8 de nov de 2016

Humanidade de Jesus e humanismo

Malachi Martin,  eminente teólogo, ex-assistente do Cardeal Bea durante o pontificado de João XXIII e um dos poucos que tiveram o privilégio de conhecer o Terceiro Segredo de Fátima, nos deixou um sábio ensinamento sobre o humanismo em um capítulo do seu livro " Reféns do Diabo". E, por considerar instrutivo esse capítulo, eu compartilho aqui alguns trechos dele.

Inicialmente, Malachi Martin conceitua humanismo não como "condição física nem psicofísica"[p.411] e sim como "uma capacidade espiritual possuída por cada homem, mulher e criança."[p.411] devido a qual "somos aptos de crer em Deus e de atingir a felicidade infinita em nossa condição após a morte. Devido apenas a ela [capacidade de espírito] podemos perceber a beleza e a verdade neste universo humano. E, assim, percebendo-as, podemos reproduzi-las em nossas ações." [p.411]

Segundo Martin, essa capacidade espiritual é devida a Jesus de Nazaré.  Foi pela vida mortal de Jesus que tomamos conhecimento deste humanismo. "Como homem , ele viveu por não mais de 50 anos, o mais próximo que podemos calcular. Mas todas as suas realizações foram de um Deus feito homem."[p.411]. Jesus tornou possível a todos terem esta capacidade de espirito. "Todos, portanto, são capazes de humanismo.".

E todo esse humanismo depende da trilogia "desamparo, amor e morte":  
"À medida que as nossas próprias vidas continuam, sabemos apenas que. por nós mesmos, nos tomamos cada vez mais desamparados* de todas os modos, que o nosso amor* humano que tanto desejamos parece se tomar vão e fraco; e que todos nós, com todas as nossas aspirações e esperanças, devemos terminar na escuridão silenciosa e no segredo emudecido da morte*. Jesus superou o desamparo. Aceitou o amor humano. Morreu vitoriosamente." [p.411].
Para Martin, "sem nenhuma dúvida Jesus passou toda sua vida alcançando a perfeição do seu humanismo." [p.412]. Mas foi nas últimas semanas de sua vida que "vemos que os passos finais da consecução do humanismo de Jesus".

Vejamos com mais detalhes como foi essa plenitude do humanismo de Jesus em cada um dos elementos dessa trilogia:

