27 de ago de 2016

O pecado dos Anjos




Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC)1, "os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial. Podem, no entanto, desviar-se. E, de fato, pecaram. Foi assim que entrou no mundo o mal moral,"1(311) que é "essencialmente a violação voluntária e livre da ordem desejada por Deus"2(245).

Esse pecado do anjo "foi-lhe obra posterior" à sua criação3. O diabo "pecou imediatamente depois do primeiro instante da sua criação."4, pois como diz a Escritura. "E viu Deus todas as coisas que tinha feito e eram muito boas. Ora, entre esses seres estavam também os demônios. Logo estes, algum tempo, foram bons."3.



" A Igreja no Concílio de Latrão (1215), ensina que o diabo (Satanás) e os outros demônios " foram criados bons por Deus, mas tornaram-se maus por sua própria vontade."6.



Ao serem criados os anjos, Deus lhes concedeu inteligência, vontade, livre-arbítrio, características que vimos anteriormente. E, por maior inclinação que o mais elevado de todos os anjos tivesse para o bem, ele podia escolher outro destino por vontade livre. Assim, o anjo pecador preferiu não se guiar pela ordem instituída por Deus. Seu pecado "não pressupõe a ignorância, mas somente a ausência de consideração das coisas que deviam ser consideradas."5


O pecado do diabo foi a soberba. Ele desejou "a semelhança com Deus"7. "Quis tê-la pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino"7, como também "desejou ter um certo principado sobre todos os outros seres."7

"Ao pecado da soberba seguiu-se no anjo pecador o mal da inveja, pela qual sofre, não só com o bem do homem, mas ainda com a excelência divina"14. "Sto. Agostinho via na inveja "o pecado diabólico por excelência""15

"Na inveja e soberba dos demônios se compreendem todos os pecados delas derivados."14. "Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer causado por sua prosperidade."(apud 15). "É por inveja do demônio que a morte entrou no mundo" (Sabedoria 2,24).

São Tomás de Aquino explica que "somente a soberba e a inveja são pecados puramente espirituais, que podem competir aos demônios."14, isto é, não pode existir nos anjos caídos pecados ligados à materialidade, ao corpo, pois eles são seres puramente espirituais. Assim, "os demônios não se deleitam com as obscenidades dos pecados carnais, como se as desejassem; mas tudo da inveja procede"14.

Assim, "Satanás, ou seja, o anjo caído, o espírito maligno, chamado também diabo ou demônio"6 "o espírito rebelde"8quis " o próprio reino, não o de Deus, e erige-se em "primeiro" adversário do Criador, em opositor da providência, em antagonista da sabedoria amorosa de Deus."8. Torna-se ""mentiroso", cósmico e "pai da mentira" (Jo. 8,44)
"6.

Por esse ato de vontade livre, de caráter radical e irrevogável, rejeitava Deus e seu Reino, usurpando-Lhe "os seus direitos soberanos e tentando subverter a economia da salvação e a própria ordem da criação inteira."6.



O pecado do diabo "foi causa de os outros pecarem, não os obrigando, mas os induzindo por uma quase exortação. E a prova disto resulta de se submeterem todos os demônios ao demônio supremo, como se vê manifestamente do que diz o Senhor, na Escritura: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e para os seus anjos. Pois, a ordem da divina justiça determina que quem consentiu na culpa, sugestionado por outrem, a este deve submeter-se, na pena, segundo a Escritura: Todos aquele que é vencido, é escravo daquele que o venceu."9.



Esse pecado "foi tanto maior quanto maior era a perfeição espiritual e a perspicácia cognoscitiva do intelecto angélico, quanto maior era a sua liberdade e a proximidade de Deus."6


"A Sagrada Escritura, contudo, não atribui aos demônios os nomes de certas ordens, como os dos Serafins e dos Tronos; porque esses nomes provém do ardor da caridade e da habitação com Deus, que não podem coexistir com o pecado. Atribuem-se-lhes, porém, os nomes de Querubins, Potestades e Principados, nomes derivados da ciência e do poder, comuns tanto aos bons como aos maus."10.

Devido a isso, Como já vimos na postagem da primeira hierarquia dos anjos, São Tomás de Aquino afirma que o "o primeiro anjo pecador não era denominado Serafim, mas Querubim."11.

