7 de abr de 2010

O Papel dos Leigos na Igreja Católica: a Exortação Apostólica ‘Christifideles Laici’ de 1987


(Notas de conferência proferida em São Paulo, em 30-11-03,
para universitários do Projeto Universidades Renovadas).
Pe. João Sérgio Cury Lauand
Passados 20 anos do Vaticano II, o Romano Pontífice quis voltar-se para um tema que teve destaque no Concílio e dedicou o Sínodo dos Bispos de 1987 ao estudo de aspectos relativos aos fiéis leigos. O documento pós-sinodal, a exortaçãoChristifideles Laiciapresenta temas dignos de estudo.
Dessa forma vai-se preenchendo uma lacuna de séculos na definição das atribuições dos leigos. Durante muito tempo, pouco ou nada se falou sobre isso. A título de exemplo, em seu conhecido livro sobre a História da Igreja, comentando os resultados do Concílio de Trento, Daniel-Rops afirma: “É de admirar que, entre tantas sessões, não tenha havido uma que traçasse o retrato do verdadeiro cristão leigo…como se tinham traçado os do bispo e do sacerdote”.
Logo no início, a Exortação que estamos considerando, afirma: “Ao longo dos seus trabalhos, o Sínodo fez constante referência ao Concílio Vaticano II, cuja doutrina sobre o laicato, à distância de vinte anos, se revelou de surpreendente atualidade e, por vezes, de alcance profético: essa doutrina é capaz de iluminar e de guiar as respostas que hoje devem dar-se aos novos problemas”. (n.2).
O Sínodo deu muitas graças pela atuação do Espírito Santo e por tantas iniciativas surgidas nesse período, que vão renovando a Igreja. Recordou por outro lado dois perigos: por um lado a tentação de que os leigos mostrem um interesse exclusivo pelos serviços e tarefas eclesiais, de forma a chegarem freqüentemente a uma abdicação prática das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, econômico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre fé e vida, entre a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas. Voltaremos a isto mais adiante.
O trabalho do Sínodo, em palavras do Papa, esteve voltado a indicar caminhos para que a ‘teoria’sobre o laicato se converta em praxe na Igreja. O documento indica algumas questões de particular relevância: “Entre esses problemas contam-se os que se referem aos ministérios e aos serviços eclesiais confiados ou que deverão confiar-se aos fiéis leigos, a difusão e o crescimento de novos «movimentos» ao lado de outras formas associativas de leigos, o lugar e a função da mulher tanto na Igreja como na sociedade”.
Ao final do Sínodo os participantes pediram ao Papa um documento conclusivo sobre os fieis leigos, que foi a origem da Exortação.
Vocação e missão dos leigos
Logo a seguir à introdução o Papa começa a falar com grande força da vocação e missão dos fiéis leigos: “Que escutem o chamamento de Cristo para trabalharem na Sua vinha”. O Romano Pontífice faz uma leitura da parábola descrita em Mateus 20, a dos trabalhadores na vinha. Fala da voz de Deus e recorda que essa voz ressoa na alma de cada um e nos acontecimentos, e que neste momento histórico –em todos – pede uma resposta generosa. Pede a coragem de encarar este nosso mundo, que agora está –em palavras do documento – , em certo sentido, pior que nos anos do Concílio.
Vê-se portanto um apelo em sentido inverso ao que gerou a vocação religiosa. Este último, que continua válido, foi no sentido de que os religiosos adotassem ocontemptus mundi, o abandono das preocupações do mundo, característico da sua vocação. Trata-se portanto de duas atitudes perfeitamente válidas – entrar de cheio no mundo ou afastar-se dele – , cabendo a cada um saber a que Deus lhe pede pessoalmente. Dessa forma fica respondida a pergunta sobre o local onde o leigo deve ser sal da terra e luz do mundo: no lugar que ocupa no mundo. Dentro do capítulo sobre a vocação e missão o Papa usa imagem muito bonita: são trabalhadores da vinha, mas são também a própria vinha.
Quanto à vocação individual –questão que cedo ou tarde todos se colocam – há um número próprio (58), recomendando a escuta pronta e dócil da Palavra de Deus e da Igreja, a oração filial e constante, a referência a uma sábia e amorosa direção espiritual, a leitura feita na fé dos dons e dos talentos recebidos, bem como das diversas situações sociais e históricas em que nos encontramos.
Quem são os leigos?
A quem se dirige o texto? O Papa diz que vai tentar uma formulação positiva. Implicitamente se reconhece que as anteriores eram algo negativas, quase como os ‘coitados’ que não são padres nem freiras. Recorda-se não somente que pertencem à Igreja mas que são a Igreja, vides radicadas em Cristo, e outras imagens. Mas é sobretudo nos efeitos do batismo que se deve encontrar sua essência: “só descobrindo a misteriosa riqueza que Deus dá ao cristão no santo Batismo é possível delinear a ‘figura’ do fiel leigo”. Nesta altura o documento refere-se a toda a força do batismo, com suas conseqüências: passar a ser filhos no Filho, formar um só corpo com Cristo e ser Templos vivos e santos do Espírito.
