28 de jul de 2016

Anjos: Características


Hoje, continuamos a nossa jornada catequética sobre os anjos, iniciada com o post "Anjos, segundo a Doutrina Católica". E o assunto deste dia é a natureza dos anjos, isto é, o que caracteriza essa criatura divina como anjo.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) nos ensina que os anjos são “criaturas puramente espirituais”(CIC 330)1, “não-corporais “(CIC 328)1, "invisíveis"(Compendio CIC 60)2, “dotados de inteligência e vontade: são criaturas pessoais (Cf. Pio XII, Enc. Humani generis: DS 3891) e imortais”(CIC 330)1.

Vejamos, então, mais detalhadamente, cada uma dessas características dos Anjos:

1) São criaturas – Os Anjos começaram a existir a partir de um momento. Eles foram criados por Deus. Constatamos isso na Bíblia, por exemplo, em Neemias 9,6: "Sois vós, Senhor, vós somente, que fizestes o céu dos céus e todo o seu exército..."3

2) São puramente espirituais -  Os anjos são puro espírito e, por isso, são as criaturas que mais se assemelham ao modelo divino 5, pois "Deus é espírito" (Jo 4,24). E estão mais próximos de Deus do que as criaturas materiais. A Sagrada Escritura “oferece uma evidência bastante explícita desta máxima proximidade a Deus dos anjos, dos quais fala, com linguagem figurada, como o "trono" de Deus, os seus "exércitos" de seu "céu"."4

3) São invisíveis - João Paulo II nos explica que os anjos não são "próprios do mundo visível, embora estejam presentes e ativos no mesmo."4  Em certas circunstâncias "se manifestam sob formas visíveis por causa de sua missão a favor dos homens."7, como, por exemplo, em Atos dos Apóstolos, "quando o anjo de Deus liberta os Apóstolos da prisão (cf. Atos 5, 18-20), e acima de tudo Pedro , que estava ameaçado de morte pela mão de Herodes (cf. Atos 12, 5-10 )."7

4) São incorpóreos - Segundo São Tomás de Aquino, “os anjos não são corpos, nem estão naturalmente unidos a estes (...) às vezes, assumem corpos". 

A alguns que disseram que "os anjos nunca assumem corpos, e tudo o que se lê na divina Escritura sobre aparições angélicas, aconteceu em visão profética"6, isto é, somente na imaginação do vidente,  Tomás de Aquino contraargumenta dizendo que, na Divina Escritura,  "aparecem, por vezes, anjos vistos igualmente por todos" - os anjos aparecidos a Abraão foram vistos por ele, por toda a sua família, por Lote e pelos habitantes de Sodoma; semelhantemente, o anjo aparecido a Tobias foi visto por todos -  E a visão corpórea do anjo estava fora do vidente e consequentemente foi vista por todos.6


Além disso, o Doutor Angélico também nos ensina que "o fato de terem os anjos assumido corpos, no Velho Testamento não foi senão o indício figurativo de que o Verbo de Deus haveria de assumir um corpo humano; pois, todas as aparições do Antigo Testamento foram ordenadas a essa aparição, pela qual o Filho de Deus se manifestou encarnado."6

É interessante comentar que, quando os anjos assumem a corporalidade humana, eles não realizam as ações vitais que os corpos dos serem humanos realizam como comer, por exemplo. E a prova disso está em Tobias 12, 19, quando o arcanjo Rafael diz:” Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível, e minha bebida não pode ser vista pelos homens.”

Uma consequência dessa não corporalidade dos anjos é que eles são incorruptíveis. Quando o ser humano morre, há a “separação da alma e do corpo”8. Diz-se, então, que o corpo daquele individuo "cai na corrupção”8, sendo que “a alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida a seu corpo"8, no dia da ressurreição dos mortos. Isso não ocorre com os anjos, pois eles não têm um corpo corruptível. São puramente espirituais. 

