10 de set de 2016

Diferença entre o temor a Deus e ao demônio


"Não temais aqueles que matam o corpo, 
mas que não podem matar a alma; 
temei antes aquele 
que pode precipitar a alma e o corpo na geena."
 (Mt 10,28)

Segundo o sacerdote espanhol José Antonio Forteo, teólogo especializado em demonologia, este versículo bíblico tem, além do ensinamento de que não devemos nos preocupar "pelos males dessa vida, senão pelos da futura e perpétua", um "sentido bem mais profundo", o qual eu transcrevo abaixo:
"A mensagem mais sutil é a de que ninguém pode levar-nos ao inferno, senão Deus. Nem homens, nem demônios. Só Deus é o juiz, só Ele pode nos enviar àquele lugar.
Daí que o que nos diz o versículo é que se vivemos neste mundo, para a eternidade, não há razão para temer ninguém. Só o juiz eterno. O versículo, portanto, seria uma incitação ao santo temor de Deus.
O temor ao demônio é pelos males que nos possa causar na vida material(enfermidades, desgraças) ou na vida espiritual (nos fazer pecarou nos condenar). Mas tais males não estão em sua mão. As desgraças e doenças só chegarão a nós se assim Deus o permitir. O pecado é condenação somente se nós quisermos. Logo, o temor ao demônio não faz sentido, pois tudo está nas mãos de Deus. O temor ao demônio está, portanto, teologicamente infundado, não faz sentido.  Com Deus não há razão para temer o demônio. Ser crente e temer ao demônio é uma contradição.
O temor do demônio parte do pressuposto de uma verdadeira falta de fé na onipotência de Deus, uma verdadeira desconfiança em Seu cuidado amoroso, e uma verdadeira ofensa a Sua santidade, pois um Deus que permitisse sem razão alguma o sofrimento de Seus filhos seria um Deus injusto. O temor ao demônio, portanto, é negativo. Falo, certamente, do temor consentido, não do sentimento. O sentimento de medo para esse ser é inevitável para algumas pessoas e está acima de suas forças, como para outras é o temor das alturas ou às serpentes.
Se o temor ao demônio é negativo, o santo temor de Deus é dom do Espírito Santo. É o temor de ofendê-Lhe, o temor de perder-Lhe e, sobretudo, o temor que nos produz comparecer ante à santidade de Sua presença, sabendo - como o sabemos - que somos nada e indignos. Chegará um dia em que, no Reino dos Céus, quando já não temeremos nem Lhe perder, nem Lhe ofender, pois será impossível, ainda manteremos, por toda a eternidade, o santo temor de Deus. Nem contemplando-O a cada dia, nem contemplando-O como Pai, perderemos este santo dom.Pelo contrário, seremos ainda mais conscientes da infinita distância entre siua grandeza e nossa pequenez. Esse dom de Deus leva-nos a ser mais agradecidos por permiti-nos estar diante d'Ele sem merecê-lO. É um temor bom que não é contrário ao amor, pois o aperfeiçoa.
Claro que há o temor mau de Deus que leva ao desespero, e desse medo São João fala em sua Epístola. Esse medo o incita ao demônio, enquanto o temor de Deus é um dom do Espírito Santo. 
O maravilhoso e profundo versículo do capítulo 10 de Mateus é como se nos dissesse: não deveríeis temer a nada nem a ninguém, mas se temeis (...), temei aquele que provoca males eternos e não os males deste mundo. Mas as mesmas palavras , exatamente as mesmas, que nos dizem ao mesmo tempo: mas, em verdade, temei só a Deus que é o juiz da eternidade.
Bem se vê, é um versículo com duas peças internas que parecem contraditórias, mas que formam  um quebra-cabeça que se encaixa do modo mais inteligente possível.

Fonte: Summa Daemoníaca. SP: Palavra e Prece, 2010. páginas 94 e 95 (parte V, questão 68)

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