18 de jul de 2016

5º dia da NOVENA MEDITATIVA À SANTA BRÍGIDA


Sobre as revelações de Santa Brígida – Parte 1 – (Dom Estêvão Bittencourt)


A. Autenticidade

 1. Santa Brígida deixou uma produção literária caracterizada principalmente por oito livros ditos de «Revelações» («Revelationes», no original latino) e um escrito suplementar intitulado «Extravagantes» (este contém as revelações que não foram, de inicio, compreendidas na coleção dos oito livros, ficando por isto a «vaguear por fora»).
 Tratam da vida de Jesus Cristo, da Virgem SS., do céu, do purgatório, do inferno, do problema do mal; contêm também exortações do Imperador do Céu aos Reis da terra, mensagens dirigidas aos Sumos Pontífices, sentenças concernentes a pessoas particulares, etc.

2. Como julgar a autenticidade de tais oráculos?

A fim de responder devidamente à questão, deveremos levar em conta o modo como se originaram os ditos livros.

Depois que enviuvara, quando residia em Alvastra, Sta. Brígida, incitada pelo próprio Senhor (como narram os biógrafos), pediu um dia a seu diretor espiritual, o monge cisterciense Pedro Olafsson, que recolhesse de seus lábios as revelações divinas que ela havia de receber e as traduzisse para o latim. Pedro Olafsson, depois de recusar, aceitou o encargo, tomando como colaborador o sacerdote Pedro de Skeninge, confessor da santa.

Estes dois eclesiásticos acompanharam Brígida em Roma, sendo que na Cidade Eterna a santa recebeu de Deus a ordem de aprender o latim; possuindo esta língua, far-se-ia compreender pelas pessoas que desconheciam o idioma sueco; poderia também controlar as traduções latinas das revelações que ela ditava em êxtase. Entende-se, não lhe tenha sido fácil estudar a gramática latina na idade aproximada de cinquenta anos em que se encontrava; experimentava muito maior atração pela visita aos santuários de Roma; contudo a Virgem SS., sem lhe proibir esta devoção, incitava-a a prosseguir energicamente no estudo (cf. Revelationes 1. V cc. 105 e 46). A partir de 1368 um terceiro cooperador entrou em ação: era o bispo Afonso de Vadaterra, que renunciara à sua diocese de Jaen para entrar na Ordem dos Eremitas de S. Agostinho em Roma; incumbia-lhe a tarefa de rever as traduções feitas por Pedro Olafsson e Pedro de Skeninge, e distribuí-las em capítulos e livros; a ele se devem a série dos oito livros de «Revelações» (como ela hoje se apresenta) bem como a compilação das «Extravagantes».
 
Pois bem. A crítica sadia em nossos tempos julga que os três Secretários deram, cada qual, algo de próprio para elaborar o texto das visões tal corno ele chegou até nós; tinham mesmo licença para acrescentar colorido e ornamento («coloribus et lineamentis») às palavras de S. Brígida. Sendo assim, torna-se difícil distinguir nas «Revelações» de S. Brígida as partes que provêm genuinamente da Santa, e aquelas que se devem, antes, aos respectivos Secretários. É certo que não se pode atribuir o texto diretamente a S. Brígida; inegàvelmente, porém, tem-se a impressão de que várias passagens refletem os autênticos traços da personalidade forte e severa de S. Brígida. Admitida esta conclusão, abre-se ulterior questão: e esses trechos que parecem depender realmente de S. Brígida, até que ponto terão sido revelados ou sugeridos à Santa pelo próprio Deus? Esta última questão tem que ficar aberta ou sem resposta, pois não há dados suficientes para a elucidar.

3. No séc. XIV acendeu-se árdua controvérsia em torno da autenticidade das «Revelações» de S. Brígida. Eram-lhes infensos os conciliaristas, isto é, os teólogos que atribuíam a autoridade máxima na Igreja aos Concílios Ecumênicos, e não aos Papas; já que as mensagens de Brígida tanto valor davam ao poder papal (insistindo na absoluta necessidade de que o Pontífice voltasse de Avinhão a Roma, para o bem da S. Igreja), entende-se que os conciliaristas tendessem a depreciá-la e rejeitá-las. Está claro, porém, que a posição preconcebida dos conciliaristas não pode servir de critério no caso.

Quanto às autoridades eclesiásticas, têm-se pronunciado favoravelmente às «Revelações».

