12 de nov de 2016

A Eucaristia e o Rosário segundo Pe. Antônio Vieira

Padre Antônio Vieira (1608 - 1697), em seu "Sermão de Nossa Senhora do Rosário", feito em 1654, mostra o proveito que nossas almas podem alcançar ao unir a meditação dos mistérios do Rosário com  o Comungar o Corpo e Sangue de Cristo. E para que você possa apreender este belo ensinamento, transcrevo aqui trechos desse Sermão:
"Naquele misterioso Livro (...) Cantares, descreve Salomão, em alto e metafórico estilo o corpo místico da Igreja Católica. E discorrendo particularmente por todos os membros e partes de que se compõem, com louvor da formosura, e declaração do ofício de cada um, chega finalmente àquela oficina universal, onde se recebe o alimento, e convertido em sangue se reparte por todo o corpo, e diz que o ventre da Igreja é semelhante a um monte de trigo, cercado ou valado de rosas.
(...) ninguém duvida que o trigo no ventre da Igreja é o Diviníssimo Sacramento do Altar, (...)Nem também se pode duvidar, que as rosas que cercam o trigo sejam as do Rosário.
(...) Sendo pois o Trigo do nosso texto o Santíssimo Sacramento, e as rosas que o cercam o Santíssimo Rosário, muita razão terá a devoção de todos os que com tanta piedade se ajuntam aqui nesta hora ao rezar, ou cantar a coros: muita razão, digo, terá de querer ouvir e saber que conveniência ou proporção tem o Rosário com o Sacramento; e que utilidades poderão conseguir os que unirem entre si estas duas grandes devoções, a de frequentar o Sacramento, e a de rezar o Rosário. Para eu o poder declarar com proveito de nossas Almas, que desejo e espero, no Diviníssimo Sacramento temos a fonte da Graça, e na Senhora do Rosário a melhor intercessora: Ave Maria.
Maravilhosa foi a visão que teve em sonhos Faraó Rei do Egito, quando viu aquelas catorze vacas, sete das quais eram fortes, corpulentas e pingues, e as outras sete vacas, secas e macilentas. E o que muito acrescentava a razão da maravilha, e ainda o temor que concebeu o Rei, foi que todas pastavam nos mesmos campos e ribeiras do Rio Nilo, e essas não secas mas verdes: Et pascebantur in ipsa amnis ripa in locis virentibus. O Nilo da Igreja Católica é a graça divina. Esta graça, como o mesmo Nilo, se divide em sete canais, que são os sete Sacramentos, por meio dos quais, como por sete bocas, se comunica a nossas Almas. O Sacramento porém entre os demais que particularmente as sustenta, é o santíssimo Sacramento do Altar, verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Cristo que temos presente. E que grande admiração, Fiéis, que grande admiração, que grande confusão, e que grande temor nos deve causar olhar para a Almas que se sustentam daquele pasto divino, e ver a notável diferença delas? Não falo das que chegassem à Comunhão em constância de pecado porque não quero supor tão horrendo e atroz sacrilégio; falo só das Almas cristãs(que as outras não merecem este nome), e das que a seu parecer comungam cristãmente. Quantos leigos comungam muitas vezes, quantos Sacerdotes celebramos todos os dias. E onde estão aqueles efeitos de Cristo se transformar em nós, e nós em Cristo: In me manet, et ego in illo? Grande bem do mundo seria, e grande glória da Igreja, se cada catorze Almas que chegam ao Sacramento, fossem sete as que se aproveitassem do pasto, e se luzisse nelas; mas todas pela maior parte cheias de imperfeições e misérias, todas fracas, todas secas, todas macilentas, e ainda, e como diz o Texto, tais que faz asco olhar para elas: Foedae, confectaeque macie.
Ora eu buscando a causa desta diferença tão notável, e qual possa ser o defeito ou impedimento porque se não logram, e luzem em nós os efeitos dese soberano manjar; acho que sem consciência do pecado, a causa não pode ser outra senão a falta de digestão. Comemos a Cristo no Sacramento, mas não o digerimos. Cristo Senhor nosso disse que o seu Santíssimo Corpo no Sacramento é verdadeira comida: Caro mea vere est cibus [Jo 6,55 "Porque a minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida.]; E por quê? Não só porque foi instituído para alimento de nossas Almas, senão também porque no modo de alimentar tem as mesmas propriedades do mantimento corporal; E o mantimento corporal que se come, e não se digere, por mais substancial e esquisito que seja, não faz nutrição, nem se converte em substância. Lá diz o aforismo vulgar da medicina: Non quod ingeritur, sed quod digeritur, que o que alimenta, nutre, aumenta, e dá forças e vigor ao vivente, não é o comer que ele toma na boca, e recebe dentro de si, senão o que digere. 
