29 de set de 2011

Revelações de Deus Pai à Santa Catarina de Sena – 1ª Parte


Todos os sofrimentos que o homem suporta ou pode nesta vida são insuficientes para satisfazer pela menor culpa. Sendo Eu um bem infinito, a ofensa cometida contra Mim pede satisfação infinita. Desejo que o compreendas os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende. Assim, a satisfação se dá pelo amor, pelo arrependimento e pelo desprezo do pecado. Esse arrependimento é aceito em lugar da culpa e do reato (Pena devida a culpa do pecado), não pela virtude dos sofrimentos padecidos, mas pela infinitude do amor. Foi quando ensinou Paulo, ao afirmar: “Se eu falasse a língua dos anjos, adivinhasse o futuro, partilhasse os meus bens com os pobres, e entregasse meu corpo às chamas, mas não tivesse a caridade, tudo isso nada valeria”.
O glorioso apóstolo faz ver que os gestos finitos são insuficientes para punir ou satisfazer, sem a força da caridade. Como percebes, as mortificações são coisas finitas e como tais hão de ser praticadas. São meios, não finalidades. Filha, fiz-te ver que a culpa não é reparada neste mundo pelo sofrimento, suportados unicamente como sofrimento, mas sim pelos sofrimentos aceitos com amor, com desejo, com interna contrição. Não basta a força da mortificação; ocorre o anseio da alma. O mesmo acontece aliás com a caridade e qualquer outra virtude, que somente possuem valor e produzem a vida em Meu Filho Jesus Cristo crucificado, isto é, na medida em que a pessoa, d’Ele recebe o amor e virtuosamente segue as suas pegadas. Somente assim adquirem valor.
As mortificações satisfazem pela culpa na feliz comunhão do amor, adquirindo na contemplação da Minha bondade. Satisfazem graças à dor e à contrição quando praticadas no auto-conhecimento e na consciência das culpas pessoais. Este conhecimento de si gera desprezo pelo mal, pela sensualidade, induz o homem a julgar-se merecedor de castigos e indigno de recompensa. Assim, é pela contrição interior, pelo amor paciente e pela humildade, considerando-se merecedora de castigos e não de prêmios, que a pessoa oferece reparação. O caminho para atingir o conhecimento verdadeiro e a experiência do Meu Ser – Vida eterna que Sou – é este: nunca abandone o auto-conhecimento!
Ao desceres para o vale da humildade, reconhecer-Me-ás em ti, e de tal conhecimento receberás tudo aquilo de que necessitas. Nenhuma virtude tem valor sem a caridade, no entanto é a humildade que forma e nutre a caridade. Conhecendo-te, tu te humilharás ao perceber que, por ti mesma, nada és. Verás que o teu ser procede de Mim, que vos amei, a ti e aos outros, antes de virdes à existência. Além disso, quando quis recriar-vos na graça, com inefável amor, Eu vos lavei e vos concedi uma vida nova no Sangue do Meu Filho Unigênito; n’Aquele Sangue derramado num grande incêndio de amor. Para quem destrói em si o egoísmo, é no auto-conhecimento que tal Sangue manifesta a Verdade. Não existe outro meio. Por meio dele, o homem em inexprimível amor conhece-Me e sofre. Não com um sofrimento angustiante, aflitivo e árido, mas com uma dor que alimenta interiormente. Ao conhecer a verdade, a alma sofrerá terrivelmente, pois toma consciência dos próprios pecados e vê a cega ingratidão humana. Nenhuma dor sofreria, se não amasse.
Logo que tu e Meus servidores conhecerdes a Minha verdade, através daquele caminho, tereis que sofrer tribulações, ofensas e desprezos por palavras e ações, até a morte. Tudo isto, para glória e louvor do Meu nome. Sim, padecerás, sofrerás, tu e Meus servidores; portanto, armai-vos de muita paciência, arrependimento de vossos pecados e de amor à virtude, para glória e louvor de Meu nome. Agindo assim, aceitarei a reparação das culpas tuas e dos demais servidores. Pela força do amor e caridade, vossos sofrimentos serão suficientes para satisfação e reparação por vós mesmos e pelos demais.
Pessoalmente, recebereis o fruto da vida; serão canceladas as manchas dos vossos pecados; já não Me recordarei de que Me ofendestes. Quando aos outros, graças ao vosso amor, concederei o perdão em conformidade com as suas disposições. Por consideração aos pedidos dos Meus servidores, terei paciência com eles, iluminá-los-ei, suscitarei o remorso, farei que sintam o gosto pela virtude, que provem prazer na amizade de Meus servidores. Algumas vezes, permitirei que o mundo lhes mostre a sua face e experimentarão numerosas e diferentes impressões. Quero que percebam a instabilidade do mundo e elevem os seus desejos em direção à pátria eterna. Assim e com outros expedientes invisíveis aos olhos, inenarráveis para a língua e imperceptíveis ao coração – pois são inúmeros os caminhos e recursos que Me sirvo, unicamente por amor, Eu os convido à graça, desejoso que Minha verdade se realize neles. A tais pessoas, porém, não é dada a remissão do reato*.
Elas não se encontram pessoalmente dispostas a acolher, mediante uma caridade perfeita, o Meu amor e o amor dos Meus servidores. Eles não sentem dor nem contrição perfeita dos pecados cometidos; sua caridade e contrição são imperfeitas. Eis o motivo porque não alcançam a remissão da pena, como daqueles que falei antes, mas somente o perdão da culpa. Todos os pecados são cometidos através do próximo, no sentido de que eles são a ausência da caridade, que é a forma de todas as virtudes. No mesmo sentido, o egoísmo, que é a negação do amor pelo próximo, constitui-se razão e fundamento do todo mal. Ele é a raiz dos escândalos, do ódio, da maldade, dos prejuízos causados aos outros. Diante disto, o cristão luta e se opõe a sensualidade, com empenho a submete à razão e procura descobrir em si mesmo a grandeza de Minha bondade.
Inúmeros são os favores que lhe faço. Ao reconhecer que gratuitamente o retirei das trevas e o transferi para a verdadeira sabedoria, no auto-conhecimento ele se humilha. Assim consciente da Minha benevolência, o homem Me ama direta e indiretamente. Diretamente, não pensando em si mesmo ou em interesses pessoais; indiretamente através da prática da virtude. Toda virtude é concebida no íntimo do homem por amor a Mim; fora do ódio ao pecado e do amor à virtude, não existe maneira de Me agradar e de se chegar até Mim. Depois de ter concebido interiormente a virtude, a pessoa a pratica no próximo. Aliás, tal modo de agir é a única prova de que alguém possui realmente uma virtude. Quem Me ama, procura ser útil ao próximo.
Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por Mim, e pelo próximo são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto Me ama, pois de Mim se origina o amor do outro. O próximo, eis o meio que vos dei, para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para Mim, deveis ser de utilidade ao homem. Muitos são os dons, graças, virtudes e favores espirituais ou corporais, que concedi aos homens. Dei-os diversificadamente, isto é, não os coloquei todos em cada pessoa, para que fôsseis obrigados a vos auxiliar mutuamente. Poderia ter criado os indivíduos, dotanto-os de todo o necessário, seja na alma como no corpo; mas preferi que um necessitasse do outro, que fôsseis administradores Meus no uso das graças e benefícios recebidos.
