27 de set de 2016

Compreendendo o ato de orar

Iniciamos, hoje, uma série de postagens sobre oração. Primeiramente, nesta postagem, teremos a noção conceitual e posteriormente teremos postagens diversas sobre o orar, seus benéficos, sua importância na Igreja, etc., sempre de acordo com a doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.
O que é orar? Orar é um ato de amor, de vontade, de intelecto, no qual se estabelece uma relação com Deus, se fala com Ele. 
De amor, porque abrimos o nosso coração Àquele que nos ama infinitamente. Segundo o Catecismo da Igreja Católica(CIC)1, no parágrafo 2567: "Na oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é sempre uma resposta.".
De vontade, porque é "uma resposta decidida da nossa parte" (CIC 2725)2.
De intelecto porque orar "é própria da criatura racional"3. Orar é o ato de voltar a atenção a Deus; de ter consciência dos próprios atos e reconhecer-se pecador; de tomar consciência d'Aquele a Quem falamos; de expressar o que há na alma pelo silêncio, por orações e cânticos de suplica e louvor.
Quais as formas de oração? O CIC fala em 6 formas:
Bênção - " é o encontro de Deus com o homem"(CIC 2626)4, que se faz de "duas formas fundamentais: umas vezes, a bênção sobe, levada por Cristo no Espírito Santo, para o Pai (nós O bendizemos por Ele nos ter abençoado) (Ef 1, 3-14; 2 Cor 1, 3-7; 1 Pe 1, 3-9); outras vezes, implora a graça do Espírito Santo que, por Cristo, desce de junto do Pai (é Ele que nos abençoa) (2 Cor 13, 13; Rm 15, 5-6.13; Ef 6, 23-24)" (CIC 2627)4.
Adoração  - "É a prostração do espírito perante o «Rei da glória» (Sl 24, 9-10) e o silêncio respeitoso face ao Deus «sempre maior»"(CIC 2628)4.
Petição - é o ato de pedir. Em "Êxodo 32, 7-14 , "Moisés «fala livremente diante do Senhor». E fazendo assim «ensina-nos a rezar: sem medo, livremente, até com insistência». Moisés «insiste, é corajoso: a oração deve ser assim!».«quando rezamos a Deus, não é um diálogo a dois» mas a três, «porque sempre em cada oração está presente o Espírito Santo»"5. Jesus afirma: "Até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita." (Jo 16,24); " todo aquele que pede, recebe." (Mt 7,8)". E é na confiança de Sua Palavra que se faz a oração de petição. Com fé, esperança e amor, a criatura humana se volta ao Criador em busca de ajuda, de proteção. A oração de petição é "já um regresso a Ele."(CIC 2629)4 e o " pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição (...) é o preâmbulo da liturgia Eucarística, bem como da oração pessoal."(CIC 2631)4.
Intercessão - é pedir a favor de outrem. "Na intercessão, aquele que ora não «olha aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros» (Fl 2, 4), e chega até a rezar pelos que lhe fazem mal (cf. Act 7, 60; Lc 23, 28.34.)"(2635)4. "A intercessão dos cristãos não conhece fronteiras: «[...] por todos os homens, [...] por todos os que exercem a autoridade» (1 Tm 2, 1), pelos perseguidores (Cf. Rm 12, 14), pela salvação dos que rejeitam o Evangelho (Cf. Rm 10, 1)."(CIC 2636)4. São Tomás de Aquino afirma que "Orar pelos outros é obra de caridade"6 e orar pelos inimigos é "é obra de perfeição"6.
Ação de graças - é reconhecer que tudo é dom de Deus e agradecer a Ele pelos bens recebidos, pelas graças alcançadas. "As cartas de São Paulo muitas vezes começam e acabam por uma ação de graças, e nelas o Senhor Jesus está sempre presente: «Dai graças em todas as circunstâncias, pois é esta a vontade de Deus, em Cristo Jesus, a vosso respeito» (1 Ts 5, 18); «perseverai na oração; sede, por meio dela, vigilantes em acções de graças» (Cl 4, 2)."(CIC 2638)4.
Louvor - "é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus! Canta-O por Si próprio, glorifica-O, não tanto pelo que Ele faz, mas sobretudo porque ELE É. Participa da bem-aventurança dos corações puros que O amam na fé, antes de O verem na glória. Por ela, o Espírito junta-Se ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus (Cf. Rm 8, 16) e dá testemunho do Filho Único no qual fomos adotados e pelo qual glorificamos o Pai. O louvor integra as outras formas de oração e leva-as Aquele que delas é a fonte e o termo: «o único Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos» (1 Cor 8, 6)."(CIC 2639)4.
Como expressar o orar? " a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação."(CIC 2699) 2
Oração vocal se expressa mediante palavras,"mentais ou vocais"(CIC 2700)2. "Nós somos corpo e espírito e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. Devemos rezar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica a maior força possível".(CIC 2702)2. E "esta necessidade corresponde também a uma exigência divina. Deus procura quem O adore em espírito e verdade e, por conseguinte, uma oração que suba viva das profundezas da alma. Mas também quer a expressão exterior que associe o corpo à oração interior, porque ela Lhe presta a homenagem perfeita de tudo a quanto Ele tem direito."(CIC 2703)2.
