28 de dez de 2010

Os Santos, o diabo e a cerveja...


Jesus deu início aos seus milagres transformando a água em vinho, e nao podia ser diferente num ambiente mediterrâneo.Difícil imaginar Jesus fornecendo cerveja aos convidados de um casamento na Galiléia. O vinho tem uma presença simbólica e ritual bastante importante na Igreja Católica e tem como principaissantos protetores Sao Vicente e Sao Amand. Contudo, nos países do Norte da Europa, onde é impossível cultivar a vinha e produzir vinho, esse constituía no passado uma preciosidade importada com certa dificuldade, reservada para a missa (e para a mesa dos ricos e poderosos), enquanto a cerveja era a bebida cotidiana para todos e de produçao fácil e barata.

Talvez seja por isso que há muitos santos católicos com alguma relaçao à cerveja. Há tantos santos considerados padroeiros da cerveja quanto países cervejeiros, e até mais; e nem sempre a conexao com a cerveja é muito clara. Entre eles, há até personagens de grande importância na historia da Igreja: Sao Lucas, um dos Evangelistas; Sao Agostinho de Hyppo (353-430), um dos Padres da Igreja e autor das Confessoes (na juventude ele fora um grande bebedor); e Sao Nicolas de Myra (que nos países anglo-saxoes se tornou popular ao ponto de transformarse no personagem de Santa Claus, isto é, Papai Noel). 




Durante os primeiros séculos do cristianismo nao havia um verdadeiro processo de canonizaçao, mas era a devoçao popular que transformava bispos, monges, mártires, virgens, eremitas e fazedores de milagres em objetos de culto e devoçao, muitas vezes só local e rs vezes universal. Esse processo aconteceu também com muitos abades e superioras de conventos e mosteiros.

A regra de Sao Benedito (480-547), por exemplo, pregava normas de comportamento muito rígidas para os monges da ordem: havia uma só refeiçao por dia. Por outro lado permitia-se que os monges consumissem 5 litros de cerveja por dia. Nos freqüentes jejuns, qualquer comida era proibida, mas a cerveja era permitida. Ela, portanto, representava uma forma importante de sustentaçao no meio das privaçoes e era tratada como "pão líquido", quase imprescindível.

Os mosteiros, já que funcionavam também como pousadas, os mosteiros vendiam para os viajantes a cerveja que produziam. A cerveja, dos monges era, certamente, a melhor da época. Por esse motivo ficaram conhecidos como santos da cerveja.

Em Glasgow, Sao Mungo fundou em 540 uma irmandade religiosa e uma pequena produçao de cerveja, considerada a primeira e mais antiga fábrica da Escócia. Neste país, Sao Cuthbert (636-687), bispo de Lindisfarne (o mosteiro onde foi realizada a Bíblia manuscrita com as miniaturas mais esplendorosas da história da arte), no fim da vida retirou-se em eremitagem na ilha deserta de Farne, onde esperou a morte vivendo só de cevada (a única planta que crescia na inóspita ilha) e bebendo cerveja.

Sao Patrício - hoje padroeiro da Irlanda - tinha, entre seus monges, tal Mescan, especializado na fabricaçao de cerveja para suprir as necessidades da comunidade. Na Irlanda, Santa Brígida (457-525), tomada de compaixao, rezou para transformar água suja em cerveja para alimentar os leprosos no leprosário que fundara.

Na abadia de Kildare que fundara como mosteiro para monjas, ela própria cuidava da produçao de cerveja que distribuía para todos na Páscoa. Sao Columbanus (543-615), outro santo irlandes, deixou uma prece que pode servir de modelo para qualquer amante da cerveja: ?Rogo para morrer na cervejaria; molhem meus lábios com cerveja enquanto eu expiro; assim, quando o coro dos anjos chegar, eles dirao:

"Deus seja propício a esse bebedor"

Na Alemanha, a beata Hildegard von Bingen (1098- 1179), abadessa beneditina, erudita e visionária, uma das mulheres mais notáveis de todos os tempos, foi a primeira a dar uma contribuiçao científica r técnica de acrescentar o lúpulo na fabricaçao da cerveja. No tratado Physica Sacra, ela afirmava: ?O lúpulo detém o apodrecimento e dá mais durabilidade r cerveja?.

Na Bélgica, o mais famoso padroeiro da cerveja é Gambrinus (provável transcriçao popular de Jan Primus, Joao Primeiro), rei das Flandres e do Brabante (1251-1294), que reclamava para si - abusivamente, é obvio - o título de ?inventor da cerveja?. Foi também o único rei a chegar ao ponto de definir-se ?rei dos cervejeiros? e ?rei cervejeiro?. A lenda concede-lhe outro mérito: teria sido ele o primeiro a levantar o copo para brindar desejando ?Prost!? (?Saúde!?), uma tradiçao que se tornou universal.

Talvez nao seja o suficiente para se tornar santo de verdade, mas já basta para que haja no mundo muitas cervejarias e beer cafés com seu nome. Na regiao do Norte da Europa sao cultuados Arnould, bispo de Metz (580-640), e Arnulph de Oudenaarde, considerados patronos dos cervejeiros nas Flandres.

O primeiro pregava aos camponeses a necessidade de beber cerveja, purificada pelo tratamento e fermentaçao, ao invés da água nem sempre limpa da época. Para demonstrar as propriedades benéficas da bebida durante um surto de peste, Arnould teria mergulhado um crucifixo num tonel de cerveja e exortado a populaçao a beber unicamente do recipiente ?consagrado?. Diz a lenda que a epidemia foi esconjurada.