Desta forma, querendo ou não, o homem haveria de praticar a caridade, muito embora não seja meritória a benevolência não realizada por Meu amor. Como vês, a fim de que os homens exercitassem o amor, fi-los Meus administradores e os coloquei em diferentes estados de vida, em diferentes posições. Isto vos mostra como existem muitas mansões em Minha casa, e como nada mais desejo que o amor. O amor por Mim se consuma no amor pelo próximo; quem ama o próximo já observou a Lei. Quem Me ama, pratica todo o bem possível, em seu estado de vida para o benefício dos outros. Qual árvore de muitos galhos, a caridade possui numerosos filhos. Como as árvores recebem a vida de suas raízes enterradas no solo, assim a caridade se nutre da humildade, e o discernimento é um dos filhos ou rebentos da caridade. Não existindo esse solo da humildade, o discernimento não seria verdadeiramente uma virtude nem produziria frutos de vida.
A humildade brota do auto-conhecimento e o discernimento, consiste num real conhecimento de si e de Mim, que faz o homem dar a cada um o que lhe pertence. O discernimento é uma luz que dissolve a escuridão, afasta a ignorância e alimenta as virtudes, bem como as ações externas que conduzem à virtude. O discernimento enfim, ao fundamentar-se no humilde auto-conhecimento, conduz à luta contra os pecados pessoais. A alma é uma árvore nascida para o amor; sem ele não vive. Privada do amor divino da caridade, não produz fruto de vida, mas de morte.
O cerne dessa árvore é a paciência. Esta virtude constituí o sinal externo de que Eu estou numa alma e ela em Mim. O que desejo do homem, como frutos de ação, é que prove suas virtudes na hora oportuna. ”Sou Aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações”. Só o amor produz e revela a virtude!
Do pecado original, que contraís através do pai e da mãe na concepção, restou-vos somente uma cicatriz. Ela é apagada, embora não completamente, pelo batismo, ao qual o Sangue de Cristo concedeu a virtude de infundir a vida da graça. Quando alguém é batizado, imediatamente cancela-se o pecado original e infundi-se a graça; a inclinação para o pecado, descrita antes como uma cicatriz, fica enfraquecida e submetida ao controle da pessoa. É assim, que pelo batismo o homem dispõe-se a receber e aumentar a graça de si mesmo.O resultado, para mais ou para menos, depende do seu esforço em servir-Me com amor e anseio.
Embora possuindo a graça batismal, a pessoa pode encaminhar-se livremente para o bem ou para o mal. É ao atingir o uso da razão que praticará o bem ou o mal, conforme ao livre arbítrio de sua vontade. Aliás, tão grande é a liberdade humana, e de tal modo ficou fortalecida pelo precioso Sangue de Cristo, que demônio ou criatura alguma, pode obrigar alguém à menor culpa, contra o seu parecer. Acabou-se a escravidão; o homem ficou livre. Agora, ele pode dominar a sensualidade, e chegar à meta para qual foi criado. Muito já Me devia a humanidade. Dera-lhe o ser, ao criar o homem a Minha imagem e semelhança. Então ele possuía a obrigação de dar-Me glória. Recusou-se a fazê-lo, glorificou-se a si mesmo, não aceitou a obediência por Mim imposta, tornou-se Meu inimigo. Então, com humilhação destruí sua soberba. Humilhei-Me (em Cristo), assumi vossa natureza, libertei-vos da escravidão do demônio, tornei-vos livre.
O tesouro do Sangue, pelo qual a humanidade foi recriada, ficou sendo uma dívida. Entendes pois, como depois da Redenção, o homem tem maior obrigação para Comigo. Devem-Me glória e louvor. Uma dívida de amor para Comigo e o próximo, que é paga quando as pessoas seguem as pegadas do Meu Filho Unigênito, Palavra Encarnada, mediante as práticas das virtudes interiores. Ninguém escapará de Minhas Mãos. ”Sou aquele que Sou” (Ex 3,14) e vós, vós não possuís a razão do próprio ser. Sois aquele que Eu fiz.
Criei tudo o que participa do ser; somente o pecado não procede de Mim, porque é negação. Por não estar em Mim, o pecado não merece amor. Quem o faz, ofende toda criação e odeia-Me. O homem tem obrigações de Me querer bem. Sou imensamente bom, dei-lhe o ser, numa chama de caridade. Todavia, os maus fogem de Mim. Mas, por justiça ou misericórdia, ninguém escapa das Minhas Mãos. Eis Meu plano: criar o homem à Minha imagem e semelhança para que alcançasse a vida eterna, participasse do Meu Ser, experimentasse Minha suma, eterna e doce bondade. O pecado veio impedir-lhe de atingir essa meta.
O homem deixava de realizar o Meu plano, pois a culpa lhe fechara o Céu e a porta da Minha misericórdia. O pecado fez germinar na humanidade espinhos e sofrimentos, tribulações numerosas, rebelião interna. Ao revoltar-se contra Mim o homem criava a rebelião dentro de si. Em conseqüência da perda do estado de inocência, a carne se revoltou contra o espírito. Imediatamente brotou um rio tempestuoso, cujas ondas continuam a açoitar a humanidade. São as misérias e males provenientes do próprio homem, do demônio e do mundo.Nele todos se afogavam; ninguém mais, graças a virtudes pessoais, atingia a vida eterna. Para remediar tantos males, construí a Ponte no Meu Filho, que permitiria a travessia do rio sem perigo de afogar-se.
O rio é o proceloso mar desta tenebrosa vida. Quero que contemples a Ponte de Meu Filho, que vejas sua grandiosidade. Ela se estende do céu à terra, pois nela a “terra” da vossa natureza humana está unida à divindade sublime, graças à encarnação que realizei no homem. Todos vós deveis passar por esta Ponte, louvando-Me através do trabalho pela salvação dos homens e tolerando muitas dificuldades, a exemplo do Meu doce e amoroso Verbo Encarnado. Não há outro modo de chegar até Mim.
Cada pessoa tem uma vinha, a vinha da própria alma. Nela trabalha com a vontade pessoal, livre, durante o tempo desta vida. Acabado este tempo nenhum outro trabalho será realizado, seja para o bem, seja para o mal. Começareis por purificar-vos com a contrição interior, desapegando-vos e desejando a virtude.
Sem esta predisposição, exigida na medida de vossas possibilidades como ramos unidos à Videira, que é Meu Filho (Jo 15,1). Nada recebereis. Dizia Meu Filho: “Eu sou a videira verdadeira e vós os ramos; Meu Pai é o agricultor” (Jo 15,5). Sim, Eu Sou o agricultor, de Mim se originam todos os seres. Tenho um poder incalculável, pelo qual governo o universo; nada Me escapa. Fui Eu o agricultor que plantou a verdadeira vinha, Cristo, no chão da humanidade, para que vós, unidos a Ele, possais frutificar. Quem não produzir ações santas e boas, será cortado da videira; e secará. Separado, perderá a vida da graça e irá para o fogo eterno. Sabes que os mandamentos da Lei se reduzem a dois sem eles, nenhum outro é observado.