"A oração vocal é, por excelência, a oração das multidões. Mas até a oração mais interior não pode prescindir da oração vocal. A oração torna-se interior na medida em que tomamos consciência d'Aquele «a Quem falamos»(...). Então, a oração vocal torna-se uma primeira forma da contemplação."(CIC 2704)2.
Meditação - busca "compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede. Exige uma atenção difícil de disciplinar. "(CIC 2705)2. Habitualmente, recorre-se à ajuda dum livro e os cristãos não têm falta deles: a Sagrada Escritura, em especial o Evangelho, os santos ícones (as imagens), os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, o grande livro da criação e o da história, a página do «hoje» de Deus."(CIC 2705)2. "Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: «Senhor, que quereis que eu faça?»."(CIC 2706)2. "A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir a Cristo. A oração cristã dedica-se, de preferência, a meditar nos «mistérios de Cristo», como na « lectio divina» ou no rosário."(CIC 2708)2. 
Contemplação - é " um olhar de fé fixo em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um amor silencioso.." (CIC 2724). "Nesta modalidade de oração pode, ainda, meditar-se; todavia, o olhar vai todo para o Senhor."(CIC 2709)2." A entrada na contemplação é análoga à da liturgia eucarística: «reunir» o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, habitar na casa do Senhor que nós somos, despertar a fé para entrar na presença d'Aquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar o nosso coração para o Senhor que nos ama, de modo a entregarmo-nos a Ele como uma oferenda a purificar e transformar."(CIC 2711)2. "A escolha do tempo e duração da contemplação depende duma vontade determinada, reveladora dos segredos do coração. Não se faz contemplação quando se tem tempo; ao invés, arranja-se tempo para estar com o Senhor, com a firme determinação de não Lho retirar durante o caminho, sejam quais forem as provações e a aridez do encontro. Não se pode meditar sempre; mas pode-se entrar sempre em contemplação, independentemente das condições de saúde, trabalho ou afectividade. O coração é o lugar da busca e do encontro, na pobreza e na fé. "(CIC 2710)2. É preciso consentir em velar uma hora com Ele (Mt 26, 40-41)."(CIC 2719)2
Segundo Papa Bento XVI, Maria é modelo insuperável de contemplação a Cristo:
"O rosto do Filho pertence-lhe a título especial, porque foi no seu seio que se formou, assumindo dela também um semblante humano. Ninguém se dedicou à contemplação de Jesus com tanta assiduidade como Maria. O olhar do seu coração concentra-se sobre Ele já no momento da Anunciação, quando O concebe por obra do Espírito Santo; nos meses seguintes sente pouco a pouco a sua presença, até ao dia do nascimento, quando os seus olhos podem fixar com ternura materna o rosto do Filho, enquanto o envolve em faixas e o coloca na manjedoura. As recordações de Jesus, gravadas na sua mente e no seu coração, marcaram cada momento da existência de Maria. Ela vive com os olhos postos em Cristo e valoriza cada uma das suas palavras. «Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19), assim apresenta são Lucas a atitude de Maria diante do Mistério da Encarnação, atitude que se prolongará por toda a sua existência. Lucas é o evangelista que nos faz conhecer o Coração de Maria, a sua fé (cf. 1, 45), a sua esperança e obediência (cf. 1, 38), a sua interioridade e oração (cf. 1, 46-56), a sua adesão livre a Cristo (cf. 1 55). E tudo isto procede do dom do Espírito Santo que desce sobre Ela (cf. 1, 35), como descerá sobre os Apóstolos segundo a promessa de Cristo (cf. Act 1, 8). Esta imagem de Maria apresenta-a como modelo de cada crente que conserva e confronta as palavras e as acções de Jesus, um confronto que é sempre um progredir no conhecimento d’Ele. Na esteira do beato João Paulo II (cf. Carta ap. Rosarium Virginis Mariae) podemos dizer que a recitação do Rosário tem o seu modelo precisamente em Maria, porque consiste em contemplar os mistérios de Cristo em união espiritual com a Mãe do Senhor. A capacidade de Maria de viver do olhar de Deus é, por assim dizer, contagiosa."11
De onde brota a oração? "Seja qual for a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que ora. Mas para designar o lugar de onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito ou, com mais frequência, do coração (mais de mil vezes). É o coração que ora. Se ele estiver longe de Deus, a expressão da oração será vã." (CIC 2562)1.