Tenham-se em vista, por exemplo, as palavras do Papa Bonifácio IX, que canonizou a Santa:
«Por graça do Espírito Santo, Brígida mereceu ver, ouvir e, em espírito profético, anunciar muitas mensagens e revelações, das quais não poucas já se cumpriram na realidade, tais como estão descritas nos volumes de suas Revelações» (Acta Sanctorum, outubro, t. IV, pág. 470).

Já anteriormente os Papas Gregório XI (+1378) e Urbano VI (+1389) haviam aprovado os oito livros das Revelações.

É de notar, porém, que tais aprovações não equivalem a definições infalíveis. Os Papas nunca tiveram a intenção de impor revelações privadas à crença dos cristãos; após a morte do último dos Apóstolos não há mais Revelação de fé na Igreja. É, aliás, o Papa Bento XIV em 1767 quem o afirmava na sua obra monumental sobre «A beatificação dos Servos de Deus»: que pensar, interroga ele, a respeito das revelações particulares aprovadas pela Igreja, como são, por exemplo, as das Stas. Hildegardes, Brígida e Catarina de Sena? Responde: «Não podemos nem devemos dar a essas revelações, ainda que aprovadas, um assentimento de fé católica (sobrenatural); podemos, porém, prestar-lhes assentimento de fé meramente humana, de acordo com as regras da prudência, que insinua serem tais revelações prováveis e dignas de piedosa crença» (1. EU, c. 53 n.-15).

 Destas palavras depreende-se com clareza que as «Revelações» de S. Brígida não fazem parte do depósito da fé; por conseguinte, o seu valor há de ser aquilatado à luz das normas da prudência humana. Ora, já que, de um lado, tais mensagens não contêm afirmação contrária aos dogmas de fé e, de outro lado, sempre haviam estimulado a piedade, Bento XIV e os Pontífices seus antecessores as declararam dignas de piedosa crença. Tal juízo, porém, baseado em critérios de prudência humana, poderia ser reformado, caso outras razões de prudência o exigissem.

Justamente a crítica moderna, reconsiderando as circunstâncias e as etapas às quais se devem os livros das «Revelações» de Santa Brígida, julga haver motivo para reservas sobre a autenticidade desses escritos (como foi dito atrás, estão distanciados de S. Brígida pela mediação de secretários, redatores, tradutores, compiladores...). Por conseguinte, a própria prudência em nossos dias recomenda não se dê irrestrito crédito a quanto se acha nos escritos atribuídos a Santa Brígida.

 Eis algumas afirmações ocorrentes nas «Revelações», e comuns entre os medievais, a respeito das quais os estudiosos modernos nutrem certas dúvidas (note-se bem que não se trata de assuntos dogmáticos, mas de temas de história apenas):

 - o Apóstolo São João teria sido primo de N. S. Jesus Cristo, conforme Revel. 110, 35;

- Santa Petronilha teria sido filha de São Pedro, de acordo com Revel. VI 93;

- São Dionísio, padroeiro da França, haveria sido o Areopagita convertido por São Paulo e enviado de Roma à Gália para pregar o S. Evangelho (1. IV c. 21, 103s);

- em Roma podem-se comemorar 7.000 mártires diferentes em cada dia do ano (Revel. III 27);

- o Imperador Trajano, mediante as preces de S. Gregório Magno, haveria sido libertado do inferno e introduzido na bem-aventurança celeste (1. IV, c. 13).

A fim de não se cometer injustiça, torna-se mister notar o seguinte: - o fato de que tais.afirmações sejam inverossímeis ou mesmo falsas, não impede que o Espírito Santo tenha realmente manifestado a S. Brígida certos traços e episódios de suas Revelações, como insinuava o Papa Bonifácio IX no trecho que atrás transcrevemos.

Em conclusão, visto que é difícil, se não impossível, determinar o grau de autenticidade ou de revelação divina dos escritos atribuídos a S. Brígida, convém manter sobriedade no uso dos mesmos. Tenha-se, aliás, por certo que no depósito comum da fé, ou seja, no Credo diretamente comunicado por Cristo aos Apóstolos, todo homem encontra os elementos de que necessita para a sua santificação; o subsídio das revelações particulares não é essencial ao aperfeiçoamento da vida cristã.

Fonte:







Nenhum comentário:

Postar um comentário

Irmão, deixe uma mensagem!!!


"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12