São: amar-Me sobre todas as coisas e amar o próximo como a ti mesmo. Eis o começo, o meio e o fim dos mandamentos da lei. Todavia esses “dois” não se “reúnem” em Mim sem os “três”, isto é, sem a unificação das três faculdades da alma: A memória a inteligência e a vontade. A memória há de recordar-se dos Meus beneficies e da Minha bondade; a inteligência pensará no amor inefável revelado em Cristo, pois Ele se oferece como objeto de reflexão, para manifestar a chama do Meu amor; a vontade unindo-se às faculdades anteriores, Me amará e desejará como seu fim.
O coração humano, ao ser atraído pelo amor, leva consigo todas as faculdades da alma: Quando são harmonizadas e reunidas tais faculdades, todas as ações humanas – corporais ou espirituais – ficam-Me agradáveis, pois unem-se a Mim na caridade. Foi exatamente para isso que Meu Filho se elevou na cruz, trilhando o caminho do amor cruciante. Ao dizer, “Quando Eu for elevado, atrairei a Mim todas as coisas”, ele queria significar: quando o coração humano e as faculdades forem atraídas, todas as demais faculdades e suas ações o serão. É muita estreita a união dessas três faculdades. Quando uma delas Me ofende, as outras também o fazem. Como disse, uma apresenta à outra o bem ou o mal, conforme agrada ao livre arbítrio.
O livre arbítrio, se acha na vontade e a move como quer, em conformidade ou não com a razão. Possuis a razão, sempre unida a Mim, a menos que o livre arbítrio a afaste mediante o amor desordenado, e tende em vós uma lei perversa, que luta contra o espírito. Ensinou o apostolo Paulo em sua carta, C1 3,5, a mortificar o corpo e a destruir a vontade própria, ou seja, refrear o corpo mortificando a carne, quando ela se opõe ao espírito. Tendes, então, duas partes em vós mesmos: a sensualidade e a razão.
A sensualidade foi dada como servidora, a fim de que as virtudes sejam exercidas e provadas através do corpo. O homem é livre, já que Meu Filho o libertou com Seu Sangue. Ninguém pode dominar a pessoa humana quanto a vontade, pois ela possui o livre arbítrio. Este se identifica com a vontade, concorda com ela. Fica, pois, o livre arbítrio entre a sensualidade, e a razão, e inclina-se ora de um lado ora de outro, conforme preferir. Quando a pessoa tenta livremente reunir as três faculdades, memória, inteligência e vontade, em Mim, na maneira explicada, todas as atividades espirituais e corporais humanas ficam unificadas.
O livre arbítrio se afasta da sensualidade, tende para o lado da razão. Ninguém pode vir a Mim, senão por meio de Cristo. Esta a razão pela qual fiz d’Ele uma Ponte de três degraus. Esses três degraus representam os três estados espirituais do homem. O pavimento desta ponte é feito de pedras, a fim de que a chuva (da justiça divina) não retenha o caminhante. ”Pedras” são as virtudes verdadeiras e reais.
Antes da Paixão do Meu Filho, elas ainda não tinham sido assentadas, motivo pelo qual os antigos não atingiam o céu, mesmo que vivessem piedosamente. O Paraíso ainda não fora aberto com a chave do Sangue, e a chuva da justiça divina impedia a caminhada. Quando aquelas pedras foram assentadas no Corpo do Meu Filho – por Mim comparado a uma ponte – foram embebidas, amalgamadas, e assentadas com sangue. Em outras palavras: o sangue (humano) foi misturado com a cal da divindade e fortemente queimado no calor da caridade. Tais pedras foram postas em Cristo por Mim, mas é n’Ele que toda virtude é comprovada e vivificada.
Fora de Jesus ninguém possui a vida da graça. Ocorre estar n’Ele, trilhar suas estradas, viver Sua mensagem. Somente Ele faz crescer as virtudes, somente Ele as constrói como pedras vivas, cimentando-as com o próprio Sangue. Nele, todos os fiéis caminham na liberdade, sem o medo da justiça divina, pois vão cobertos pela misericórdia, descida do céu no dia da encarnação. Foi a chave do Sangue de Cristo que abriu o céu. Portanto, esta ponte é ladrilhada; e seu telhado é a misericórdia. Possui também uma despensa, constituída pela hierarquia da Santa Igreja, que conserva e distribui o Pão da Vida e o Sangue.
Assim, Minhas criaturas, viandantes e peregrinas, não fraquejam de cansaço na viagem. Para isto ordenei que vos fosse dado o Corpo e o Sangue do Meu Filho, Homem Deus. Disse Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; quem vai por Mim não caminha nas trevas, mas na luz” (Jo, 8,12). Quem vai por tal caminho é filho da verdade, atravessa a ponte e chega até Mim, verdade eterna, oceano de paz. Quem não trilha esse caminho, vai pela estrada inferior, no rio do pecado.
É uma estrada sem pedras, feita somente de água, inconsistente; por sobre ela ninguém vai sem afundar. É o caminho dos prazeres e das altas posições, daqueles cujo amor não repousa em Mim e nas virtudes, mas no apego desordenado ao que é humano e passageiro. Tais pessoas são como a água sempre a escorrer.À semelhança daquelas realidades, vão passando. Eles acham que são as coisas criadas, objeto de seu amor, que se vão; na realidade, também eles caminham continuamente em direção à morte. Bem que gostariam de deter-se, reter na vida as coisas que amam. Seriam felizes se as coisas não passassem. Perdem-nas todavia, seja por causa da morte, seja pelos acontecimentos com que faço, escapar-lhes das mão, os bens deste mundo. Com o retorno de Meu Filho ao céu, enviei o Mestre, o Espírito Santo.
Ele veio no Meu poder, na sabedoria do Filho, e na própria clemência. É uma só coisa Comigo e o Filho. Por sua vinda fortaleceu o Caminho – Mensagem deixado no mundo por Jesus. O Espírito Santo é qual mãe a nutrir no Divino Amor.  Ele liberta o homem, torna-o dono de si, isento da escravidão e do egoísmo.
A chama da Minha caridade (o Espírito Santo) não sobrevive junto ao egoísmo. Assim, todos os homens, recebem luzes para conhecer a verdade. Basta que cada um o queira, que não destrua a luz da razão, pelo egoísmo desordenado. A mensagem de Jesus é verdadeira e ficou no mundo qual pequena barca para retirar os pecadores do rio do pecado e conduzi-los ao porto da salvação. Primeiro, coloquei Meu Filho como Ponte – Pessoa, a conviver com os homens; após Sua morte, ficou a Ponte – Mensagem possuindo ela Meu poder, a sabedoria do Filho e o amor do Espírito.
O poder fortifica os caminhantes, a sabedoria ilumina e ajuda a reconhecer a Verdade, o Espírito Santo infunde o amor que aperfeiçoa, que destrói o egoísmo e conserva no homem o apego ao bem. O Verbo encarnado, Meu Filho único e ponte de glória, deu aos homens vida e grandeza. Eram escravos do demônio e Ele os libertou. Para que cumprisse tal missão, tornei-O servo; para cobrir a desobediência de Adão exigi que obedecesse; para confundir o orgulho, humilhou-se até a morte na cruz. Por Sua morte, destruiu o pecado. No intuito de livrar a humanidade da morte eterna, fez do Seu Corpo uma bigorna. No entanto os pecadores desprezam Seu Sangue, pisoteiam-No com um amor desordenado. Esta é a injustiça, este o julgamento falso a respeito do qual o mundo é e será repreendido até o dia do juízo final. Tal repreensão começou quando enviei o Espírito Santo sobre os apóstolos. São três as repreensões: a voz da Igreja, o Juízo Particular e o Juízo Final.