Quais características deve ter quem ora? Jesus nos ensina isso em três parábolas do Evangelho de Lucas, que são as "três parábolas principais sobre a oração" (CIC 2613)2:
"A primeira, a do «amigo importuno» (Lc 11, 5-13), convida-nos a uma oração persistente: «Batei, e a porta abrir-se-vos-á». Aquele que assim ora, o Pai celeste «dará tudo quanto necessitar» e dará, sobretudo, o Espírito Santo, que encerra todos os dons.
A segunda, a da «viúva importuna» (Lc 18, 1-8), está centrada numa das qualidades da oração: é preciso orar sem se cansar, com a paciência da fé. (...)
A terceira, a do «fariseu e do publicano» (Lc 18, 9-14), diz respeito à humildade do coração orante. «Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador»."
Assim, Jesus, como "bom pedagogo"(CIC 2607)2, mostra que as características desejáveis são: persistência, paciência e humildade.

O que pedir na oração? Jesus nos ensina que devemos buscar "em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo."(Mt 6, 33). "Quando, nas nossas orações, pedimos o necessário à salvação, conformamos a nossa vontade com a de Deus, da qual diz a Escritura, que quer que todos os homens se salvem.", diz São Tomás de Aquino7.
Para Santo Agostinho, devemos pedir primeiro o "reino de Deus, como nosso bem" e "os bens temporais, em segundo lugar". Os bens temporais são desejáveis "enquanto conservam a saúde do corpo e servem para mantermos o estado conveniente à nossa pessoa, de modo a não ser penosa para os outros a nossa convivência. Por onde, quando os temos, devemos orar para não os perdermos; e quando não os temos, para que os consigamos"(apud 8)

Por quem orar? São Tomás de Aquino nos instrui que "devemos desejar o bem, não só para nós, mas também para os outros (...) a caridade exige que oremos pelos outros"9
Segundo São João Crisóstomo, "A necessidade obriga a orarmos por nós; e a orar pelos outros a caridade fraterna nó–la exorta. Ora, perante Deus, é mais doce a oração que não se funda na necessidade, mas se inspira na caridade fraterna."(apud 9).

Deus pode nos negar o pedido? São Tomás de Aquino afirma que "pode acontecer às vezes, que a oração feita em benefício de outrem, mesmo se for pia, perseverante e pedir o que lhe respeita à salvação, não consiga o que pede, por causa de algum impedimento por parte daquele por quem oramos, conforme àquilo da Escritura: Ainda que Moisés e Samuel; se pusessem diante de mim, não está a minha alma com este povo."9

Quais os lugares favoráveis à oração? O Catecismo, parágrafo 269110, dá a resposta:
"igreja, casa de Deus, é o lugar próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial. É também o lugar privilegiado para a adoração da presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento. (...)
para a oração pessoal, pode servir um «recanto de oração», com a Sagrada Escritura e ícones (imagens) para aí se estar «no segredo» diante do Pai (Mt 6, 6). Numa família cristã, este gênero de pequeno oratório favorece a oração em comum;
nas regiões onde existem mosteiros, tais comunidades estão vocacionadas para favorecer a participação dos fiéis na Liturgia das Horas e permitir a solidão necessária para uma oração pessoal mais intensa (II Concílio do Vaticano, Decr. Perfectae caritatis, 7: AAS 58 (1966) 705);
as peregrinações evocam a nossa marcha na terra para o céu. São tradicionalmente tempos fortes duma oração renovada. Os santuários são, para os peregrinos à procura das suas fontes vivas, lugares excepcionais para viver «em Igreja» as formas da oração cristã."
Quando orar? "Tiago (Tg 1, 5-8) e Paulo nos exortam a orar em todas as ocasiões (Ef 5, 20; Fl 4, 6-7; Cl 3, 16-17; 1 Ts 5, 17-18)."(CIC 2633)"A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua. Alguns são quotidianos: a oração da manhã e da noite, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O Domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração. O ciclo do ano litúrgico e as suas grandes festas constituem os ritmos fundamentais da vida de oração dos cristãos."(CIC 2698)2.

Assim, o " O Senhor conduz cada pessoa pelos caminhos e da maneira que Lhe apraz. Por seu turno, cada fiel responde-Lhe conforme a determinação do seu coração e as expressões pessoais da sua oração."(CIC 2699)2.

Na próxima postagem, veremos que o livro do Salmos é um livro que nos ensina a orar com as Palavras de Deus.

Nota
1.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos  2558-2565. disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4-intr_2558-2565_po.html
2.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2697-2758. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4s1cap3_2697-2758_po.html
3. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 10. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/4363
4. Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 2566-2649. Disponível em http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p4s1cap1_2566-2649_po.html
5. Papa Francisco, meditações matutinas: "Um amigo ao qual orar" (03 de abril de 2014). Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2014/documents/papa-francesco_20140403_meditazioni-44.html
6. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 8. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/3978
7. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 5. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/3975
8. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 6. Disponível em: http://permanencia.org.br/drupal/node/3976
9. São Tomás de Aquino, Summa Teológica, IIa IIae parte, tratado sobre a justiça,  questão 83, artigo 7. Disponível em:http://permanencia.org.br/drupal/node/3977
10.Catecismo da Igreja Católica, parágrafos  2650-2696. disponível em:
11. Papa Bento XVI, Audiência Geral: "A oração e a Santa Família de Nazaré" (28 de dezembro de 2011). Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20111228.html
12.Desconheço a autoria da imagem.


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