10 de out de 2010

Não podemos confiar mais nas pesquisas

RETIRADO DO SITE DA REVISTA VEJA:


A eleição de 2010 tem um grande derrotado, vença Serra ou Dilma: as pesquisas de opinião. E nem me refiro especialmente ao resultado, embora todos os institutos tenham errado: uns mais, outros menos. Refiro-me à derrota desse importante instrumento de avaliação da opinião pública. E isso só aconteceu porque o ambiente foi tomado por vigaristas e negociantes — que não vendem um serviço, mas um resultado. As pessoas sérias envolvidas com essa atividade deveriam evitar a defesa corporativa da “categoria”. Os que erram de boa-fé devem procurar afinar seus instrumentos. Os malandros continuarão a fazer malandragens; são pagos para isso. Por isso mesmo, os que procuram acertar — em vez de se acertar — devem evitar as más companhias.
Comecemos pelo óbvio: erraram, sim! Todos! Sem exceção! O Datafolha, mais perto da realidade, dava a Dilma 50% dos votos válidos no dia do pleito. Ela obteve 47,6% — fora da margem de erro. O Sensus via a candidata com 54,7% dos válidos. Para o Vox Populi, a petista estava 12 pontos à frente da soma dos adversários. No dia 29 de outubro, o Ibope atribuía a Dilma 55% dos votos válidos — 7,4 pontos a mais do que ela conseguiu. Os erros se repetiram em boa parte dos estados. Desse bola para os levantamentos, aquele que será, em números absolutos, o senador mais votado da história do Brasil —Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) — deveria ter entregado os pontos.
Vou insistir neste aspectos: embora o resultado não seja irrelevante, inaceitável mesmo foi  o comportamento de alguns “responsáveis” (?) pelos institutos, que resolveram posar de analistas políticos e videntes. Não se contentavam em passar adiante números que, como vimos, se mostraram errados: também faziam perorações a respeito e expeliam sentenças definitivas.
O mais animado deles, sem dúvida, é Marcos Coimbra, o manda-chuva do Vox Populi, instituto que chegou a agonizar e que renasceu com força no petismo. Ele trabalha para e com o PT, embora suas pesquisas e ele próprio sejam vistos em certas áreas, só em certas áreas, como isentos. Coimbra é colunista de uma revista petista e escreve também no Correio Braziliense — como “cientista social”, é claro…
No quarta passada, ele concedeu uma entrevista a um blog. Divirtam-se:
Pergunta - Marina Silva está crescendo sobre votos de Dilma Rousseff?
Coimbra - 
Não dá para dizer. Dilma cresceu tanto após o início do horário gratuito da propaganda eleitoral que roubou votos dos outros dois. Agora, esses votos estão, ao que parece, voltando para eles.
Quantos votos, de fato, Dilma precisa perder para que haja segundo turno?Nos dados de nosso tracking (corroborados por vários outros que temos de pesquisas desenvolvidas em paralelo), a vantagem dela para a soma dos outros estava em 12 pontos percentuais ontem. Se 6 pontos passassem dela para os outros, a eleição empataria e o prognóstico de vitória no primeiro turno seria impossível.  Como cada ponto equivale a mais ou menos 1,35 milhão de eleitores, isso seria igual a 8 milhões de eleitores (sem raciocinar com abstenções).
Marina Silva pode ultrapassar José Serra?É muito pouco provável, no conjunto do país. Possível em alguns lugares, como a região Norte e o DF. Talvez se consolide no Rio, onde ela já está na frente.
Qual o quadro que o senhor acha mais provável?Vitória de Dilma no primeiro turno.
Voltei
Está muito claro, não? Em quatro dias, seria preciso uma migração de oito milhões de eleitores. Concordo com Coimbra: isso não aconteceu! É que seus números estavam, para ser simpático, errados. O curioso é que sua entrevista, claramente passada por e-mail — nunca vi alguém falar entre parênteses — foi “concedida” a dezenas de blogs de esquerda, inclusive àqueles com financiamento estatal.
Um dos blogueiros da turma, o mais circense deles — é mentira que estejam pensando em usá-lo naquele número do canhão —,escreveu a propósito dessa entrevista:
“O responsável pela Vox Populi, Marcos Coimbra, deu corajosa entrevista (…). Coimbra diz o que o tracking da Vox diz há 28 dias: não mudou nada e a Dilma vence no primeiro turno. Ou seja, Coimbra desmoralizou a última ‘pesquisa’ do Datafalha. Faltam 5 dias para a eleição. Coimbra joga a credibilidade de seu passado profissional e a integridade de sua empresa nessa afirmação: Dilma venceria no primeiro turno.”
Como se nota, segundo tal raciocínio, a integridade se desintegrou.
O Sensus faz pesquisa para a CNT (Confederação Nacional dos Transportes), presidida pelo dublê de empresário e político Clésio Andrade. É aquele instituto que me encanta particularmente por sua precisão decimal. No dia 29, Dilma teria 54,7% dos votos; Serra, 29,5%, e Marina, 13,3%. A previsão não ficou para Ricardo Guedes, diretor técnico do instituto, mas para o “especialista” Clésio: “Num período de quatro dias, é muito difícil reverter essa vantagem”.
Anteontem, o Ibope divulgou uma pesquisa: 51% dos válidos para Dilma, número reiterado na boca de urna realizada ontem. Ok, errou, paciência, certo? Mais ou menos. Carlos Augusto Montenegro, depois de fazer uma previsão temerária há alguns meses assegurando a vitória de Serra, passou a asseverar a vitória de Dilma no primeiro turno com a mesma convicção. E até chegou a sugerir que a oposição estava fazendo baixa exploração dos escândalos e não respeitava a democracia. São comportamentos inaceitáveis.
Pesquisas interferem no processo políticoPesquisas de opinião não são irrelevantes. Interferem no processo político: facilitam ou dificultam doações; facilitam ou dificultam a formação de palanques regionais; geram ondas de notícia positiva ou negativa; ajudam a plasmar a expectativa dos eleitores sobre o possível vitorioso etc. Tornam-se, pois, parte do jogo político.
O segundo turno está aí. Não pensem que os malandros desistiram de malandragens só porque foram flagrados. Ser flagrado é parte do seu ofício. está no preço. Sabem que os números que “apuram” acabarão divulgados de um modo ou de outro. Então que as pessoas eventualmente sérias envolvidas com essa atividade saibam fazer a diferença. Um bom caminho é não se sentir patrulhado por essa vizinhança incômoda, procurando ajustar os próprios números à metafísica influente da canalha.
Por Reinaldo Azevedo

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