Deus Pai

No Juízo Particular, no instante final, quando a pessoa compreende que não pode fugir das Minhas Mãos recupera a visão que a atormenta interiormente fazendo-a ver que por própria culpa chegou a tão triste situação. Se o pecador se deixar iluminar e se arrepender, não por medo dos castigos infernais, mas por ter ofendido a Suma e Eterna Bondade, ainda será perdoado. Mas, se ultrapassar o momento da morte nas trevas, no remorso, sem esperança no Sangue, ou então, lamentando-se apenas pela infelicidade em que se acha – e não por ter Me ofendido – irá para a perdição. Sobrevirá pois, a repreensão pela injustiça e falso julgamento. Em primeiro lugar a repreensão da injustiça e do julgamento falso em geral, praticados no conjunto de suas ações, durante a vida; depois, em particular, do último instante quando o pecador considera seu pecado maior que a Minha misericórdia. Este é o pecado que não será perdoado, nem aqui nem no além. O desprezo voluntário da Minha misericórdia constitui pecado mais grave que todos os anteriores. Filha, tua linguagem é incapaz de descrever os sofrimentos desses infelizes condenados.
Sendo três os seus vícios principais – egoísmo, medo de perder a boa fama e orgulho – aos quais se acrescentam a injustiça, a maldade e impureza, no inferno os pecadores padecem de quatro tormentos principais.  O primeiro é a ausência da Minha visão. Um sofrimento tão grande que os condenados, se fosse possível, prefeririam sofrer o fogo vendo-Me, que ficar de fora dele sem Me ver. O segundo, como conseqüência, é o remorso que corrói o pecador privado de Mim, longe da conversação dos anjos, a conviver com os demônios. Aliás, a visão do diabo constitui o terceiro tormento. Ao vê-lo duplica-se o sofrer.
Nestes (demônios), eles se conhecem melhor, entendendo que por própria culpa mereceram o castigo. Assim o remorso os martiriza e jamais cessará o ardor da consciência. Muito grande é este tormento, porque o diabo é visto do próprio ser; tão horrível é a sua fealdade, que a mente humana não consegue imaginar.
Se ainda o recordas, já te mostrei o demônio assim como ele é; foi por um átimo de tempo. Quando retornastes ao sentido, preferias caminhar por uma estrada de fogo até o juízo final que tornar a vê-lo. No entanto, apesar do que viste ignoras a sua fealdade, especialmente porque, segundo a justiça divina, ele é visto mais ou menos horrível pelos condenados, segundo a gravidade das culpas. O quarto é o fogo. Um fogo que arde sem consumir, sem destruir o ser humano. É algo de imaterial, que não destrói a alma incorpórea. Na Minha justiça permito que tal fogo queime, faça padecer, aflija; mas não destrua. É ardente e fere de modo crudelíssimo em muitas maneiras, conforme a diversidade das culpas. A uns mais, a outros menos, segundo a gravidade dos pecados.
Destes quatro tormentos derivam os demais: o frio, o calor, o ranger de dentes (Mt, 22,13). Grande é o ódio dos condenados, pois já não amam o bem. Blasfemam continuamente contra Mim! Queres saber por que já não podem desejar o bem? É porque, no fim desta vida, vincula-se o livre arbítrio. Com o cessar do tempo, já não se merece mais. Quem termina esta existência em pecado mortal, por direito divino fica para sempre apegado ao ódio, obstinado no mal, a roer-se interiormente. Seus sofrimentos irão aumentando sempre, especialmente por causa das demais pessoas que por sua causa irão para a condenação. O homem justo (no mesmo Juízo) ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até Mim. Também será julgado na proporção do amor. Continuamente Me deseja, continuamente Me possuí; suas aspirações não caem no vazio. Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome.
Os bem-aventurados gozam da Minha eterna visão. Cada um no seu grau, de acordo com a caridade em que vieram participar de tudo o que possuo. Desfrutam na alegria e gozo – dos bens pessoais e comuns que mereceram. Colocados entre os anjos e santos com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. Entre si congraçados na caridade os bem-aventurados de modo especial comunicam-se com aqueles que amaram no mundo. Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem sua felicidade da mesma forma como ele participa do prazer de todos. Em seus anseios os eleitos clamam continuamente diante de Mim em favor do mundo inteiro. Suas vidas haviam terminado no amor fraterno; continuam no mesmo amor. Aliás, foi exatamente por tal caridade que passaram pela porta que é Meu Filho.
Por ocasião do Juízo Final, o Verbo encarnado virá com divina majestade para repreender o mundo. Não mais se apresentará pobrezinho na forma como nasceu da Virgem, na estrebaria, entre animais, para morrer depois no meio de ladrões. Naquela ocasião, ocultei n’Ele o Meu poder e permiti que suportasse penas e dores como homem. A natureza divina se unira a humana e foi enquanto homem que sofreu para reparar as vossas culpas. No juízo final, não será assim, pois virá com poder a fim de julgar. As criaturas humanas estremecerão e Ele a cada um dará sentença conforme merecimento. Tua língua não conseguirá exprimir o que se sucederá aos condenados. Para os bons, Jesus será motivo de temor santo e alegria imensa. Os bem-aventurados continuam no céu, eternamente, aquele mesmo amor com que encerraram a vida terrena. Eles em nada se distanciam de Mim. Seus desejos estão saciados.
Anseiam em ver-Me glorificado por vós viandantes e peregrinos que sois em direção à morte. Aspirando por Minha honra, querem vossa salvação e sempre rogam por vós; de Minha parte, escuto os seus pedidos naquilo em que vós, por maldade, não opondes resistência à Minha bondade. Os bem-aventurados desejam recuperar os seus corpos; todavia não sofrem por sua ausência. Até se alegram, na certeza de que tal aspiração será realizada. A ausência do corpo não lhes diminui o prazer, não é angustiante, não faz sofrer. Nem julgues que a satisfação de ter o corpo após a ressurreição lhes traga maior bem-aventurança.
Se isso fosse verdade, seria sinal que a felicidade anterior era imperfeita, enquanto não o reouvessem, e isso não pode ser. De fato, nenhuma perfeição lhes falta. Não é o corpo que faz feliz a alma, mas o contrário. Quando esta recupera o corpo no dia do juízo, participará ele da plenitude e da perfeição da alma. Naquele dia, esta se fixará para sempre em Mim, e o corpo em tal união, ficará imortal, sutil, leve. Deves saber que o corpo ressuscitado pode atravessar uma parede, que o fogo e a água não o ofendem. Tal propriedade lhe advém, não de uma virtude própria, mas por uma força que gratuitamente concedo à alma, que foi criada à Minha imagem e semelhança num inefável ato de amor. Tua inteligência não dispõe da capacidade necessária para entender, nem teus ouvidos para escutar, a língua para narrar e o coração para sentir qual é a felicidade dos santos.
Ocupei-Me da felicidade dos santos para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. Aliás, outro tormento destes últimos, é ver quanto os bem-aventurados são felizes. Tal conhecimento acresce-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar Minha bondade. A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno. Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. As escutar o terrível convite: ” mortui, venite ad judicium”, a alma retornará ao corpo.
Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus um corpo para sempre obscurecido. Diante do Meu Filho, sentirão grande vergonha. Também diante dos santos. O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. Acusá-los-ão: o Sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do Meu Filho, o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois Eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33).  Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos. No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem e do mal conforme a orientação da vontade. Todo bem e todo mal é feito através do corpo por este motivo, Minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em, seus corpos, usados para o pecado.
Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza, vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico – vossa natureza – colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo. Os condenados verão brilhar sobre os eleitos a liberalidade e a misericórdia, quais frutos do Sangue de Cristo; saberão das dificuldades suportadas pelos bons e que agora se mostram em seus corpos como frisos de adornos para as vestes. O valor de tais sofrimentos físicos não provém do corpo mas da riqueza da alma; é ela que dá o corpo o merecimento da luta como companheira da prática das virtudes. Tal exteriorização se verifica porque o corpo manifesta o resultado das batalhas das alma, como o espelho reflete a face do homem. Ao se verem privados de tamanha beleza, os habitantes das trevas verão surgir nos próprios corpos os sinais dos pecados e terão maiores tormentos e confusão. E ao soar aquela terrível sentença: “Ide, malditos, para o fogo eterno”.
Suas almas e corpos encaminhar-se-ão para a companhia de demônios, sem mais remédios nem esperança. Cada um a seu modo, se envolverá na podridão que viveu na terra, de acordo com as ações que praticou: o avarento arderá na sua ganância dos bens que desordenadamente amou; o maldoso, na sua ruindade; o impuro na imunda e infeliz concupiscência; o injusto nas suas iniqüidades; o rancoroso no seu ódio pelos outros. Quanto ao egoísmo fonte de todos os males arderá como princípio causador de tudo em sofrimentos insuportáveis. O orgulho terá igual sorte. Assim, corpo e alma serão punidos em todos os vícios.
Sirvo-Me do demônio qual instrumento da Minha justiça para atormentar os que Me ofendem. Nesta vida o coloquei qual tentador, molestando os homens.  Não para que estes sejam vencidos, mas para que conquistem a vitória e o prêmio pela comprovação das virtudes. Ninguém deve temer as possíveis lutas e tentações do demônio. Fortaleci os homens, dei-lhes energia para vontade, no Sangue de Cristo. Demônio ou criatura alguma conseguem dobrar a vontade. Ela vos pertence, é livre. Vós é que escolheis o querer ou não querer alguma coisa. Eu disse que o demônio convida os homens para a água-morta, a única que lhe pertence, cegando-os com prazeres e satisfações do mundo. Usa o anzol do prazer e fisga-os mediante a aparência de bem. Sabe ele que por outros caminhos nada conseguiria; sem o vislumbre de um bem ou satisfação, os homens não se deixam aprisionar; por sua própria natureza, a alma humana tende ao bem. Infelizmente, devido à cegueira do egoísmo, o homem não consegue discernir qual é o bem verdadeiro, realmente útil ao corpo e à alma. Percebendo isto, o demônio, maldoso, apresenta-lhe numerosos atrativos maus, disfarçados porém sob alguma utilidade ou prazer. A certeza da Minha presença em suas vidas, é o conhecimento da Minha verdade. Tal conhecimento se realiza na inteligência que é, o olho da alma; pupila de tal olho é a fé. Pela iluminação da fé, eles distinguem, conhecem e seguem a estrada mensagem do Verbo Encarnado. Sem a fé ninguém reconhece tal estrada, à semelhança daquele que possuísse o olho, mas coberto por um pano.
Sim, a pupila desse olhar é a fé; nada verá quem cobrir sua inteligência com o pano da infelicidade, por causa do egoísmo. Tal pessoa terá a inteligência, mas não a luz para conhecer. Como afirmei antes, ninguém consegue seguir o caminho da verdade sem a luz da razão – recebida de Mim com a inteligência – e sem a luz da fé, infundida na hora do santo batismo, supondo que não destruais esta última com vossos pecados.