(...) A nutrição é aquela que reparte por todas as veias e membros do corpo a substância e virtude do que se come: e o mesmo faz aquele soberano manjar (diz São Pedro Damião) quando se recebe não só no peito do corpo, senão no estômago da Alma, e nele se digere (...) Este soberano manjar, e néctar do Céu (diz o Santo) não só se recebe com grande suavidade no estômago da Alma, mas dali se difunde por todas as veia do corpo e membros, e reparte e comunica a todos os membros do nosso corpo a virtude e virtudes do corpo e membros de Cristo, que na substância e realidade do que comemos se encerra. Nos olhos do que assim comunga, aparece logo a modéstia dos olhos de Cristo; na língua o silêncio e moderação das palavras de Cristo; no coração os afetos e desejos do coração de Cristo; nos pés a compostura e madureza dos passos de Cristo; nas mãos a inocência, a mansidão, e a caridade das ações de Cristo; e finalmente, em todo o homem que comeu a Cristo. E qual a razão, Cristãos, porque em muitos de nós depois de comungarmos uma e muitas vezes, se não veem os mesmos efeitos, senão outros tão diversos, e totalmente contrários? A razão é,(...), porque comemos no Sacramento de Cristo, mas não o digerimos: Ingeritur, sed non digeritur.
 (...) Bendita seja, e para sempre bendita, a gloriosíssima Mãe de Deus, que assim como deu a seu Filho a carne e o sangue, de que compôs esta soberana iguaria, assim também compadecida de nossa fraqueza, nos proveu de um remédio tão fácil como eficaz para a inteira e perfeita digestão dela. (...) Sabeis que faz a devoção do Rosário junta com a comunhão do Sacramento? Faz que se digira em uma tudo o que se come na outra; porque o mesmo Cristo que no Sacramento se come, no Rosário se digere. Isto é o que vos quero provar, e persuadir hoje.
Digo pois, primeiramente, que o Sacramento é o Rosário indigesto, e o Rosário é o Sacramento digerido. O Sacramento é o Rosário indigesto porque  no Sacramento estão todos os mistérios da Redenção reduzidos a um só mistério;  E o Rosário é o Sacramento digerido, porque no Rosário está o mesmo mistério da Redenção dividido e estendido em quinze mistérios. No Sacramento, está o Rosário indigesto , porque o Corpo de Cristo que ali está realmente, está vivo, está morto, está ressuscitado sem distinção; E, no Rosário está o Sacramento digerido, porque enquanto Cristo vivo, está a sua vida distinta em cinco mistérios, que são os gozosos; enquanto morto, está a sua morte distinta em outros cinco mistérios, que são os dolorosos e enquanto ressuscitado, está a sua ressurreição distinta em outros cinco, que são os gloriosos. E essa é a razão porque o mesmo Sacramento, quando se consagra e oferece a Deus no sacrossanto Sacrifício do Altar, umas vezes se chama mistério, e outras mistérios. Mistério, porque indigesto e sem distinção é um só mistério; mistérios, porque digesto e distintamente considerado, é e encerra em si muitos mistérios.
(...) Cristo no Sacramento está indigesto porque os mistérios de sua vida, morte e ressurreição, que ali se contêm, não estão repartidos e digestos, senão juntos indistintamente (...) digerir essas coisas indigestas e por cada uma em seu próprio lugar com notas ou nomes certos , que as demonstrem, é obra de ânimo divino: Sed manifesta notis certa disponere sede singula, divini est animi. E isto é o que faz a Virgem Senhora nossa na  maravilhosa arquitetura do Rosário, dispondo e ordenando os mistérios da mesma vida, morte e ressurreição de seu Filho, e distinguindo a diferença deles com as notas e nomes  diversos de gozosos, dolorosos e gloriosos, e pondo uns no primeiro, outros no segundo, outros no terceiro lugar, assim como sucederam e se foram continuando, e todos em número e correspondência igual, para maior harmonia de toda a fábrica.
Agora, vede como digerir deste modo o indigesto é obra verdadeiramente de ânimo divino: Divini est animi. (...)
