7 de jan de 2016

O intelectual não é um isolado, ele pertence a seu tempo




Em continuidade à primeira postagem (O Intelectual é um Consagrado) sobre o livro "A Vida Intelectual" do Padre Antonin Dalmace Sertillanges, que recomendo que se leia primeiro clicando neste link, se você ainda não leu, claro, quero trazer aqui a continuidade. Nosso título deste segundo texto é "O intelectual não é um isolado, ele pertence a seu tempo". Não vou comentar mais nada, ele fala tudo. Leiam:

"II – O intelectual não é um isolado.

O trabalhador cristão, em virtude da sua vocação intelectual de consagrado, não deve isolar-se. Seja qual for a sua situação, julguem-no abandonado ou retirado materialmente, não deve deixar-se tentar pelo individualismo, imagem deformada da personalidade crista. Se a solidão vivifica, o isolamento paralisa e esteriliza. À força de ser alma, cessa-se de ser homem, diria Vitor Hugo. O isolamento é inumano; porque trabalhar humanamente é trabalhar com o sentimento do homem, das suas necessidades, das suas grandezas, da solidariedade que nos liga numa vida estreitamente comum.

O trabalhador cristão deveria viver constantemente no universal, na história. Porque vive com Jesus Cristo, não pode separar dele nem os tempos nem os homens. A vida real é vida num, vida de família imensa com a caridade por lei: se o estudo pretende ser ato de vida, e não arte pela arte ou monopólio do abstrato, deve reger-se por esta lei de unidade cordial. <>, diz Gratry – devemos também trabalhar aí – mas a verdadeira cruz não está isolada da terra>>. O verdadeiro cristão terá sem cessar diante dos olhos a imagem do globo onde está plantada a cruz, onde os pobres seres humanos erram e sofrem, e onde o sangue redentor procura encontrá-los através de meandros sem conta. A luz, que possui, reveste-o dum sacerdócio; a luz que pretende adquirir, é promessa implícita e dom. Toda a verdade é prática; a mais abstrata na aparência, a mais elevada é também a prática. Toda a verdade é vida, orientação, caminho em ordem alcançar o fim humano. Por isso Jesus Cristo reuniu numa só afirmação: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Trabalhai, pois, sempre, em espírito de utilização, como recomenda o Evangelho. Deixai sussurrar em volta o gênero humano; distingui nele estes e aqueles, indivíduos ou grupos, cuja indigência conheceis; descobri o que pode arrancá-los à noite, enobrecê-los, o que de perto ou de longe os salva. 

Só as verdades redentoras são Santas e as palavras do Apóstolo – "a vontade de Deus é que sejais santos" -aplicam-se ao nosso trabalho como a tudo o mais.

Jesus Cristo precisa do nosso espírito, como precisava, enquanto viveu na terra, do seu próprio espírito humano. Ele retirou-se, nós continuamo-lo: eis a nossa honra incomensurável. Somos os seus <>, portanto o seu espírito em participação, portanto os seus cooperadores. Opera por nós, fora e pelo seu espírito inspirador, dentro, como, em vida, operava exteriormente pela palavra, e no íntimo das almas pela graça. Sendo o nosso trabalho necessário para esta ação, trabalhemos como Jesus meditava, haurindo, como Ele, nos mananciais do Pai, com o intuito de difundir.

III – O intelectual pertence ao seu tempo.

Em seguida, pensai que, se todos os tempos são iguais perante Deus, se a sua eternidade é centro irradiante, a igual distância do qual correm todos os pontos da circunferência do tempo, não sucede o mesmo na relação dos tempos connosco, que habitamos a circunferência.

Estamos aqui, na vasta roda, não noutra parte. Foi Deus que nos colocou aí. Qualquer momento da duração nos diz respeito e qualquer século é nosso próximo, do mesmo modo que qualquer homem; esta palavra – próximo – é termo relativo, que a providencial sabedoria determina para cada qual e que cada qual, na sua sabedoria restrita, deve igualmente determinar.

Eis-me aqui, homem do século XX, contemporâneo dum drama permanente, testemunha de confusões como porventura o mundo nunca presenciou desde que os montes surgiram e os mares foram atirados para seus antros. Que fazer por este século arquejante? Mais do que nunca, o pensamento espera pelos homens e os homens pelo pensamento. O mundo corre perigo por falta de máximas de vida. Encontramo-nos num comboio que desfila a toda a velocidade, e não há sinalização, nem agulheiros. O planeta não sabe para onde vai, a sua lei abandona-o: quem lhe restituirá o seu sol?

O que digo não visa a estreitar o campo da investigação intelectual, nem a confiná-lo no estudo exclusivamente religioso. O decurso do livro o mostrará. Já disse que toda a verdade é prática, que toda a verdade salva. Mas indico um espírito, e este espírito exclui qualquer forma de diletantismo.
Exclui também certa tendência arqueológica, certo amor do passado que se desinteressa das dores atuais, certa estima do passado que parece ignorar a presença universal de Deus. Nem todos os tempos valem o mesmo, mas todos os tempos são tempos cristãos, e há um que para nós e praticamente os ultrapassa a todos: o nosso. Para ele são os nossos recursos nativos, as nossas forças de hoje e as de amanhã, e por conseguinte os esforços que lhes devem corresponder. Não nos assemelhemos aos que dão sempre a impressão de pegar às borlas do caixão nos funerais do passado. Utilizemos, como vivos, o valor dos mortos. A verdade é sempre nova.

Todas as virtudes antigas querem reflorescer, exatamente como a erva da madrugada beijada pelo orvalho. Deus não envelhece. É mister ajudá-lo a renovar, não os passados enterrados, nem as crônicas extintas, mas a eterna face da terra.

Este é o espírito do intelectual católico, esta a sua vocação. Quanto mais depressa a determinar pelo descobrimento do gênero de estudos a que se deve consagrar, tanto melhor. Atentai agora nas virtudes que Deus lhe pede."


Para ler o resumo completo do livro clique aqui:
http://www.missaocefas.org/2016/01/resumo-do-livro-vida-intelectual.html

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