Fonte: 

28 de set de 2011

Informativo Cléofas - 28/09/2011

Informativo Cléofas, 28 de setembro de 2011 - Ano VI - Número 189

Notícias do Site Cléofas

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Conheça também o documento da Igreja:

+ Carta Encíclica Laborem Exercens: Sobre o Trabalho Humano (Parte 3)

+ Carta Encíclica Laborem Exercens: Sobre o Trabalho Humano (Parte 4)

O programa Escola da Fé, é exibido toda quinta-feira às 20h40 na TV Canção Nova (Link)


Para Meditar...


Bíblia e Catequese

Estamos no mês da Bíblia e refletindo, de maneira especial, sobre a travessia do povo de Deus no deserto e o consequente encontro com Ele. Falamos hoje da animação bíblica de toda pastoral e do retorno da "lectio divina", ou leitura orante da Bíblia, em nossas reuniões de grupo e círculos bíblicos. Nesta semana a nossa Arquidiocese esteve reunida por Vicariatos nas Assembleias dos Círculos Bíblicos.

Também na catequese tivemos um bom trabalho para que o aprofundamento da fé tivesse como grande fonte a Palavra de Deus. A Iniciação Cristã nos trouxe a figura dos "introdutores" para a primeiraacolhida dos que chegam às nossas comunidades e que devem ser pessoas que transmitam a "palavra de Deus" pelo seu testemunho. Vivemos em tempos muito ricos e que supõem de cada um a aberturapara escutar o Senhor que nos fala.

Costuma-se dizer que a Bíblia é o principal livro da catequese, a mais importante fonte do processo de evangelização. Isso é fácil de entender, pois sabemos que a Bíblia é, para nós, Palavra de Deus. Se, na catequese, o que se pretende é ajudar o catequizando a realizar o seu encontro com Deus, fica clara a importância da Palavra de Deus por meio da qual se realiza esse encontro. A catequese é, sem dúvidacentrada na Palavra de Deus. O catequizando deve aprender a escutar a Bíblia e deve ser incentivado a vivenciá-la. Por meio da Palavra, Deus se comunica conosco e nós nos comunicamos com Ele.

É impossível compreender exatamente o que seja a catequese sem compreender profundamente a Palavra de Deus. O Diretório Nacional de Catequese nos fala que é preciso que a catequese seja alimentadae dirigida pela Sagrada Escritura. É tão grande a força e virtude da Palavra de Deus que fornece à Igreja a solidez da fé, o alimento da alma, fonte pura e perene da vida espiritual. A própria Escritura testemunha: A "Palavra de Deus é viva e eficaz" (Hb 4,11).

A Bíblia é, pois, o primeiro livro de catequese. Antes de a Bíblia ser escrita, Israel encontrou-se com seu Deus e alimentou sua vida de fé numa longa experiência comunitária de luta pela sua sobrevivência edignidade. Nessa experiência vai despontando o jeito catequético de Deus, através do qual Israel foi aprendendo a ver Deus no centro de sua história e da vida de cada um.

Por meio dessa longa experiência, podemos comparar a Bíblia com uma antiga "máquina de costura", que vai costurando a aliança de Deus com o povo e do povo com Deus. O "carretel de linha" é o mistério do amor de Deus que vai penetrando os orifícios de nossa vida. A "canelinha" somos nós, que devemos corresponder à penetração da agulha de Deus em nossa vida. O importante é "firmar o ponto" e não afrouxar a costura, senão vamos "franzir" a nossa vida cristã. Através de nossa liberdade podemos cortar a linha e quebrar a aliança com Deus. A catequese é, portanto, a constante "costura" que fazemos com Deus. Não se faz roupa apenas em alguns momentos da vida. Daí a importância da catequese e de sua formação permanentes.

Depois de muito tempo, por inspiração de Deus, Israel vai pondo por escrito aspectos marcantes dessa experiência vivida à luz da fé. A vivência suscita os escritos. Na catequese de Deus os fatos precedem as escritas. É a grande pedagogia da Bíblia. Os escritos que vão surgindo mantêm viva e aprofundam a fé através de releituras posteriores provocadas pelos fatos novos.

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Saiba mais sobre:

+ CNBB propõe estudo do "Livro da Travessia" para celebrar o Mês da Bíblia


Pergunte e Responderemos

A Bíblia é Infalível?

O conceito de inspiração implica na inerrância bíblica, em sua infalibilidade. No entanto, devemos compreender a extensão dessa infalibilidade...

Todas as coisas possuem limites: não é diferente para a Bíblia!

Não poucas vezes, nos defrontamos com pessoas que querem "provar" a todo custo que a Bíblia está cheia de erros científicos, não possui harmonia entre seus vários livros, cai diversas vezes em contradição e tem diversas passagens lendárias. E chegam a exemplificar:Ao abandonar seus pais, com quem Caim se casou, já que não havia mulheres filhas de Adão e Eva? (Gn 4,17);Quantos soldados havia em Israel e em Judá? 800 mil e 500 mil, respectivamente, segundo 2 Sm 24 ou 1100 e 470 mil, respectivamente, segundo 1Cr 21?;Mateus atribui ao profeta Jeremias uma profecia de Zacarias (Mt 27,9); Judas se suicidou por enforcamento (Mt 27,5) ou por pular em um precipício (At 1,18)? e os exemplos se multiplicam...

Tais argumentos fazem aparecer pessoas "iluminadas" que, crendo na total infalibilidade da Bíblia, encontram respostas inúteis, tais como defender que Judas se enforcou numa árvore próxima de um abismo, tendo caído neste assim que a corda se rompeu!!! Da mesma forma, Galileu Galilei quase foi queimado pela Inquisição por defender que a terra girava em torno do sol e não o contrário, como todos até então acreditavam; isso porque parecia contradizer a passagem de Js 10,12-13, que afirma que o sol parou por ordem de Josué.

Vemos, assim, que tais discussões são inúteis e extremadas! Tudo por causa do conceito de inerrância ou infalibilidade da Bíblia que não é visto de acordo com a verdade. E qual é a verdade? É que a Bíblia éum livro de fé e não um livro de ciências! É infalível para doutrinas da religião, mas não o é para a ciência.

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Blog do Prof. Felipe Aquino

Família, fonte de santidade

 
 

Deus nos criou para vivermos em família, como Ele mesmo é uma Família, Três Pessoas distintas em uma única natureza. Quando o Catecismo fala da família, começa dizendo que: Jesus, ao vir ao mundo, não precisava necessariamente viver em uma família, mas Ele assim o quis, para deixar-nos o seu exemplo e ensinamento sobre a nobreza e santidade da família. Quis ter uma mãe e um pai (adotivo), e foi obediente e submisso a eles (cf. Lc 2,51). Jesus não precisava ter um pai terreno, já que o Seu Pai é o próprio Deus. Mas Ele quis ter um pai adotivo, legal, como chamavam os judeus. Quando José quis abandonar Maria, em silêncio, para não difamá-la, Deus mandou o Anjo dizer-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois, o que nela foi concebido veio do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho a quem tu porás o nome de Jesus” (Mt 1,20-21). É como se Deus dissesse a José: eu preciso de você, eu quero você para ser o pai diligente da sagrada Família. Os pais geram os filhos, mais aqui é o Filho quem escolhe o seu pai.