A queda do querubim é descrita em Ezequiel 28, 12-19:

"Eras um selo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada. Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardônica, topázio e diamante, crisólito, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda; trabalhados em ouro. Tamborins e flautas, estavam a teu serviço, prontos desde o dia em que foste criado.
Eras um querubim protetor colocado sobre a montanha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo. Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniqüidade apareceu em ti.
No desenvolvimento do teu comércio, encheram-se as tuas entranhas de violência e pecado; por isso eu te bani da montanha de Deus, e te fiz perecer, ó querubim protetor, em meio às pedras de fogo.
Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza, arruinaste a tua sabedoria, por causa do teu esplendor; precipitei-te em terra, e dei com isso um espetáculo aos reis.
À força de iniqüidade e de desonestidade no teu comércio, profanaste os teus santuários; assim, de ti fiz jorrar o fogo que te devorou e te reduzi a cinza sobre a terra aos olhos dos espectadores.
Todos aqueles que te conheciam entre os povos ficaram estupefatos com o teu destino; acabaste sendo um objeto de espanto; foste banido para sempre!"
Assim, no uso do livre-arbítrio, esses espíritos criados "rejeitaram Deus e o seu Reino."6 E "Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento"(2 Pedro 2,4). "Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do Grande Dia"(Jd 1,6).



O pecado dos anjos não tem perdão, não porque haja falha na infinita misericórdia de Deus. Não é isso. Deus ama todas as suas criaturas, inclusive os anjos caídos. O que impede que o pecado dos anjos seja perdoado "é o carácter irrevogável da sua opção""1(393). Não há arrependimento por parte do deles. Eles permanecem "no seu pecado, porque estão eternamente "nas prisões" daquela escolha que fizeram no início, rejeitando Deus, sendo contra a verdade do Bem supremo e definitivo que é Deus mesmo."6.



Assim, dividiu-se o mundo dos espíritos puros em bons e maus, como foi citado na primeira postagem da série dos anjosOs anjos bons "escolheram Deus como Bem supremo e definitivo”. Os maus, “em vez de uma aceitação de Deus cheia de amor, opuseram-Lhe uma rejeição inspirada por um falso sentido de auto-suficiência, de aversão e até de ódio“8

"E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos; Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele."13.

O mundo "está todo sob o poder do Maligno"(1 Jo 5, 19). "O demônio é príncipe deste mundo, quero dizer, da parte mortal e ínfima da criação, isto é, ele é o chefe de todos os pecados e senhor da morte."2(184). "É o inimigo oculto que semeia erros e infortúnios na história humana."12 


E "embora Satanás exerça no mundo a sua ação, por ódio contra Deus e o seu reinado em Jesus Cristo, e embora a sua ação cause graves prejuízos – de natureza espiritual e indirectamente, também, de natureza física – a cada homem e à sociedade, essa ação é permitida pela divina Providência, que com força e suavidade dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério. Mas «nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm8, 28)."1(395). 


"O poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus."1(395). 

Na próxima postagem, veremos um pouco mais sobre o duplo destino dos anjos caídos.


Notas

1. Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 311. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html
2. Santo Agostinho, O Livre Arbítrio. SP, Paulus, 1995. 2ª edição. Página 245.
3. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 5. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2464
4. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2475
5. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 1. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2368 
6. Papa João Paulo II, Audiência: "A queda dos anjos rebeldes" (13 de agosto de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860813.html
7.  São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 3. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2392 
8. Papa João Paulo II, Audiência Geral: "Criador de anjos, seres livres" (23 de julho de 1986). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/es/audiences/1986/documents/hf_jp-ii_aud_19860723.html
9. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 8. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2486
10. São Tomas de Aquino, Suma Teológica, Parte I, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 9. disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2496
11. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Primeira Parte, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo 7. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/2485
12. Papa Paulo VI, Audiência Geral (15 de novembro de 1972). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/paul-vi/es/audiences/1972/documents/hf_p-vi_aud_19721115.html 
13. Bíblia Católica Ave Maria, Apocalipse 12,7-9. Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/apocalipse/12/
14. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Primeira Parte, Tratado dos Anjos, questão 63, artigo2. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/2374
15. Catecismo da Igreja Católica, índice analítico I.54: inveja, parágrafo 2539. Disponível em: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/h/inveja.html


Autoria: Betania Tavares
Desconheço o autor da imagem.

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