24 de jul de 2016

Anjos, segundo a Doutrina Católica


Os anjos são um tema polêmico. Há os que acreditam neles, há os que negam sua existência (ex.: saduceus) e até os que exageram a sua importância. Muito se tem dito sobre eles, mas nem tudo está em conformidade com a Doutrina da Igreja Católica. E o Católico deve saber distinguir o que faz parte de sua fé e o que não pertence a ela.

Para facilitar esse discernimento, postarei aqui, no 'Missão Cefas', uma série de postagens sobre os Anjos, fundamentados na Bíblia Católica, no Catecismo da Igreja Católica(CIC), em documentos papais, em livros de Santos Doutores da Igreja e de Santos Padres da Igreja. Assim, fica mais claro saber o que a Igreja Católica Apostólica Romana nos ensina sobre estes seres angelicais.

Comecemos, então, nossa jornada catequética:

Para a Igreja Católica, “a existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição."(CIC 328)2.

Santo Agostinho (cf. CIC 329)diz que “Anjo é nome de ofício, não de natureza. Desejas saber o nome da natureza? Espírito. Desejas saber o do ofício? Anjo. Pelo que é, é espírito: pelo que faz, é anjo.”.

Segundo São Tomás de Aquino15, "Anjo significa núncio. Logo, todos os espíritos celestes, como manifestadores das ordens divinas, chamam-se anjos. Mas os anjos superiores têm, nessa manifestação, certa excelência (...) enquan­to que a ordem ínfima dos anjos não acrescenta nenhuma excelência à manifestação comum;
e, por isso é denominada pela simples manifesta­ção.". Assim, essa ínfima ordem angélica é denominada de Anjo. O "nome comum aplica-se a ela, como nome próprio."15.


A criação dos seres puramente espirituais aparece "claramente nos símbolos da fé, especialmente no Credo Niceno-Constantinopolitano: Creio em um só Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas (ou seja, entidades ou seres) "visíveis e invisíveis"”
3. Visíveis " como este mundo, onde se desenrola nossa vida passageira"4 e invisíveis "como são os puros espíritos, que também chamamos anjos“4 Assim, Deus criou, “do nada5 simultaneamente5 e desde o princípio do tempo"(CIC 293)2, “ambas as realidades: a espiritual e a corporal, o mundo terreno e o mundo angélico."6. E em seguida, criou a criatura humana, formada de “espírito e corpo”5 O ser humano "goza de dentro da criação de uma posição única, graças ao seu corpo que pertence do mundo visível, enquanto a alma espiritual que anima o corpo, é quase na fronteira entre a criação visível e invisível.”7.

Desta criação divina, os anjos “excedem em perfeição todas as criaturas visíveis. O esplendor da sua glória assim o atesta.”
(CIC 330)2. Sendo criaturas puramente espirituais, são "uma especial realização da "imagem de Deus", Espírito perfeitíssimo (...) Os anjos são, sob este ponto de vista, as criaturas mais próximas do modelo divino.".10

Os anjos são maiores que o ser humano em “força e poder”.8 Esse potência angelical está expressa na Bíblia: "vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder e a terra foi iluminada por sua glória."(Apocalipse 18,1); "um anjo do Senhor apareceu no campo dos assírios e feriu cento e oitenta e cinco mil homens."(II Reis 19,35 e Isaías 37,36); "o Senhor enviou um anjo sobre Jerusalém para destruí-la."(2 Samuel 24.16); "quatro Anjos que se conservavam em pé nos quatro cantos da terra, detendo os quatro ventos da terra"(Apocalipse 7,1).

São João Paulo II, ao comentar o versículo "fizeste-o por um pouco de tempo inferior aos anjos, coroaste-o de glória e de honra" (cf. Salmos 8,6; Hebreus 2,7-9), nos ensina que o uso desse verbo “inferiorizar” não é apropriado para os homens comuns porque eles “não foram "inferiorizados" em relação aos anjos, dado que nunca foram superiores a eles. Mas para Cristo, o verbo é exato, porque, sendo Filho de Deus, ele era superior aos anjos e foi diminuído quando se fez homem.“9.

"Cristo é o centro do mundo dos anjos (angélico). Estes pertencem-Lhe: «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os [seus] anjos...» (Mateus 25, 31). Pertencem-Lhe, porque criados por e para Ele: «em vista d'Ele é que foram criados todos os seres, que há nos céus e na terra, os seres visíveis e os invisíveis, os anjos que são os tronos, senhorias, principados e dominações. Tudo foi criado por seu intermédio e para Ele» (Colossenses 1, 16), E são d'Ele mais ainda porque Ele os fez mensageiros do seu plano salvador: «Não são eles todos espíritos ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão-de herdar a salvação?» (Hebreus 1, 14)."(CIC 331)2.