(...) se Deus se digeriu a Si mesmo, distinguindo a sua divindade, e multiplicando a sua unidade em três Pessoas; porque não faria a Mãe de Deus outra obra semelhante em Cristo sacramentado, digerindo os mistérios de sua humanidade na ordem e divisão de outras três partes distintas? Santo Ambrósio, comentando o nosso Texto, diz que o trigo e as rosas ambos foram partes da Virgem Santíssima (...) Ao trigo, deu a Senhora como Mãe e matéria; e às rosas, também como Mãe, a forma. Ao trigo deu a matéria: porque deu a Cristo a carne e o sangue de que instituiu o Sacramento; e às rosas deu a forma: porque dos mistérios da vida, morte e ressurreição do mesmo Cristo formou e distinguiu o Rosário. (...)
Temos visto em comum como o Sacramento é o Rosário indigesto e o Rosário o Sacramento digerido; e que assim como por meio do Sacramento comemos a Cristo, por meio do Rosário o digerimos. Resta agora ver como se faz essa soberana digestão e como nós havemos de juntar o Rosário ao Sacramento, para que por meio dela recebam nossas almas a nutrição e o alimento espiritual, para que o mesmo Sacramento e o mesmo Rosário foram instituídos (...)
(...)Assim como o comer corporal por mais bem feito e bem preparado que esteja, não basta que o homem o coma, se as potências interiores do mesmo homem, que são os instrumentos de nutrição, não obrarem; da mesma maneira para as Almas se nutrirem e cobrarem forças, não basta que comunguem a Cristo no Sacramento, se os mesmos mistérios que o Senhor tem obrado, elas os não tornarem a obrar com todas as suas potências. E isto é o que se faz no Rosário.
Aristóteles e Galeno, descrevendo a fábrica da nutrição, para a qual formou a natureza várias oficinas e instrumentos, reduzem toda a operação delas a três potências principais: uma que recebendo retém, outra que alterando assemelha, outra que unindo converte. E tudo isto obra o Rosário por meio das três potências de nossa Alma nos mistérios da vida, morte e paixão de Cristo, de que ele se compõe, e não só em todos, senão em cada um. Com a potência da memória recebe e retém o mistério por meio da apreensão; com a potência do entendimento altera-o e assemelha-o a si (ou a si a ele) por meio da meditação; e com a potência da vontade converteu e uniu em si mesma por meio da imitação. (...) Não instituiu a Senhora o Rosário para o rezarmos só com a boca, e com tanta pressa, como se passam as contas; mas para ter na memória os mistérios, para os meditar e cuidar neles com grande consideração, e para os tomar como exemplo, e os aplicarmos em nossas vidas.
Quanto à memória, esta foi a primeira que Cristo Senhor nosso nos encomendou, quando instituiu o Santíssimo Sacramento (...) a memória é aquela em que se faz a primeira decocção deste soberano manjar (...) Santo Agostinho, excelente filósofo da memória no-lo ensinou, e já antes dele tinha definido Platão (...). O estômago da Alma é a memória porque assim como no estômago do corpo se recebe e retém o comer corporal, e ali se faz a primeira decocção, assim esta potência é a primeira que há de receber e recolher dentro de si o Divino sacramento, lembrando-se não de passagem senão muito devagar (como se faz no corpo) e representando à Alma quem é o que está presente naquele mistério e os mistérios altíssimos que nele se encerram (...) a memória cuja propriedade é fazer presentes as coias ausentes, no-lo há de fazer presente.
(...) E o entendimento que faz? Olha para eles [os mistérios] com grande consideração, meditando-os, e por meio desta vista considerada e atenta se assemelha ao que vê, que é o efeito da segunda decocção. (...) No Céu, diz São João que havemos de ser semelhantes a Deus porque o havemos de ver assim como é (...) De sorte que Deus visto no Céu é como um espelho às avessas: porque não é ele o que se há de fazer semelhante a nós, senão nós os que havemos de ser semelhantes a ele.  E isto que então há de ser por meio da visão beatífica, e vista clara de Deus, isso mesmo é o que agora fazemos por meio da meditação e vista escura do sacramento. Oh se viramos e considerávamos atentamente o que debaixo daquele Divino Pão se encerra, quão aumentadas e bem nutridas haviam de andar as nossas Almas, que hoje se veem tão desmedradas e desfalecidas! Comemos com os olhos do entendimento e da consideração fechados, e por isso se não luz, nem logra o que comemos. Ouvi a Salomão (...): Abri os olhos, e comei de tal modo o pão, que fiqueis abastado e satisfeito. E que Pão é este, que não farta, nem satisfaz, nem se logra, se se não come com os olhos abertos? Daqui infere São Jerônimo, que este Pão é o do Santíssimo Sacramento, e não o Pão comum, de que nos sustentamos(...).Mas por esta mesma razão parece que nos havia de mandar Deus, que fechássemos os olhos, e não que os abríssemos; porque o sacramento do Altar é por antonomásia o mistério da Fé, e a Fé há de ser cega, e crer a olhos fechados. Assim é. Mas por isso mesmo nos manda Deus, que abramos os olhos; porque se não há de contentar o nosso entendimento só com crer o que não se vê naquele mistério com os olhos fechados; mas com ver e considerar muito atentamente os mistérios que nele se encerram, com os olhos abertos(...).