1º - Vitória sobre o desamparo: ressurreição de Lázaro [p. 412-413]
"Durante toda a sua vida tal como descrita nos anais, Jesus demonstrou um domínio constante sobre as pessoas, acontecimentos e coisas. Nunca houve qualquer vacilação ou hesitação em suas ações. Agiu em seu próprio nome com uma autoridade nunca impregnada de autoritarismo ou arrogância, mas ao mesmo tempo não tolerou nenhuma recusa. "Amém! Amém! Eu digo a vocês." Tudo foi decisivo. Dava ordens aos homens e mulheres, espíritos malignos, amigos, inimigos e elementos. Lidando com pessoas ou autoridades públicas, mantinha sempre o mesmo comportamento: Não reconhecia ninguém como superior a ele próprio: elogiava, censurava e condenava como achava conveniente, nunca recuou diante de qualquer outro homem como seu senhor ou tão grande quanto ele próprio.
Sempre que fazia milagres ou ordenava que fizessem alguma coisa, suas instruções e ordens eram claras, concisas, supremamente confiantes e diretas: "Saia deste homem." "Fique limpo! " "Levante-se e ande! " "Vá se apresentar aos sacerdotes! " "Fique curado! " "Levante-se e ande! " "Ouça! " Foi apenas na ressurreição de Lázaro que Jesus demonstrou uma dependência, uma hesitação demorada, uma dúvida - e que ele reconheceu o seu desamparo.
É evidente pelo Evangelho que no túmulo de Lázaro, Jesus sentiu uma onda de desamparo. Na verdade, o seu comportamento, desde o momento em que as duas irmãs de Lázaro, Marta e Maria, mandaram chamá-lo, foi tão pouco característico que se pode chamar de indeciso. Como se ele estivesse passando por um momento de espera, um período de desconhecimento e apreensão que nós humanos chamamos de dúvida. Primeiramente, declarou que , "o fun da doença de Lázaro não é a morte". Depois, "O nosso amigo Lázaro está dormindo. Mas irei lá e o acordarei". Finalmente: "Lázaro está morto." Ele retardou sua partida por dois dias. Depois passou mais dois dias viajando.
Quando Jesus chegou a Betania, onde Lázaro, Marta e Maria tinham suas propriedades, Lázaro havia sido enterrado. Desde o momento da sua chegada o comportamento de Jesus foi peculiar e invulgar. Quando encontrou as irmãs chorando, ficou perturbado, suspirou e chorou abertamente. No túmulo propriamente dito declarou publicamente sua confiança pessoal em Deus e sua dependência dele - aparentemente uma necessidade que acabara de sentir naquele momento.
Olhando para o céu , disse em voz alta:
- Pai! Agradeço-vos por escutar a minha súplica. Eu próprio sei que vós sempre me escutais. Mas estou falando por causa das pessoas de pé à minha volta, para que elas acreditem que vós me mandastes.
Podemos apenas imaginar, comparando com a nossa própria condição, a aflição que Jesus sentiu . Ele, que nunca hesitara, hesitou. Ele que ordenou pessoalmente, em seu próprio nome, teve que esperar pela aprovação antes de ordenar. Nos anos anteriores da vida de Jesus pode ter havido outros momentos desses. Mas esta experiência no túmulo de Lázaro é a única registrada na qual o exercício do poder divino de Jesus dentro da ordem humana foi conseguido apenas após uma experiência curta, mas intensa, de desamparo.

Sem diminuição da sua divindade, e só para que o seu humanismo fosse alcançado, ofereceram a Jesus, nessa ressurreição de Lázaro, a aresta humana de receios e probabilidades. Ele teve as mesmas alternativas, nesse momento, que todos nós temos em certos instantes decisivos durante todas as nossas vidas. Uma alternativa diz : "Fique com os seus receios. Com as probabilidades. Com as suas impotências. Aceite-as. É assim que são as coisas. Essa é a vida." Outra alternativa diz : "Declare-se impotente e incapaz, e peça ajuda para transcender todo o seu desamparo e impotências. Diz: 'Estou desamparado. Aju de-me! Incerto como estou, ajude-me a ter certeza! '."
Para Malachi, "a vitória sobre o desamparo só é possível pela fé, confiando no poder de Deus, depositando suas esperanças em alguma coisa fora do seu âmbito humano. "[p.415].

2º - Aceitação do amor humano: Família de Betânia [p. 413-414]

Segundo Malachi Martin, é o amor humano, com sua aceitação, doçura sentida, sua celebração e concessao, que é "o segundo elemento chave da plenitude do humanismo alcançado por Jesus, e portanto garantido como uma capacidade em cada um de nós se escolhermos" [p.413].
"À primeira vista pode parecer que não existe ninguém que não possa amar humanamente, que fazer isso constitui uma "segunda natureza". Contudo, a experiência sempre ensinou aos homens e mulheres que é tão difícil amar como ser amado. Porque o amor humano nunca é uma questão de conceitos lógicos ou de combinação de dados. Ele não implica nenhum uso de intencionalidade. Não é nunca um processo dirigido de quid pro quod. Aqueles que se amam, são envolvidos pelo exercício de seu amor numa atmosfera transcedental na qual permanecem distintos, mas nenhuma ênfase é atribuída a um indivíduo sobre o outro ." [p.413]