A Família de Nazaré nos dá uma lição de vida familiar. Como disse Paulo VI: “Que Nazaré nos ensine o que é família, sua comunhão de amor, sua beleza austera e simples, seu cárater sagrado e inviolável (…). Uma lição de trabalho…” (05/01/64). A família é uma escola de virtude e de santidade para todos. Vivendo na família de Nazaré, Jesus nos ensinou a importância da submissão e obediência dos filhos aos pais. Ele, mesmo sendo Deus, se fez obediente àqueles que Ele mesmo criou e escolheu para seus pais. Cumpriu em tudo o quarto mandamento que manda “honrar” os pais. Mais do que ninguém obedeceu à Palavra de Deus que diz:“Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro”. “Quem teme o Senhor honra pai e mãe” (Eclo 3).

 

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Livro da Semana

SABEDORIA EM GOTAS

Toda sabedoria humana é “semente do Verbo” que tem como meta levar o coração do homem a Deus.

Quem vive com sabedoria vive melhor; encontra a paz no meio das lutas da vida, sabe enfrentar as dificuldades com paciência e perseverança; caminha com fé, esperança e alegria.

Nestas páginas você vai encontrar um tesouro acumulado pela humanidade durante milênios. Saboreie com alegria este banquete que a sabedoria lhe preparou.

Este é um livro de citações de grandes pensadores.

 

Ficha Técnica
Editora: Cléofas
ISBN: 978-85-88158-50-4
Ano: 2009
Edição: 4
Número de páginas: 152
Idioma: Português (BR)
Acabamento: Brochura
Formato: 14x21 cm

 

 


 


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Os Dogmas da Fé

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A Moral Católica
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O que são Indulgências?
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Família, Santuário da vida
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© 2011 - Editora Cléofas

24 de set de 2011

Católicos e Política: Princípios Doutrinais


O Estado laico e o Estado laicista. A Igreja sempre ensinou que o poder religioso e o poder civil são distintos, e que ambos devem colaborar assiduamente, pois os dois estão a serviço do homem e da sociedade. A descristianização progressiva das nações no Ocidente foi levando, primeiro de fato, e por convicção depois, a considerar aseparação do Estado e da Igreja como um valor positivo. Contudo, na realidade histórica, essa separação veio de fato a entender-se umas vezes como não-colaboração, e outras como oposição, isto é, como laicismo. Não obstante, se foi impondo entre os católicos liberais – hoje quase todos o são em matérias políticas – a convicção de que, dentro do pluralismo cultural das sociedades atuais do Ocidente, há que promover o Estado laico, rechaçando, isso sim, o Estado laicista. A «sã laicidade» se contrapõe assim ao «laicismo». Mas esta afirmação há de ser precisada em dois pontos principais.

–1º. O «Estado laico» nunca foi proposto como ideal na doutrina política da IgrejaE a expressão «sã laicidade» se empregou sempre em contraposição ao «laicismo hostil». Não foi integrada sistematicamente, por meio de encíclicas ou documentos monográficos importantes, na doutrina política da Igreja. Antes, foi usada de modo ocasional em atos civis e diplomáticos. Mas a doutrina política da Igreja não se deve buscá-la em discursos pontifícios de cortesia, ou na saudação a um Presidente, ou na breve alocução do Papa em um aeroporto.

Como é lógico, contudo, os políticos católicos liberais malminoristas, isto é, quase todos os católicos políticos, tomaram atualmente o lema como bandeira: o Estado deve ser laico, mas não laicista. Na realidade esse é um princípio falso, que extingue a atividade política dos católicos, e leva o povo cristão a uma apostasia cada vez mais profunda, através da secularização progressiva da sociedade, cada vez mais fechada a Deus.

Pio XII, depois dos horrores da II Guerra Mundial, no ambiente esperançoso que trouxeram as democracias liberais vitoriosas, aludiu positivamente a uma «legítima e sã laicidade» da comunidade política (Disc. à colônia de Las Marcas em Roma 23-III-1958). E nos últimos decênios, de vez em quando, aparece a expressão em discursos dos Papas, usada sempre, como digo, em contraposição ao «laicismo ideológico ou separação hostil entre as instituições civis e as confissões religiosas» (João Paulo II, exort. apost. Ecclesia in Europa 117).

Bento XVI, p. ex., ao regressar a Roma depois de uma viagem aos Estados Unidos, disse em uma Alocução geral (30-IV-2008): «No encontro com o senhor Presidente, em sua residência, rendi homenagem a esse grande país, que desde os inicios se edificou sobre a base da feliz conjugação entre princípios religiosos, éticos e políticos, e que continua sendo um exemplo válido de sã laicidade, em que a dimensão religiosa, na diversidade de suas expressões, não só se tolera, mas também se valoriza como “alma” da nação e garantia fundamental dos direitos e dos deveres do homem».

A afirmação que sublinhei pode entender-se referida «ao ideal dos fundadores», «à alma do povo» ou a suas «tradições» próprias, mas ocasionaria certa perplexidade se se aplicasse à atual Administração política da nação. Não podemos ignorar que os Estados Unidos, com suas potentíssimas fundações, com as entidades nacionais e internacionais que promove, e também às vezes com o apoio e financiamento do Governo de turno, encabeça no mundo a difusão de gravíssimos males: anticoncepção, abortos, ideologia do gênero, etc. E neste sentido não é «um exemplo válido de sã laicidade». Em todo caso, o próprio Bento XVI, em um discurso que cito ao fim deste artigo, nos explica com grande precisão e claridade o verdadeiro significado da laicidade e da sã laicidade.

–2º. Todos os Estados laicos são laicistas. Don José María Petit Sullá, de grata memoria (+2007; Schola Cordis Iesu, Sociedad Tomista Internacional, catedrático de Filosofia na Universidade de Barcelona), dizia que «um Estado laico – totalitário ou democrático – não pode legislar mais que de acordo com o princípio de que a sociedade, que ele rege, há de ser laica. E isto implica que velará para que não se faça presente a religião e a Igreja nesta sociedade civil»; isto é, será um Estado laicista.

«Uma sociedade laica não é um terreno comum a crentes e não crentes. O sofisma se reduz a algo tão simples como absurdo. Quer-se introduzir a ideia de que, sendo a afirmação da existência de Deus uma “opção” não compartilhada por todos, o terreno comum entre dizer “Deus existe” e a proposição “Deus não existe” é “organizemos a sociedade sobre a base comum de que Deus não existe”. Base comum?… Não existe una base comum a duas proposições contraditórias. E a que se escolheu e se impõe é “Deus não existe”. A proposta de um Estado laico não laicista é um impossível lógico. Todo Estado laico é, pelo mero fato de sê-lo, um Estado laicista, isto é, que tende sistematicamente a produzir uma sociedade laica, isto é, a separar os homens da religião e, em definitiva, de Deus» (¿Existe un Estado laico no laicista? em «Cristiandad» nº 882, I-2005).

É laicista o Estado que não cumpre as obrigações que tem para com Deus, Cristo e a Igrejae que em seguida enumero.

–É laicista o Estado laico que não cumpre «o dever de render a Deus um culto autêntico [como] corresponde ao homem individual e socialmente» (Catecismo 2105). Quiçá permita a liberdade de cultos sem problemas, mas enquanto Estado, se nega a si mesmo até a possibilidade de pronunciar publicamente o nome de Deus. Contudo, esta situação para São Paulo é «inescusável, porquanto conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que es bendito pelos séculos. Amém! Por isso Deus os entregou às paixões vergonhosas» (Rm 1,19-26).

–É laicista o Estado laico que prescinde de Deus na edificação da cidade temporal, «como se não existisse». Que esta hipótese oriente sistematicamente a atividade política é inadmissível: é culpável e ateizante.

João XXIII: «a insensatez mais característica de nossa época consiste no intento de estabelecer uma ordem temporal sólida e proveitosa sem apoiá-la em seu fundamento indispensável, ou, o que é o mesmo, prescindindo de Deus; e querer exaltar a grandeza do homem cegando a fonte da qual brota e se nutre, isto é, obstaculizando e, se fosse possível, aniquilando a tendência inata da alma para Deus. Os acontecimentos de nossa época, contudo, que cortaram em flor as esperanças de muitos e arrancaram lágrimas a não poucos, confirmam a verdade da Escritura: “Se o Senhor não constrói a casa, em vão se cansam os pedreiros”» (enc. Mater et magistra 217).