Os fiéis participam –ainda que de forma diferente que a dos presbíteros – do sacerdócio de Cristo. Os leigos possuem – não perdem! – a secularidade. Um fiel leigo tem características, modos de vida, etc., diferentes dos que têm os religiosos. É diferente seu modo de viver as virtudes. Sempre foi uma grande tentação, e um grande erro, identificar esses modos, de maneira a propor aos leigos as mesmas formas de viver as virtudes que se apresentam para os religiosos. Não pode ter as mesmas características a pobreza de um franciscano e a de um pai de família.
Panorama histórico
Este tema já foi abordado em muitos lugares e seria extenso tratar dele agora. Baste dizer que logo a seguir aos primeiros cristãos foi aparecendo na Igreja o chamado à vida religiosa, a princípio de forma espontânea, condensada depois nas diferentes regras (constituições) aprovadas pela Santa Sé.
Foi tomando diversas formas de acordo com a inspiração de Deus e as necessidades dos tempos. Em séculos sucessivos – em processo que não terminou – foram aparecendo, no Ocidente, os beneditinos, os frades mendicantes, os jesuítas, os clérigos regulares e tantos outros, sempre com a característica do afastamento do mundo, maior ou menor. Não houve um desenvolvimento paralelo de fórmulas para os leigos, até recentemente, com o Vaticano II e seus precursores.
Necessidade da vida interior
Na Exortação o Papa reitera a afirmação evangélica, tantas vezes esquecida na prática, de que todo apostolado fecundo deve apoiar-se na vida interior dos que pretendem efetuá-lo. O ramo não produz fruto se não estiver unido à videira, a Cristo. Todos os cristãos são chamados à santidade, à perfeição, a serem semelhantes ao Pai.
“Sobre a universal vocação à santidade, o Concílio Vaticano II teve palavras sobremaneira luminosas. Pode dizer-se que foi precisamente esta a primeira incumbência confiada a todos os filhos e filhas da Igreja por um Concílio que se quis para a renovação evangélica da vida cristã. Tal incumbência não é uma simples exortação moral, mas uma exigência do mistério da Igreja, que não se pode suprimir: a Igreja é a Vinha escolhida, por meio da qual as vides vivem e crescem com a mesma linfa santa e santificadora de Cristo; é o Corpo místico, cujos membros participam da mesma vida de santidade da Cabeça que é Cristo… Hoje como nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da renovação evangélica, acolhendo com generosidade o convite apostólico de «ser santos em todas as ações». O Sínodo extraordinário de 1985, a vinte anos do encerramento do Concílio, insistiu com oportunidade sobre essa urgência: «Sendo a Igreja em Cristo um mistério, ela deve ser vista como sinal e instrumento de santidade… Os santos e santas foram sempre fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis em toda a história da Igreja. Hoje temos muitíssima falta de santos, que devemos pedir com assiduidade». Todos na Igreja, precisamente porque são seus membros, recebem e, por conseguinte, partilham a comum vocação à santidade. A título pleno, sem diferença alguma dos outros membros da Igreja, a essa vocação são chamados os fiéis leigos: «Todos os fiéis, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade»; «Todos os fiéis são convidados e têm por obrigação tender à santidade e à perfeição do próprio estado». A vocação à santidade mergulha as suas raízes no Batismo e volta a ser proposta pelos vários sacramentos, sobretudo pelo da Eucaristia: revestidos de Jesus Cristo e impregnados do Seu Espírito, os cristãos são «santos» e, por isso, são habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na santidade de todo o seu operar. O apóstolo Paulo não se cansa de advertir todos os cristãos para que vivam «como convém a santos»  (Ef 5, 3).
A vida segundo o Espírito, cujo fruto é a santificação (Rom 6, 22; cf. Gal 5, 22), suscita e exige de todos e de cada um dos batizados o seguimento e imitação de Jesus Cristo, no acolhimento das Suas Bem-aventuranças, na escuta e meditação da Palavra de Deus, na consciente e ativa participação na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor em todas as circunstancias da vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os pequeninos, os pobres e os doentes.”
Como se vê pelo longo texto que reproduzimos, o fundamento da exigência de perfeição é o próprio batismo, afetando portanto todos os que receberam esse sacramento.
Já foi dito que um dos motivos para João Paulo II promover tantas beatificações e canonizações é mostrar que a santidade é algo atual, possível, acessível.
Ação de Deus e do homem
Aqui se coloca uma questão prática interessante. Até que ponto devo atuar, ou abandonar a iniciativa nas mãos de Deus. É o tema da graça. A graça move os corações, mas, ordinariamente, alguém precisa falar. “Quem enviarei?” pergunta Nosso Senhor pela boca do profeta pensando na transmissão da sua doutrina.
Trata-se de tema muito comentado, mas nem sempre as soluções encontradas na realidade prática de cada um estão de acordo com a reta teologia. Sabe-se que mais de uma vez os Papas intervieram impondo silêncio aos dois lados, quando os ânimos ficavam exaltados. Sobre uma dessas ocasiões, comenta Daniel-Rops: “Vinte anos de discussões não serão suficientes para esgotar os argumentos dos dois campos nem para terminar num acordo”.