São Tomás de Aquino ensina que “a imaterialidade do anjo é a razão de ser ele incorruptível por natureza.”9 Papa João Paulo II confirma isso, dizendo que os anjos “não estão sujeitos à lei da corruptibilidade que une todo o mundo material. O próprio Jesus, referindo-se à condição angélica, disse que na vida após a morte o ressuscitado "(não) pode morrer e são como os anjos (Lc 20, 36)”.7

5) São seres pessoais e, como tais, também criados à "imagem e semelhança" de Deus. "A Sagrada Escritura refere-se aos anjos usando também apelativos não só pessoais (como os nomes próprios de Rafael, Gabriel, Miguel), mas também "coletivos" (como as classificações de: serafins, querubins, tronos, potestades, dominações, principados), assim como faz uma distinção entre anjos e arcanjos."7

Como os anjos não tem corpos unidos a eles naturalmente, "só o intelecto e a vontade, dentre as faculdades humanas, podem lhes convir.", observa Tomás de Aquino.10  
Vejamos primeiro a inteligência. Os anjos são "puras inteligências"12. Eles apreendem as realidades sem precisar raciocinar. 14. Eles não são como os seres humanos, que necessitam dos órgãos dos sentidos do corpo para ter conhecimento. Contudo “ o intelecto angélico, como qualquer outro intelecto criado, é deficiente, em comparação com a eternidade divina”.11 E é finito “pelo limite que é inerente a todas as criaturas”.7

Associada à inteligência, está o livre-arbítrio. Para Tomás de Aquino, "só o ser inteligente pode agir com livre juízo, conhecendo a noção universal do bem, pela qual poderá julgar boa tal ou tal coisa. Por isso, onde houver intelecto, haverá livre arbítrio. E daí resulta que o livre arbítrio, bem como o intelecto, existe nos anjos, e mesmo de maneira mais excelente que nos homens."13 

Contudo, diferentemente do livre arbítrio dos homens, que é flexível 16, isto é, pode escolher entre o bem e o mal, tanto antes como depois do pecado original, o livre-arbítrio dos anjos só foi flexível, quanto aos opostos, no primeiro instante de sua criação. Imediatamente após esse instante, quando fizeram sua primeira escolha, tornou-se inflexível17Dessa forma, "no primeiro instante, todos foram bons; no segundo, distinguiram-se os bons dos maus."17. 

Os anjos bons tornaram-se "bem-aventurados"18, vendo a "essência de Deus"18, que é é "a essência mesma da bondade"18, e passaram a estar em "união perfeita"18 com Deus, e consequentemente "de nenhum modo"18 podem pecar. Os anjos maus não podem mais voltar ao bem, depois de sua queda, pois eles mesmos não querem voltar-se para Deus
Depois dessa primeira escolha, a vontade dos anjos não muda mais quanto ao querer para sempre. A "vontade dos bons anjos está confirmada no bem e a dos demônios obstinada no mal"16. Embora, eles tenham vontade própria como, por exemplo, ao se comunicarem, quando um anjo ordena um conceito de sua mente só para um outro anjo e não para todos.

Além disso, se submetem à vontade de Deus. Constatamos isso, por exemplo, na Bíblia, em:
Salmos 102, 20-21: "Bendizei ao Senhor todos os seus anjos, valentes heróis que cumpris suas ordens, sempre dóceis à sua palavra. Bendizei ao Senhor todos os seus exércitos, ministros que executais sua vontade."; 
Tobias 12,18, em que o Anjo Rafael diz:"Quando eu estava convosco, eu o estava por vontade de Deus: rendei-lhe graças, pois, com cânticos de louvor.";
Mateus 4,10-11: "Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (...). Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo.";
Lucas 4,35: "Mas Jesus replicou severamente: Cala-te e sai deste homem. O demônio lançou-o por terra no meio de todos e saiu dele, sem lhe fazer mal algum.".
6) Imortais - Por fim, terminando esta caracterização dos anjos, temos que eles não estão sujeitos à morte (Lc 20,35-36). São imortais, mas não são eternos. A eternidade é só de Deus. Só Deus é "aquele que é, que era e que vem"(Apoc 1,8) simultaneamente. Quando se diz que se vai ter vida eterna é por uma participação na eternidade de Deus. Os anjos são intermediários entre a eternidade de Deus e o tempo a que estão sujeitos as outras criaturas de Deus. Os anjos são eviternos, ou seja, uma existência que tem princípio (foram criados e começaram a existir a partir de um momento), e tem duração infinita, porque não tem limites no tempo.15