Concílio Vaticano II: «se autonomia do temporal quer dizer que a realidade criada é independente de Deus e que os homens podem usá-la sem referência ao Criador, ninguém que acredite em Deus deixa de ver a falsidade de tais asserções. A criatura sem o Criador desaparece» (GS 36).

–É laicista o Estado laico que não reconhece mais que um Ser supremo no sentido deísta, isto é, em referência a um Deus que existe, mas que não atua em nada do curso das realidades históricas. Isso permite ao Estado reduzir a zero a influência do Criador na cultura, nas leis e na sociedade do mundo que Ele criou e que conserva no ser e a vida.

–É laicista o Estado laico que reconhece a Deus, mas rechaça a Cristo e à Igreja, que são para os homens a plena epifania do único Deus verdadeiro. 

«É preciso que a concepção cristã da vida e os ensinamentos morais da Igreja continuem sendo os valores essenciais que inspirem todas as personas e grupos que trabalham pelo bem da nação… A liberdade humana e seu exercício no campo da vida individual, familiar e social, assim como a legislação que serve de marco para a convivência na comunidade política, encontram seu ponto de referência e sua justa medida na verdade sobre Deus e sobre o homem» (João Paulo II, ao presidente de Argentina 17-XII-1993).

–É laicista o Estado laico que não favorece na nação a vida religiosa. Para que um Estado laico seja lícito não basta que permita não persiga a religião, pois além disso tem o dever de protegê-la e ajudá-la. A doutrina tradicional da Igreja neste ponto, amplamente exposta (por exemplo, Leão XIII, enc. Immortale Dei 3-9), é reiterada pelo Vaticano II: «o poder civil, cujo fim próprio é cuidar do bem comum temporal, certamente, deve reconhecer a vida religiosa dos cidadãos e favorecê-la» (DH 1).

–É laicista o Estado laico que não se fundamenta nos princípios objetivos da lei natural, que prescinde dela ou a nega, vindo a estabelecer necessariamente na nação a ditadura do relativismo. Como dizia João Paulo II, «uma política privada de princípios éticos sãos leva inevitavelmente ao declínio da vida social e à violação da dignidade e dos direitos da pessoa humana» (Disc. aos Bispos da Polônia 15-I-1993). Concretamente, um Estado abortista é um Estado criminoso, que permite ou favorece o assassinato de centenas de milhares de seus cidadãos. E quase todos os Estados modernos são abortistas.

Os modernos Estados laicos, por coerência doutrinal e prática, não cumprem nenhuma das condições requeridas para uma sã laicidade, e por isso são laicistas. Dito em outros termos: a sã laicidade não existe, nem pode existir. Esta expressão, como disse, só tem um sentido válido para contrapô-la ao laicismo abertamente hostil a Deus e a sua Igreja. Mas não serve para mais. De nenhum modo vale como ideal político cristão.

A doutrina de Bento XVI sobre a «laicidade» e a «sã laicidade», exposta em um discurso ao congresso da União de Juristas Católicos italianos (9-XII-2006), segundo o que eu conheço, é a mais ampla e exata das formuladas pelo Magistério apostólico.

–A «laicidade» é uma palavra que há de ser entendida em sua história política real, e não simplesmente como um termo abstrato, ao qual se pode dar este ou outro conteúdo de forma ideológica e arbitrária. Desta convicção parte o ensinamento do Papa: «para compreender o significado autêntico da laicidade e explicar suas acepções atuais, é preciso ter em conta o desenvolvimento histórico que teve o conceito.

«A laicidade, nascida como indicação da condição do simples fiel cristão [leigo], não pertencente nem ao clero nem ao estado religioso, durante a Idade Média revestiu o significado de oposição entre os poderes civis e as hierarquias eclesiásticas, e nos tempos modernos assumiu o de exclusão da religião e de seus símbolos da vida pública mediante seu confinamento ao âmbito privado e à consciência individual. Assim, sucedeu que ao termo “laicidade” se atribuiu uma acepção ideológica oposta à que tinha em sua origem. 

«Em realidade, hoje a laicidade se entende comumente como exclusão da religião dos diversos âmbitos da sociedade e como seu confinamento no âmbito da consciência individual. A laicidade se manifestaria na total separação entre o Estado e a Igreja, não tendo esta última título algum para intervir sobre temas relativos à vida e ao comportamento dos cidadãos. A laicidade comportaria inclusive a exclusão dos símbolos religiosos dos lugares públicos destinados ao exercício das funções próprias da comunidade política: escritórios, escolas, tribunais, hospitais, prisões, etc. 

«Baseando-se nestas múltiplas maneiras de conceber a laicidade, se fala hoje de pensamento laico, de moral laica, de ciência laica, de política laica. Com efeito, na base desta concepção há uma visão a-religiosa da vida, do pensamento e da moral, isto é, uma visão na qual não há lugar para Deus, para um Mistério que transcenda a pura razão, para uma lei moral de valor absoluto, vigente em todo tempo e em toda situação. Somente dando-se conta disto se pode medir o peso dos problemas que guarda um termo como laicidade, que parece ter-se convertido no emblema fundamental da pós-modernidade, em especial da democracia moderna. 

«Portanto, todos os crentes, e de modo especial os crentes em Cristo, têm o dever de contribuir a elaborar um conceito de laicidade que, por una parte, reconheça a Deus e a sua lei moral, a Cristo e a sua Igreja, o lugar que lhes corresponde na vida humana, individual e social, e que, por outra, afirme e respeite “a legítima autonomia das realidades terrenas”, entendendo com esta expressão – como afirma o concílio Vaticano II – que “as coisas criadas e as próprias sociedades gozam de leis e valores próprios que o homem há de descobrir, aplicar e ordenar paulatinamente”» (GS 36).

–A «sã laicidade» se dá somente se se produz um conjunto de condições, leis e atitudes.

«Esta afirmação conciliar [GS 36] constitui a base doutrinal da “sã laicidade”, a qual implica que as realidades terrenas certamente gozam de uma autonomia efetiva da esfera eclesiástica, mas não da ordem moral. Portanto, à Igreja não compete indicar qual ordenamento político e social se deve preferir, mas é o povo quem deve decidir livremente os modos melhores e mais adequados de organizar a vida política. Toda intervenção direta da Igreja neste campo seria una ingerência indevida.

«Por outra parte, a “sã laicidade” implica que o Estado não considere a religião como um simples sentimento individual, que se poderia confinar ao âmbito privado. Ao contrário, a religião, ao estar organizada também em estruturas visíveis, como sucede com a Igreja, se há de reconhecer como presença comunitária pública. Isto supõe, ademais, que a cada confissão religiosa (na medida em que não esteja em contraste com a ordem moral e não seja perigosa para a ordem pública) se garanta o livre exercício das atividades de culto –espirituais, culturais, educativas e caritativas – da comunidade dos crentes.

«À luz destas considerações, certamente não é expressão de laicidade, mas sua degeneração em laicismo, a hostilidade contra qualquer forma de relevância política e cultural da religião; em particular, contra a presença de todo símbolo religioso nas instituições públicas.

«Tampouco é sinal de sã laicidade negar à comunidade cristã, e a quem a representa legitimamente, o direito de pronunciar-se sobre os problemas morais que hoje interpelam a consciência de todos os seres humanos, em particular dos legisladores e dos juristas. Com efeito, não se trata de ingerência indevida da Igreja na atividade legislativa, própria e exclusiva do Estado, mas da afirmação e da defesa dos grandes valores que dão sentido à vida da pessoa e salvaguardam sua dignidade. Estes valores, antes de ser cristãos, são humanos; por isso diante deles não pode ficar indiferente e silenciosa a Igreja, que tem o dever de proclamar com firmeza a verdade sobre o homem e sobre seu destino […] 

«Aos cristãos nos corresponde mostrar que Deus, ao contrário, é amor e quer o bem e a felicidade de todos os homens. Temos o dever de fazer compreender que a lei moral que nos deu, e que se nos manifesta com a voz da consciência, não tem como finalidade oprimir-nos, mas livrar-nos do mal e fazer-nos felizes. Trata-se de mostrar que sem Deus o homem está perdido, e que excluir a religião da vida social, em particular a marginação do cristianismo, socava as próprias bases da convivência humana, pois antes de ser de ordem social e política, estas bases são de ordem moral».