Assim vê com os olhos interiores a Alma, e assim contempla e considera os profundíssimos mistérios da Vida, Morte e Ressurreição de Cristo, que naquele compêndio de maravilhas, não tanto de Onipotência, quanto de Bondade Divina estão pelos Sacramentos ocultos, e pelo Rosário manifestos.
(...) com a meditação atenta de seus mistérios, e estando já semelhante pela operação do entendimento, entra a terceira e última, que é a vontade, na qual se aperfeiçoa e consuma a nutrição, unindo-se o que se comunga e medita, ao mesmo Cristo comido e meditado e incorporando-se nele. Diga-nos isto compendiosamente S. Bernadino de Sena; porque do que fica declarado na primeira e segunda decocção se entende sem nova repetição esta última (...) Como a meditação do entendimento cresce, diz ele [São Bernadino de Sena], o amor na vontade (...) e com este calor sobrenatural que é instrumento imediato de todas as três digestões, se une o que comunga por caridade a Cristo, e quanto mais se assemelha pelo entendimento a ele, tanto mais se incorpora pela vontade com ele: Eique magis ac magis assimilatur, et incorporatur.
(...)Todas as vezes que chego ao santíssimo sacramento, diz o devotíssimo Bernardo, ali me mudo, ali me assemelho, ali me transformo. E, por que modo se mudava; por que modo se assemelhava; por que modo  se transformava aquela Alma pura? Por digestão, por concocção, e por união, que são as três operações com que se aperfeiçoa a nutrição da alma (...) E para que ninguém duvide, que tudo se consegue por virtude do Rosário, e meditação dele; tudo isto disse S. Bernardo, comentando aquele lugar dos cantares, em que se diz que o Senhor Sacramentado se apascenta entre rosas: qui pascitur inter lilia.
(...) o que por conclusão vos peço em nome do mesmo Cristo sacramentado, e da mesma Virgem do Rosário, é que para conseguir os efeitos daquele Divino manjar, vós não contenteis só com vozes do que rezais, senão com uma meditação mui atenta de seus soberanos mistérios (...) assim nós depois de comungar havemos de meditar e considerar com muita atenção, de quem é o Corpo e sangue, e quais são os mistérios de nossa Redenção, que com ele e por ele foram obrados (...) meditando e considerando não só de passagem, e de corrida, senão muito devagar, e com grande atenção os mistérios do mesmo Sangue, preço de nossa Redenção, que são todos os do Rosário; porque na Encarnação tomou o Filho de Deus a nossa carne e sangue; na Paixão, padeceu na carne, e derramou o sangue; e na Ressurreição tornou a unir o sangue à carne, que é tudo o que contém no Sacramento o Corpo e Sangue de cristo, e tudo o que nós no Rosário digesta e distintamente consideramos.
E se me perguntares quando se há de fazer esta meditação, e qual é o tempo em que se hão de ruminar estes mistérios (que é o ponto muito essencial nesta matéria) (...) eu digo que há de ser depois de comungar, e antes de comungar, e sempre e todos os dias (...) Pois assim como o Rosário se reza todos os dias, assim o Sacramento se digere todos os dias (...) Os que comungam de oito em oito dias, hão de ruminar aqueles mistérios todos os dias da semana; os que comungam de mês em mês, todos os dias do mês; e isto sem mudar ou acrescentar outro exercício, senão meditando e ruminando atentamente o mesmo Rosário que rezam. Dos que só comungam de ano em ano, não falo porque estes não são devotos do Rosário nem do Sacramento, e se pode duvidar se são Cristãos. (...)
Seja pois a conclusão de tudo, que unindo a meditação do Rosário com o Santíssimo sacramento, e a comunhão do santíssimo sacramento com o Rosário, digiram as nossas almas em um, o que comem no outro; de tal sorte que aquele Divino Pão cresça em nós a grandeza de um monte: Sicut acrevus tritici. E das rosas, com que a Virgem do Rosário o cerca nesta vida: Vallatus lilis; nos teça na outra, como faz a seus devotos, uma Coroa de Glória etc."

Fonte: Padre Antônio Vieira, Sermão Nossa Senhora do Rosário com o Santíssimo Sacramento. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=16413&co_midia=2

 
 

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