7) AparênciaPseudo Dionísio19  faz uma importante observação sobre as imagens associadas a esses seres puramente espitituais:
"É necessário que elevemos a nossa compreensão a partir das alegorias com as quais as inteligências celestes nos são representadas nas Sagradas Escrituras, a fim de não deduzirmos como pensaria qualquer pessoa desprevenida, que as inteligências celestes têm vários pés e vários rostos, que elas se assemelham ao gado como os bois, que apresentam o aspecto selvagem do leão, o bico curvo da águia, ou ainda, que possuem asas e penas como as aves. Não devemos imaginá-las como rodas inflamadas girando no céu, como guerreiros a cavalos armados de lanças, nem sob outras formas que as Sagradas Escrituras nos transmitem através de uma variedade de símbolos reveladores.
Se os teólogos aplicaram essa imaginação poética às inteligências celestes foi porque tiveram em conta o caráter humano da nossa inteligência, a fim de nos proporcionarem um meio de elevação espiritual adaptado a nossa natureza.(...)
Se é necessário dar figura ao desfigurado, dar forma ao que está sem forma, não é somente porque somos incapazes de contemplar diretamente essas realidades, mas porque convém às passagens místicas das Sagradas Escrituras ocultar sob a forma de enigmas, a santa e misteriosa unidade dessas inteligências que não pertencem a esse mundo".
Na próxima postagem, o assunto será a hierarquia dos anjos.
Até lá.

Notas

1. Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 311, 328, 330. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html
2. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 60. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/compendium_ccc/documents/archive_2005_compendium-ccc_po.html
3. Bibia Sagrada, Neemias 9,6. Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/neemias/9/
4.Papa João Paulo II, Audiência; "Criador das coisas visíveis e Invisíveis" (09 de julho de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860709.html
5. Papa João Paulo II, Audiência: "Criador das coisas invisíveis: os anjos" (30 de julho de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860730.html
6. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, parte I, Tratado dos anjos, questão 51, artigos 1 e 2. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/810
7. Papa João Paulo II, Audiência: "A participação dos anjos na história da salvação" (06 de agosto de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860806.html
8. Catecismo da Igreja Católica, Índice Analítico, M: Morte, M.48.20.9, parágrafo 997. Disponível em: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/m/morte.html
9. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 50, artigo 5. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/809
10. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 54 artigo 5 solução. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/827
11. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 57 artigo 3. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/839
12. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 59, artigo 1. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/851
13. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte II, Tratado dos Anjos, questão 59 artigo 3 solução. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/853
14. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, parte II, Tratado dos Anjos, questão 58 artigo 3. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/845
15. São Tomás de Aquino. Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 10, artigo 5. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/196
16. São Tomás de Aquino. Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 64, artigo 2. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2513
17. São Tomás de Aquino. Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2475
18. São Tomás de Aquino. Suma Teológica, parte I, Tratado dos Anjos,questão 62, artigo 8. Disponível em http://permanencia.org.br/drupal/node/2346
19. Pseudo Dionísio, Da Hierarquia Celeste. Disponível em: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/hier_celeste_s_dinis.htm


Autoria do texto: Betania Tavares

Autoria da imagem: desconhecida

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