6 de nov de 2010

O ANÚNCIO DO EVANGELHO


◊   Rio de Janeiro, 26 out (RV) - A exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi” do Santo Paulo VI, publicada na seqüência do Sínodo sobre a Evangelização, é um documento indispensável para compreender e realizar uma autêntica evangelização do mundo atual. Neste sentido, em momentos em que querem calar a voz dos cristãos, tentando proibir cidadãos brasileiros de exercer o direito de expressar as suas convicções que, além de atualizar os valores humanos, também são inspirados no Evangelho que ilumina a Vida, também defendendo a vida desde o ventre materno até o seu termo natural, queremos reafirmar que a missão da Igreja é evangelizar, propondo a todos uma boa notícia contando com a assistência do Espírito Santo de Deus, que é quem dirige a Igreja de Cristo.

Nesse documento destacam-se duas idéias basilares desta exortação, que são a relação íntima entre a evangelização e a vida do dia a dia e os laços profundos entre a evangelização e a promoção humana que para o Papa Paulo VI são de três ordens: antropológica (o homem que há de ser evangelizado não é um ser abstratos, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos); teológica (não se pode nunca dissociar o plano da criação do plano da redenção, um e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida e da justiça a ser restaurada) e evangélica (que é da ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover na justiça e na paz o verdadeiro e o autêntico progresso do homem?)

Pode-se dizer ainda que a evangelização implica em três aspectos essenciais: o primeiro é a renovação interior da humanidade: A finalidade da evangelização, portanto, é precisamente esta mudança interior; e se fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na potência divina da mensagem que proclama, ela procura propor a conversão ao mesmo tempo da consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios.

Já o segundo aspecto fala sobre a transformação dos critérios e estilos de vida: para a Igreja não se trata apenas de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação.

Por fim, o terceiro aspecto nos fala de uma conversão radical: importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem, numa verdadeira inculturação, pois o Evangelho e a evangelização, independentes em relação às culturas, não são necessariamente incompatíveis com elas, mas susceptíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas. Por isso, conclui Paulo VI, a ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi também de outras épocas. Isso foi muito bem apresentado no Documento de Aparecida quando recorda que a mudança de época atual é cultural.

O Papa Paulo VI apresenta nesse documento sobre a Evangelização os meios mais adequados ao apostolado: o testemunho de vida, o anúncio explícito feito de uma forma uma viva e atraente e a adesão vital numa comunidade eclesial. Note-se a prioridade dada ao testemunho, particularmente para a nossa juventude que procura a Igreja e o jeito de viver a fé particularmente à partir do testemunho de nossos evangelizadores. É famoso esse tema: os homens de hoje escutam muito mais as testemunhas que os mestres e, se escutam os mestres, é porque são testemunhas!

Assim sendo, a evangelização é um processo complexo em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e iniciativas de apostolado.

É, por isso, que as técnicas da evangelização são boas, obviamente; mas, ainda as mais aperfeiçoadas não poderiam substituir a ação discreta do Espírito Santo. A preparação mais apurada do evangelizador nada faz sem Ele. De igual modo, a dialética mais convincente, sem Ele, permanece impotente em relação ao espírito dos homens. E, ainda, os mais bem elaborados esquemas com base sociológica e psicológica, sem Ele, em breve se demonstram desprovidos de valor, porque o Espírito Santo é o agente principal da evangelização: é ele, efetivamente que impele para anunciar o Evangelho, como é Ele que no mais íntimo das consciências leva a aceitar a Palavra da salvação. Mas pode dizer-se igualmente que Ele é o termo da evangelização: de fato, somente Ele suscita a nova criação, a humanidade nova que a evangelização há de ter como objetivo.

Nestes atuais tempos é muito bom recordar esse documento conclusivo do Sínodo sobre a Evangelização e, com as realidades atuais, vivermos com o entusiasmo a nossa vida de discípulos missionários, para que em Cristo, todos tenham vida e a tenham em abundância! É muito importante neste mês e dia mundial das missões termos bem claro essa nossa missão e a sua importância para o mundo atual, pois as pessoas tem o direito de conhecer a Salvação e isso interessa a todos, e tem conseqüências na sociedade levando à verdadeira justiça e construindo a paz..

† Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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