estão todas ligadas umas com as outras. Estamos falando de celebrações litúrgicas, é evidente que existem celebrações paralitúrgicas e devocionais como as procissões do Senhor morto, as Vias-sacras, procissões do encontro em que a Virgem Maria se encontra com Jesus, que carrega a cruz, etc. Todas essas celebrações são celebrações paralitúrgicas e devocionais.

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