5 de ago de 2010

Vida de Santo Antão – Parte 1



 Nascimento e educação de Antão (251-269)

Antão era egípcio de nascimento, filho de nobres riquíssimos. Eles mesmos cristãos, educaram-no cristãmente. Enquanto criança, foi criado com os pais, e não conheceu nada fora eles e a casa. Crescendo e avançando em idade, não quis aprender as letras, para evitar a companhia dos outros jovens. Todo seu desejo era, como está escrito de Jacó, viver somente em casa. Ia com os pais à casa do Senhor. Enquanto criança, não foi preguiçoso; avançando em idade, não desprezou (os pais), mas era-lhes submisso; atento às leituras, conservava interiormente seus frutos. Malgrado a fortuna bastante considerável dos pais, o menino não os importunava para ter alimentação abundante e variada, não procurava nela o prazer. Contente com o que era servido, não reclamava de nada.

Tornando-se órfão, despojou-se dos bens

Com a morte dos pais, ficou sozinho com uma irmã mais jovem. Entre os dezoito e vinte anos, assumiu a responsabilidade da casa e da irmã. Menos de seis meses depois do luto, indo à igreja, segundo seu costume, refletia consigo mesmo, meditava, caminhando, como os apóstolos deixaram tudo para seguir Cristo, como, segundo Atos dos Apóstolos, os fiéis vendiam seus bens e davam o dinheiro, colocando-o aos pés dos apóstolos, renunciando a eles em benefício dos necessitados; e quão grande esperança nos céus. Ocupado o coração com esses pensamentos, entrou na igreja. Ocorreu que se leu o evangelho, e ouviu o Senhor dizendo ao rico: “Se queres ser perfeito,vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres; vem e segue-me, terás um tesouro nos céus”(Mt 19,21). Antão, tendo recebido de Deus a lembrança dos santos, como se a leitura tivesse sido feita para ele, saiu logo da igreja. Os bens que recebeu dos pais, trezentos arures de excelente terra fértil, deu-os de presente às pessoas da aldeia, para não ser estorvado por eles, nem ele nem sua irmã. Vendeu todos os móveis e distribuiu aos pobres todo o dinheiro recebido, salvo pequena reserva para a irmã.

 Inícios na ascese (270)

Entrando na igreja outra vez, ouviu no evangelho o Senhor que dizia: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã”(Mt6,34). Não suportando mais, distribuiu aquela reserva aos pobres. Recomendou sua irmã a virgens conhecidas e fiéis, colocou-a numa casa de virgens para aí ser educada. Quanto a si, fez o aprendizado da ascese diante de  casa, atento a si mesmo e submetendo-se a rude disciplina. Não havia ainda no Egito mosteiros tão numerosos, e o monge não sabia absolutamente nada do grande deserto. Quem queria aplicar-se a si mesmo, exercitava-se não longe de sua aldeia. Vivia então na aldeia vizinha um ancião que desde a juventude levava uma vida solitária. Antão o viu e rivalizou com ele no bem. Antes de tudo, começou, também ele, a  habitar nos arredores da aldeia. De lá, quando ouvia falar de um zeloso, ia procurá-lo, como uma abelha diligente, e não retornava ao eremitério sem tê-lo visto; tendo recebido dele como que um viático, a fim de caminhar para a virtude, voltava. Assim,pois, no começo lá permaneceu e se fortificou em sua resolução de não retornar aos bens dos pais e de não mais lembrar dos parentes. Todo seu desejo, toda sua aplicação eram orientados para a faina ascetica. Trabalhava com as mãos, porque ouvira: “Quem não trabalhar, também não pode comer”(2Ts 3,10). Com parte de seu ganho, comprava pão; o resto distribuía aos necessitados. Orava continuamente, tendo aprendido que é necessário orar sem cessar em particular. Era tão atendo à leitura que nada lhe escapava das escrituras, e a memória lhe fazia as vezes de livros.

Instrui-se junto de outros ascetas e se esforça por imitar suas virtudes

Conduzindo-se assim, Antão era amado de todos. Submetia-se de bom grado aos zelosos (ascetas) que ia ver, e se instruía junto deles na virtude e na ascese próprias de cada um. Contemplava em um a amabilidade, em outro a assiduidade em orar; neste via a paciência, naquele a caridade para com o próximo; de um notava as vigílias, de outro a assiduidade à leitura, admirava a um pela constância, a outro pelos jejuns e pelo repouso na terra nua. Observava a mansidão de um e a grandeza de alma de outro; em todos notava, ao mesmo tempo, a devoação a Cristo e o amor mútuo. Assim satisfeito, voltava para o lugar onde se entrega à ascese, condensando e esforçando-se por exprimir em si mesmo as virtudes de todos. Dos contemporâneos não era invejoso senão num só ponto: não lhes ser inferior no melhor. Procedia de tal modo que a ninguém importunava, e todos sentiam alegria a seu respeito. Todos os habitantes da aldeia e as pessoas de bem que tinham relações com ele viam-no assim, chamavam-no de amigo de Deus, e amavam-no, uns como a um filho, outros como a um irmão.