"A nossa dificuldade é que não podemos imaginar um amor íntimo e pessoal entre um homem e uma mulher que não tenha o sexo por base e seja expresso finalmente através dele. Mas esta é uma limitação da nossa concepção, não uma deficiência de Jesus." [p.414]
"Jesus , sendo Deus, não precisa do veículo da sexualidade, como não precisam aqueles que o amam. No entanto quem pode duvidar do amor palpável e apaixonado daquela Maria que derramou uma "libra de puro perfume de espicanardo" sobre os seus pés e depois enxugou-os com os seus longos cabelos? Seu próprio gesto sugeria uma tenra afeição por Jesus, juntamente com uma presunção confiante de que o que ela fez ele compreendeu, aceitou e, à sua própria maneira, retribuiu. Cheia do poder que o amor confere, ela manteve cativos os convidados reunidos em volta com a solenidade do amor expresso, tão certamente como a exalação daquele perfume encheu "toda a casa", como nos conta o Evangelho.
Esta é a única ocasião registrada em que foi oferecida a Jesus a beleza e a doçura íntima do amor humano por uma mulher, e Jesus insistiu que fosse dele. "Deixe-a em paz! " - disse ele a Judas Iscariotes que murmurava. Jesus sabia que a beleza e o amor humanos eram sua própria santificação, porque eram bênçãos tangíveis só concedidas por Deus. (...)
Os Evangelhos deixam claro que durante os últimos dias, quando Jesus estava esperando pela festa da Páscoa, esteve freqüentemente em Betânia perto da família de Lázaro, Marta e Maria. Compete à nossa imaginação retratar suas horas de companheirismo com esta família, a felicidade de estar entre amigos e ser amado; as conversas tranquilas e penetrantes que tiveram, a proximidade, o carinho, a celebração da unidade de coração, e a doçura da aceitação total. Ao provar esse amor, assim ensina o Cristianismo, Jesus tomou-o possível para cada um de nós. Humanamente. Se preferirmos."[p.414].

Para Malachi, "o consentimento de amar e ser amado só foi tornado possível porque ele reconheceu e aceitou a garantia de Deus de que todo o amor humano - apesar do seu pathos e fraqueza -- podia ser tornado eterno e divino."[p.415].


3º - Vitoria sobre a morte [p.415- 416]