Só sob o cetro de Cristo Rei é possível a sã laicidade. Quando Ele diz «sem mim não podeis fazer nada», suas palavras se aplicam tanto ao aperfeiçoamento espiritual da pessoa como ao ordenamento político da sociedade (Jo 15,5). E é que «o mundo inteiro está em poder do Maligno» (1Jo 5,19), e unicamente o Cristo Redentor tem poder sobre-humano e divino para liberar o homem e as nações do cativeiro do «Príncipe [e Deus] deste mundo» (Jo 12,31; 2Cor 4,4). Quem pensa que um Estado laico pode chegar a uma sã laicidade sem a verdade e a graça de Cristo Rei, ou é um pelagiano, no melhor dos casos, ou no pior, um apóstata ou simplesmente um ateu.

«A Encarnação é o acontecimento decisivo da história; dele depende a salvação tanto do indivíduo como da sociedade em todas as suas manifestações. Se falta Cristo, ao homem falta o caminho para alcançar a plenitude de sua elevação e de sua realização em todas as suas dimensões, sem excluir a esfera social e política» (João Paulo II, Ângelus 17-III-1991).

E termino com esta referência a uma realidade concreta extremadamente grave: o aborto. O diabo é «mentiroso e homicida desde o principio» (Jo 8,44): o diabo assegura que existe um «direito ao aborto», e assim consegue muitos milhões anuais de homicídios. Por isso, quando comprovamos que o conjunto unânime dos modernos Estados laicos é confessionalmente abortista, concluímos que esses Estados mentirosos e homicidas são diabólicos. São Estados anti-Cristo, pois Cristo é «o Autor da vida» (At 3,15). 

José María Iraburu, sacerdote.

Fonte: http://www.votocatolico.com.br/2011/09/catolicos-e-politica-principios.html

23 de set de 2011

Dicionário de Política: Partidos Políticos

 Conjunto de indivíduos que se associam para conquistar e manter o poder.
Os partidos políticos surgiram com o triunfo do individualismo. Os tories (conservadores) e os whigs (liberais), na Inglaterra dos séculos XVII-XVIII, foram seus precursores no mundo moderno. Nos Estados Unidos, republicanos e democratas só se organizam em moldes partidários muitos anos depois da Independência (1776). No continente europeu – ultrapassada a fase dos “clubes políticos” dos tempos da Revolução Francesa (1789) – os partidos começaram a aparecer em meados do século XIX.
Sob o domínio dos princípios do individualismo, ao surgirem as grandes concentrações urbanas, por força da industrialização, e uma vez implantado o sufrágio universal, organizaram-se os partidos de massa. Em razão disso, a democracia liberal-portuguesa, antes baseada no sufrágio censitário, foi perdendo terreno para o socialismo de origem marxista, ou não. Já no século XX, o partido único entrou a ganhar expressão em vários regimes: o comunista (1917), o fascista (1924), o nacional-socialista (1933). Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o pluripartidarismo (que não prevaleceu nos Estados africanos então emergentes) readquiriu o espaço perdido, persistindo, porém, antigos problemas, especialmente os relativos à representação política, cuja indefectível inautenticidade está estreitamente vinculada ao artificialismo da vida partidária.
Banha-se no otimismo a alegação dos que veem nos partidos veículos de formação cívico-cultural das pessoas a eles filiadas, ademais de lhes permitir entrar em contato com os mecanismos do poder, ensejando-lhes tal ou qual conhecimento das atividades governamentais e conferindo-lhes, quiçá, algum preparo para eventual exercício de funções públicas no futuro. Esse debuxo lisonjeiro está, no entanto, muito aquém da realidade.
Os partidos, em geral, são dominados por oligarquias, que armam internamente o quadro dos próprios interesses, cuja superação encontra resistências dificilmente transponíveis. A tendência oligárquica dos partidos foi apontada, com observação dos fatos ocorridos no seu país e em relação com o mandonismo caciquista, pelo jurista galego Alfredo Brañas (1851-1900), antecipando-se a teses sustentadas em livro clássico sobre o assunto, de autoria de Robert Michels, Zur Soziologie des Partenweisen in der modernen Demokratie (Leipzig, 1911), traduzido em várias línguas. Essa mesma tendência é apontada por Maurice Duverger (Les parties politiques, Paris, 1954, p. 178) e Joseph Schumpeter (Capitalism, Socialism and Democracy, 4ª ed., London, 1959, PP. 272 e 283). Rotineiro é também o procedimento com que sotopõem eles o interesse geral ao interesse partidário. Nesse caso, as conveniências ditadas pela captação de votos costumam suplantar qualquer exigência da coletividade, por mais imperativa que seja. Esse privatismo vai mais além do que essas graves distorções, pois a crônica das atividades partidárias registra a prática usual do recurso à cornucópia do poder econômico, especialmente de candidaturas. Tal arrimo financeiro extraordinário tem óbvias conotações de corrupção, dadas as contrapartidas que acarreta. Além disso, é proverbial, num regime de partidos, que a ascensão ao poder signifique a retribuição compensatória a correligionários, efetuada por meio de cargos, cujo provimento se esgueira por entre obstáculos legais, arcando o erário público com os ônus daí decorrentes. 
Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), legislações de alguns países intentaram regulamentar as atividades partidárias, fixando normas tendentes a impor uma disciplina capaz de preservar o interesse geral. A Constituição de Weimar (1919) foi, quiçá, a pioneira nesse sentido. Outras lhe seguiram os passos, como a Constituição brasileira de 1934, ao dispor: “O funcionário que se valer de sua autoridade em favor de partido político ou exercer pressão partidária sobre os seus subordinados, será punido com a perda do cargo, quando provado o abuso em processo judiciário” (art. 170, nº 9).
Após a Segunda Guerra Mundial, Constituições de vários países inseriram dispositivos definindo princípios e normas sobre a organização de partidos, ensejando à legislação ordinária a edição de “Estatutos” ou “Leis Orgânicas” específicas. Nota-se uma constante nas diversas legislações: a adoção de medidas tendentes a combater a corrupção e impedir a prática de abusos. A Constituição brasileira de 1988 proíbe aos partidos o “recebimento de recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiro” e exige a “prestação de contas à justiça eleitoral” (art. 17, incisos II e III). Objetivando evitar o caráter ostentoso da propaganda eleitoral, o texto constitucional determina a criação de um “fundo partidário” e assegura o “acesso gratuito ao rádio e à televisão” (art. 17, § 3º). Não obstante isso, a lei permite aos partidos, dentro dos limites que fixa, usar de recursos próprios nas campanhas eleitorais. Isso não tem evitado, porém, a propaganda torrencialmente rica promovida à época das eleições.
À exceção, talvez, na Inglaterra e, quiçá, em parte, dos Estados Unidos, o artificialismo das organizações partidárias é a regra nos demais países, desenvolvidos ou subdesenvolvidos. Nos dois países citados, o artificialismo é em boa parte corrigido pelo substrato fornecido pela longa tradição dos grupos sociais e históricos (especialmente na Inglaterra) que se alimentam do spirit of common order and social cooperation, típico da gente inglesa, e que fazem dos partidos meros instrumentos de defesa de suas aspirações. Diversa é a situação nos outros países. Nos desenvolvidos, referido artificialismo às vezes é atenuado pelos ressaibos histórico-culturais subsistentes. Já nos subdesenvolvidos, o artificialismo partidário – por não encontrar anteparo histórico-cultural – sujeita as instituições aos sobressaltos da ingovernabilidade. Por isso que esse artificialismo partidário – a que se agrega o artificialismo da representação política – leva o eleitor a se fixar em pessoas. Daí o personalismo e o sucesso das figuras carismáticas.


Dicionário de política, José Pedro Galvão de Souza, Clovis Lema Garcia e José Fraga Teixeira de Carvalho; T. A. Queiros Editor, São Paulo, 1988

Fonte: http://www.votocatolico.com.br/2011/09/dicionario-de-politica-partidos.html

"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12