Um resumo rápido da solução poderia ser que cada um de nós procure fazer o que lhe corresponde –de verdade – e deixar para o Senhor aquilo a que não temos acesso. Remeto aqui a uma sugestiva observação do prof. Jean Lauand – falando precisamente a universitários católicos carismáticos num ENUCC – sobre a voz média.
As línguas antigas dispunham de uma fantástica terceira voz: a voz média. Emprega-se a voz média para ações que não se enquadram propriamente na voz ativa nem na voz passiva. Quer dizer que há ações que não são ativas nem passivas? É, é isto mesmo! O verbo nascer por exemplo não é ativo nem passivo: eu nasço ou sou nascido? Sim, certamente sou eu que nasço, mas não exerço ativamente esta ação; por isso o inglês fala do nascer na passiva: I was born in 1952…
O príncipe Paulinho da Viola trabalha muito com esse conceito de voz média; por exemplo, de sua canção “Timoneiro” é o maravilhoso verso:
“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar…”
“Não sou eu que me navega, quem me navega é o mar”. Seria tentar a Deus pedir-lhe que resolva problemas que eu posso solucionar: iluminar-me para que eu não necessite estudar, limitar-nos a rezar para que se solucionem os problemas de econômicos e sociais do país, etc.
Lembro-me, a propósito, de duas histórias que ouvi. Uma é a do homem que cuidava sacrificadamente de seu jardim quando passou uma senhora e candidamente comentou: “Que belo jardim! Que coisas bonitas Deus faz!”. Nosso amigo olhou bem para ela, enxugou o suor e disse: “A senhora precisava ver como era isto quando Ele cuidava sozinho!”.
A segunda é a do sacerdote que preparava só metade do seu sermão dominical e dizia que deixava a outra metade para o Espírito Santo. Certo domingo, quis conferir com o sacristão, como tinha saído sua prática. Este lhe disse: “Padre, a sua parte como sempre muito boa; a do Espírito Santo desta vez não foi aquelas coisas…!”.
Parece que a conclusão é clara. Como já se disse, sem transpiração não há muita inspiração. Para tirar boas notas é preciso estudar; para contratar um funcionário, mais do que consultar a Bíblia (excelente coisa para outros propósitos) será preferível comprovar seu currículo, fazer uma entrevista, etc.
Interesse exclusivo pelas tarefas eclesiais
Esse seria o primeiro erro, a que já nos referimos acima. Com freqüência ressurge a tentação de abandonar a procura de respostas para as dificuldades do dia a dia, ou a de  encontrar soluções ‘católicas’ para os problemas.
O Concílio Vaticano II definiu bem a autonomia das realidades terrenas: “Muitos dos nossos contemporâneos parecem temer que a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos homens, das sociedades e das ciências. Se por  autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios que o homem irá gradualmente descobrindo, utilizando e organizando, é perfeitamente legítima essa autonomia…e corresponde à vontade do Criador….Mas se com esse nome se entende que as coisas não dependem de Deus e que o homem pode dispor de tudo sem referência ao Criador, então todos os que acreditam em Deus compreendem como são falsas tais afirmações”.
É na seqüência desse texto da Gaudium et Spes que se situa uma sentença muito citada e que cada vez mais se revela profundamente sábia: “a criatura sem o seu Criador desaparece, não tem razão de ser”. É, portanto, mais um convite a não abandonar o mundo, a trabalhar com todos na procura de soluções justas para os problemas. Deve ter sido em parte em relação a isso que Cristo avisou que os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz. Um cristão está no mundo como em seu lugar próprio. Aí deve aprender a conviver com todos, a sofrer as dores de todos, a perseguir a resposta aos problemas que afetam seus semelhantes.
Separação entre fé e vida
Um cristão, como aliás toda pessoa, é chamado a manter a coerência entre aquilo em que acredita e sua vida. Não é possível separar nem em sua cabeça, nem em sua atuação as idéias da vida. O contrário seria vida dupla, hipocrisia, incoerência.
Ouvi contar, há tempos, uma história que se não é verdadeira, bem que poderia ser. Certo político, conhecido como católico, votou a favor de determinado tema contrariamente à doutrina da Igreja. Ao ser criticado por um bispo, protestou dizendo que votara como político e não como católico. O bispo lhe respondeu: “Pode ficar tranqüilo, eu não o critiquei como político e sim como católico!”.
Não se pode distinguir onde acaba o político e onde começa o católico, e isso vale para todas as ocupações e para todas as ocasiões. A fé e as convicções não são peças de vestuário, acessórios, que se possam utilizar ou não.
Estas foram algumas breves considerações sobre papel dos leigos na Igreja Católica de acordo com a Exortação Apostólica ‘Christifideles Laici’, um documento rico, claro, necessário.

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CEFAS, oriundo do nome de São Pedro apóstolo, significa também um Acróstico: Comunhão para Evangelização, Formação e Anúncio do Senhor. É um humilde projeto de evangelização através da internet, buscando levar formação católica doutrinal e espiritual.