O segundo era um guerreiro de uma ordem militar, que se converteu e tornou-se monge beneditino, fundando a abadia de Sao Pedro de Oudenburg - uma das primeiras a produzir cerveja. Outro história Arnold (ou Arnaud ou Arnould), bispo de Soissons na mesma época, tornou-se padroeiro dos cultivadores de lúpulo. Sua contribuiçao r história da cerveja foram uns canudos de palha em forma de cone que permitiam filtrar as muitas impurezas da cerveja da época. Ele teve a idéia fabricando cones de palha para apiários da abadia de Affligem (que ainda fabrica sua maravilhosa cerveja), e por isso é sempre representado cercado de abelhas.

Os babilônios, quatro milenios antes, já tinham pensado numa forma até mais sofisticada de canudo-filtro (o rei usava um canudo de ouro). Na Bavária, algumas das maiores cervejarias ainda carregam o nome de Augustiner, Franziskaner e Paulaner, testemunha de suas origens religiosas. Em outro grande país cervejeiro a República Checa, nao podia faltar um santo cervejeiro. Wenceslau, rei da Boemia no século 10, foi um grande protetor do Cristianismo sendo santificado pela Igreja, e da cerveja, sendo santificado pelo povo. Wenceslau II, no século 13, manteve a popularidade da dinastia obtendo do Papa a revogaçao de um edito que proibia a fabricaçao de cerveja na Boemia.

Alguns santos da cerveja nao parecem mesmo ter nenhuma relaçao aparente com a cerveja como é o caso de Sao Thomas A?Becket, bispo de Canterbury. Talvez foi escolhido como patrono da Brewers? Company, guilda dos cervejeiros de Londres, porque quando viajou para a França em 1158 para pedir a mao da princesa francesa da Borgonha para o rei Enrique da Inglaterra, levou, além de outros presentes, vários tonéis da cerveja ale de excelente qualidade fabricada nos mosteiros da cidade. 
É muito curioso como o diabo aparece com freqüência relacionada à cerveja, apesar de tantos santos. A cerveja deve ser mesmo uma das grandes tentações que o Maligno nos manda. É só ver a quantidade de rótulos de cerveja que trazem a imagem do Demo, do Cujo, do Tisnado, do Tinhoso, do Pai do Mal, do Arrenegado, como diria o Riobaldo, ou seu nome. Ao lado, confira uma listinha (provavelmente incompleta) das cervejas atuais cujo nome é relacionado ao Maligno:
Devil´s Brew
Diablo Gold
Lúcifer
666 Devil´s Pale Ale
Victory Hop Devil
Arctic Devil
Hop Devil
Devil Over a Barrel
Horny Devil
Duvel
Lá Biere Dú Demon
Duivels Bier
Düber Dukels Bier
Lobkowicz Demon
Devil´s Kiss
Fourche du Diable
Horny Devil
Maudite
Wychwood Devil
Red Devil Pale Ale
Devil´s Thumb Stout

Algo que os franceses, tao orgulhosos de seus maravilhosos Bourgogne, nao podiam competir. O mais absurdo é com certeza Sao Lourenço, bispo de Roma. Ele foi martirizado de forma terrível. Foi amarrado numa grelha de ferro e colocado em cima de brasas. Conta a lenda que ele ainda manteve serenidade suficiente para ironizar seus algozes, comentando: ?Acho que deste lado já estou ao ponto, podem virar para o outro lado?. A similitude do tratamento reservado a Sao Lourenço com o sistema de secagem do malte fez com que ele passasse a ser considerado padroeiro da guildados cervejeiros de Bamberg. Na Idade Média as analogias nao precisavam ser muito sutis.

Entre outros santos cuja história pessoal aparentemente em nada justifica o fato de serem considerados ?santos da cerveja? há um tal de Sao Veronus (ou Avronus), padroeiro da cidade belga de Lambic (que deu nome a um tipo de fabricaçao de cerveja, sem adiçao de fermentos). Esse nao aparece entre os santos oficiais da Igreja e do qual quase nada se sabe a seu respeito a nao ser as lendas.

ainda, Benno Scharl, um bávaro considerado um dos ?pais? da cervejaria moderna por seu tratado de técnica da cervejaria de 1802, descreve pela primeira vez cientificamente o processo lager. No entanto, nao era nenhum santo, mas sim jesuíta.

Por fim, a própria cerveja, no passado, podia ser santificada em certas festividades e cerimônias religiosas, como bebida sacramental e sacralizante, da mesma forma que o vinho na missa.

Entre os Khevsurs da Geórgia, por exemplo, a cerveja era ligada ao culto dos guerreiros mortos em combate. A cerveja sagrada era preparada segundo um ritual milenar. Havia nos templos uma sala especialmente reservada para a celebraçao (?darbazi?). A cada prece e oraçao para o herói morto o sacerdote bebia do cálice da bebida santificada. Aliás, os georgianos estao entre os raros povos da antiguidade que tomavam cerveja e vinho nas cerimônias e no dia-a-dia.

E o diabo?

Depois de séculos de celebraçao do uso da cerveja pelos santos, a associaçao com demônio e cerveja cresceu nos últimos tempos - especialmente com a Reforma protestante -, até se tornar uma associaçao natural. A própria Igreja católica também contribuiu retomando a mentalidade dos antigos romanos (para os quais a cerveja era para bárbaros, enquanto as pessoas civilizadas tomavam vinho), santificando o vinho e acabando por demonizar a cerveja. Mas há claramente algo mais profundo, ligado a um aspecto bacântico e excessivo, nao só da cerveja em si, mas também das culturas cervejeiras. 
Roberto Cattani

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