O inferno faz de tudo para levá-lo a abandonar sua decisão

Mas o diabo, inimigo do bem e invejoso, não suporta ver semelhante propósito num jovem. O que maquinara contra ele começou a executar. Primeiramente, tentou fazê-lo abandonar a ascese, sugerindo-lhe a recordação dos bens, a responsabilidade pela irmã, suas relações familiares, o amor ao dinheiro, o desejo de glória, o prazer variado da comida, as outras satisfações da vida, enfim, a aspereza da virtude e as grandes fainas que ela requer. Em suma, despertou em seu espírito tempestade de pensamentos, querendo fazê-lo renunciar à reta eleição. Mas quando o inimigo se viu enfraquecido diante da resolução de Antão, vencido por sua constância, posto em fuga por sua grande fé e sucumbindo às suas orações contínuas, pôs sua confiança nas armas que estão in umbilico ventris ejus(Jô 40,11). (São suas primeiras ciladas contra os jovens): ele atacou o jovem, perturbando-o  noite e dia, e assediando-o de tal maneira que aqueles que o viam se apercebiam do cambate.  O diabo lhe sugeria pensamentos obscenos. Antão os repelia pela oração. O demônio o excitava. Ele, ruborizando-se, fortalecia o corpo com a fé, as orações e os jejuns. À noite, o diabo miserável chegava a tomar a forma de mulher e a lhe imitar os gestos, com o único fim de seduzir Antão, mas este, pondo Cristo no coração e meditando sobre a nobreza que vem Dele e sobre a espiritualidade da alma, apagava o tição dos embustes do demônio. Novamente o inimigo lhe sugeriu as doçuras da voluptuosidade, mas ele, cheio de cólera e de tristeza, pôs no coração a ameaça do fogo e tormento do verme. Graças a esse escudo, saiu incólume. Tudo concorria para a confusão do inimigo: ele, que pensou em fazer-se semelhante a Deus , agora era vencido por um jovem; ele, que despreza a carne e o sangue, era desbaratado por um homem de carne, ajudado pelo Senhor, que  se tornou carne por nós e dá ao corpo a vitória contra o diabo, o que faz todos  aqueles que lutam dizer: “Não eu, mas a graça de Deus que está comigo”. (I Cor 15,10) 

O demônio da impureza se confessa vencido

Enfim, o dragão, incapaz de abater Antão com esse meio, e vendo-se rejeitado de seu coração, rangia os dentes fora de si, como está escrito. Tal é espiritualmente, tal se mostrava sensivelmente,  aparentando-lhe sob as feições de menino negro. Caindo sobre ele, assaltava-o não mais com pensamentos (esse ardial fracassara), mas dizendo com voz humana: “Enganei a muitos, venci a maior parte, e eis que, atacando, como a muitos, a ti e a s tuas fainas, fracassei”. Antão o interrogou: “Quem és tu, que me dizes essas coisas? Esse respondeu logo, com voz lastimosa: “Sou o amigo da impureza, pela qual armei contra os jovens ciladas e excitações; chamam-me o espírito da fornicação. Enganei quantos queriam viver retamente; seduzi e fiz mudar de idéia, excitando-os, a quantos eram continentes. É por causa de mim que o profeta censura aqueles que caem: ‘Um espírito de prostituição vos desencaminhou’ (Os 4,12) . Foi por mim, com efeito, que foram aruinados. Fui eu quem muitas vezes te perturbou, e todas as vezes tu me puseste em fuga”. Antão deu graças ao Senhor, se encorajou contra o demônio e lhe disse: “Tu és verdadeiramente negro, e és fraco como um menino. Não tenho mais nenhuma preocupação a teu respeito. O Senhor é  meu socorro, desprezarei meus inimigos” (Sl 117,7). A essas palavras, o negro fugiu: ele temia a voz e receava até aproximar-se do jovem. 
Fonte: Livro Vida e Conduta de Santo Antão ( por Santo Atanásio)

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