Conforme o autor, a superação do desamparo humano e a aceitação do amor humano estavam preparando a alma de Jesus para a vitória, "não sobre morrer simplesmente, mas sobre a morte."
"A experiência de morrer de Jesus foi colorida por dois opostos. Por um lado sua retração natural de morrer e da morte como o mal sumário , com o que terminava a sua integridade humana. Por outro lado, sua dedicação ao propósito de toda a sua vida, que só podia ser alcançado através da morte.
Misteriosamente, Jesus teve que passar pelo mesmo medo torturante c natural da morte que todos os seres humanos têm. Ainda distante da hora da sua morte, a idéia de morrer deixou-O triste, quase lamentando. Um de vocês vai me trair, revelou ele aos seus discípulos durante a ceia íntima. - Vocês não podem ficar acordados comigo uma hora? - queixou-se com seus três companheiros que haviam dormido. Livre-me desta provação! - orou ele no Jardim de Getsemani enquanto se contorcia c suava no chão de pura apreensão e aversão pela morte.
Sempre que Ele se defrontou com Judas, seus captores, Caifás, Pilatos, Herodes, o Bom Ladrão, as Mulheres de Jerusalém, Pedro, sua mãe, ele dominou. Sua compreensão era clara. Sua missão era firme.
Foi só a mão negra da morte e suas perturbações impiedosas que o assustaram. Porque ele tinha que realizar sua missão em su a identidade como homem a fim de irromper além dos laços da simples humanidade . - Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste! - Esta n ão foi nenhuma queixa interrogativa. Foi simplesmente uma exclamação humana, no auge agudo da sua tortura física. Pela primeira vez, nuvens de en torpecimento estavam enegrecendo e embotando todos os seus atos psicofísicos. Ele n ão podia mais ver e ouvir muito bem. Seu controle da imaginação estava fugindo. Sua memória funcionava em ímpetos rápidos, depois ficava vazia. 
Contudo ele passou através desta morte e deixou toda a existência física, preservando sua esperança e confiança: - Pai! Em su as mãos entrego meu espírito. - Nesse único momento todas as suas faculdades psíquicas - memória, imaginação, sensações, sentimentos - foram reunidas numa bola dura de dor. Ele não podia mais respirar. Seu coração doeu com o esforço, depois parou de bater. Seu cérebro não tinha mais sangue. Esse rápido deslocamento o qual chamamos sucintamente por um dissílabo inerte - morte - apoderou-se dele.
Jesus não nos falou da agonia física nesse deslocamento sobressaltado, quando deixou de ouvir, ver e provar, e num clarão traumático o eu humano que ele costumava ser, passou à nova dimensão onde tudo era claro, onde não havia mais dúvidas, onde Ele não podia mais ser atormentado por males materiais, e onde Sua alma humana existia na harmonia imperturbável de Deus. Havia morrido. Como todos os seres humanos devem morrer. Ele sobreviveu em espírito, como todos os seres humanos podem fazer agora, devido à agonia e morte de Jesus.
Como o primeiro ser humano a sofrer a agonia e a morte perfeitamente, Jesus teve que ressurgir dos mortos. Teve que viver outra vez como ser humano. A morte do seu corpo e sua vida outra vez no corpo são duas fases de um ato integral . Daí, o que os Cristãos sempre chamaram de sua Ressurreição não implica apenas viver outra vez: mas também morrer e sobreviver a essa morte física.
A mensagem de Jesus nos relatos dos Evangelhos da Ressurreição é clara: Não aceitem simplesmente que eu tenha sobrevivido à morte. Porque esta não é uma ideia Cristã. Mas sim : Creiam que eu transformei a sua agonia e a sua morte, tomando-as um meio de ressurreição e ascensão e uma entrada no Reino de Deus para todos os homens e mulheres.
Por essa razão as testemunhas da sua Ressurreição não estavam preocupadas com sua aparência ou características corporais após a morte, quando ressurgiu, mas com a sua pessoa, sua identidade e sua presença.
Uma salvação verdadeira do pathos de sermos simplesmente humano, portanto, significa tomar possível para nós viver para sempre, assim como conhecer e perseguir este objetivo de uma forma que nos permita escapar dos limites do tempo e do espaço. Precisamos conhecer com certeza absoluta. Esse conhecimento chama-se fé.
Jesus fez com que o nosso ato de fé nos desse conhecimento dele e da nossa salvação ; e, por esse ato de fé , escapamos dos limites do nosso mundo material e da nossa própria consciência. Após o primeiro consentimento da fé, temos o fluxo tranqüilo da certeza sobre cada pessoa, como homem, como mulher e sobre Deus como pai, salvador e alegria eterna."

Assim, vimos nessas três circunstâncias que Jesus foi vitorioso humanamente porque confiou "no mais do que humano"[p.415]. 

"Devido ao fato de Jesus haver consumado completamente seu humanismo em relação ao desamparo, ao amor e à morte, cada um de nós é capaz de superar o próprio desamparo; de alcançar o amor genuíno: e de viver para sempre. Esta é a capacidade que Jesus obteve para nós."[p. 416].


Nota
* Italico é meu, para realçar o conteúdo do que o autor disse.
Desconheço o autor das imagens.

Referência Bibliográfica

Martin, Malachi. Reféns do Diabo: o mais impressionante relato de possessão e exorcismo e seu significado nos novos tempos. Tradução de Marina Leão Teixeira e Viriato de Medeiros. RJ, Editora Novo Tempo Edições Ltda. Capítulo: O Espírito Humano e Jesus

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