O mundo dos anjos é o céu, que é o "«lugar» das criaturas espirituais"(CIC 326)2, onde os anjos "rodeiam Deus."(CIC 326)2, contemplam a Sua face “sem cessar “(Mateus 18, 10), glorificam-nO (Apocalipse 7,11), servem-nO (Hebreus 1,14) . A proximidade dos Anjos em relação a Deus varia de acordo com o seu grau de perfeição e as tarefas que esses seres puramente espirituais têm. Assim, há uma hierarquia entre as criaturas celestes. Existem serafins (Isaías 6), querubins (Gênesis 3,24; Êxodo 25,22; Ezequiel 10,1-20), tronos, dominações, potestades e principados (Colossenses 1,16), virtudes (Efésios 1,21), arcanjos (1 Tessalonicenses 4,15-16; Judas 9) e anjos (Gênesis 16,7-9; Êxodo 23,20-22; Apocalipse 7 a 22 e muitas outras passagens). [Por ser um assunto amplo, a hierarquia terá uma postagem exclusiva aqui, no 'Missão Cefas'.]

Contudo, nem todos os anjos estão no Céu. Numerosos seres espirituais foram expulsos do mundo celestial, por Deus, porque, por "livre opção destes espíritos criados"(CIC 392)2, eles "irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino"(CIC 392)2. E, assim, dividiu-se o mundo dos espíritos puros em bons e maus. Aos bons, "chamamos anjos de Deus"13, aos maus, "anjos do Diabo ou ainda demônios.".13 O orgulho "transformou os anjos em diabos", diz o Papa Francisco12. "Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento." (II São Pedro 2, 4)8. [O pecado dos anjos, sua queda e a ação de Satanás terão também um post próprio aqui no 'Missão Cefas', devido a relevância do tema].

Os anjos bons são dignos de veneração. Mas, a adoração é só a Deus. Em Apocalipse 19,10, o anjo proíbe João de adorá-lo dizendo:“ Não faças isso! Eu sou um servo, como tu e teus irmãos, possuidores do testemunho de Jesus. Adora a Deus.” O mesmo acontece em Apocalipse 22,9 :”Não faças isto! Sou um servo como tu e teus irmãos, os profetas, e aqueles que guardam as palavras deste livro. Prostra-te diante de Deus.".

"A Igreja Católica venera os anjos, que a ajudam na sua peregrinação terrestre e protegem todo o gênero humano."(CIC 352)2.  E a honra prestada às imagens "é uma «veneração respeitosa», e não uma adoração, que só a Deus se deve."(CIC 2132)
11. "A arte sacra verdadeira leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador.".14



Em sua liturgia, a Igreja associa-se aos anjos para adorar a Deus três vezes Santo, "invoca a sua assistência (como na oração "In paradisum deducant te angeli – conduzam-te os anjos ao paraíso" da Liturgia dos Defuntos"(CIC 335)2 e festeja os arcanjos São Miguel, São Gabriel, São Rafael e os Anjos da Guarda. 

No próximo post desta série, o assunto é a natureza dos anjos

Até lá!

Autoria do texto: Betania Tavares
Autor da Imagem: John Bartosik

Notas


  1. Biblia Católica Ave Maria, atos-dos-apostolos/23.  Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/atos-dos-apostolos/23/
  2. Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 293,328, 329, 331, 335, 336, 352. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html
  3. Papa João Paulo II, Audiência Geral: "Criador das coisas visíveis e invisíveis" (09 de Julho de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860709.html
  4. Papa Paulo VI, Motu Próprio (30 de Junho de 1968). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/motu_proprio/documents/hf_p-vi_motu-proprio_19680630_credo.html
  5. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática DEI FILIUS , Sessão III, paragrafo 1783), (24-04-1870). Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/62815900/Constituicao-Dogmatica-DEI-FILIUS
  6.  Papa João Paulo IIAudiência Geral: "A participação dos anjos na história da salvação" (06 de agosto de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860806.html
  7. Papa João Paulo IIAudiência Geral: "Criador das coisas visíveis e invisíveis" (09 de julho de 1986). disponível em:http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860709.html
  8. Biblia Católica Ave Maria, 2 Pedro 2, 4-11. Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/ii-sao-pedro/2/
  9.  Papa João Paulo IIAudiência Geral (24 de Setembro de 2003). Diisponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/2003/documents/hf_jp-ii_aud_20030924.html
  10. Papa João Paulo IIAudiência Geral: "Criador das coisas "invisíveis": os anjos". Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860730.html
  11. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 2132. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap1_2083-2195_po.html
  12. Papa Francisco, Discurso (22 de dezembro de 2014). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2014/december/documents/papa-francesco_20141222_dipendenti-santa-sede-scv.html
  13. Santo Agostinho, A Cidade de Deus, volume I, 5ª edição, página 489. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2016.
  14. Catecismo da Igreja Católica, índice analítico, adoração (A.18.3), parágrafo 
  15. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, questão 108, artigo 5. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2048

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