6 de fev de 2017

Sobre as Revelações Particulares



Dando continuidade à nossa série de publicações sobre o ano mariano, vamos nos ater sobre as revelações particulares, nome que é dado às aparições, manifestações, locuções interiores, etc. Um tema muito discutido e cheio de controvérsias. “Numa tentativa de se conceituar o fenômeno, pode-se dizer que aparições, no sentido religioso, seriam ‘a manifestação visível de um ser cuja visão naquele lugar ou naquele momento é inusitada e inexplicável segundo o curso natural das coisas’ (René Laurentin em Aparições – II Parte: Aspectos Históricos). São vividas pelo receptor como algo que ele não elaborou nem descobriu por si mesmo, mas como uma comunicação vinda de fora, de outro centro, que assinala uma variação incaracterística no seu estado de consciência. Costumam se apresentar como entendimentos sem palavras ou imagens, como audições, e visões, ou como ações automáticas” (Renan II de Pinheiro e Pereira em Fátima e Pontmain).

O Catecismo da Igreja Católica explica de forma direta e simples a relação entre tais revelações e a Revelação maior de Cristo a respeito das verdades de fé, dogmas fundamentais que devem ser cridos por todos: “No decurso dos séculos tem havido revelações ditas «privadas», algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é «aperfeiçoar» ou «completar» a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja. A fé cristã não pode aceitar «revelações» que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude. É o caso de certas religiões não-cristãs, e também de certas seitas recentes, fundadas sobre tais «revelações».” (Catecismo da Igreja Católica, item 67).

Sobre este tema é exigido sempre muita prudência. A Igreja possui vários documentos a respeito de como deve ser discernida uma nova revelação particular. Se qualquer revelação, inclusive qualquer ideologia filosófica, teológica, política ou social atentar contra as verdades do Evangelho devem ser imediatamente rejeitadas e denunciadas. Vejam o que nos diz a própria Sagrada Escritura na voz do apóstolo São Paulo: “Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1,8-10).

Mas assim como aceitar uma revelação falsa é errado, rejeitar uma verdadeira não é bom. Não devemos rejeitar todas as revelações sem antes as averiguar (“Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo: abraçai o que é bom” – 1 Tessalonicenses 5,19-21). Sabemos que em todo o Antigo Testamento e no Novo temos centenas de revelações de característica particular deste tipo que foram consideradas públicas posteriormente (Gn18,1-33; 19,1-29; 32,25-33; Ex3,2; 31,18; 33,20-23; Jz 6,11-24.36-40; 1Sm3,1-14; Lc1,11-38; 2,9-15; 9,28-36; At6,15; 7,56; 9,3-9.12; entre outros). Por isso não devemos reprimir o profetismo (Am2,11-12; Is30,10; Jr11,21; Zc1,5; Ne9,30; Lm2,9-10; Ez2,26; Sl74,9; 77,9; Dn3,38). Deus se utilizou desta forma para nos falar e Jesus garantiu que o Espírito Santo continuaria a agir na história da Igreja nos acompanhando e orientando a caminho do conhecimento da verdade (Jo14,16). Rejeitar todas as revelações seria imprudente, pois por meio de muitas delas, Deus tem se comunicado com o mundo, as nações e com a Igreja. As aparições de Nossa Senhora de Fátima são um exemplo vivíssimo disso.

Compreender isso é importantíssimo, pois como disse o Catecismo, “apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos” (Catecismo da Igreja Católica item 66). A Constituição Apostólica Dei Verbum deixa claro que as revelações privadas nada acrescentam à Revelação Pública em Jesus Cristo, “mas podem contribuir para sua melhor compreensão, ou chamar a atenção para algum aspecto da vivência cristã esquecido ou indevidamente desvalorizado” (Stiwell, Peter e Carvalho, Cristina Sá, ‘Aparições’).

Perguntado sobre revelações particulares o Cardeal Albino Luciani, um ano antes de ser eleito o Papa João Paulo I, “o papa do sorriso”, respondeu: “...alguém perguntará: Então o Cardeal interessa-se por revelações privadas? Não saberá ele que o Evangelho contém tudo? Que as revelações mesmo aprovadas não são artigos de fé? Sei disso muito bem. Mas artigo de fé contido no Evangelho é também este outro: ‘Sinais acompanharão aqueles que crêem’ (Mc16,17). Se hoje se tornou moda perscrutar os sinais dos tempos, que assistimos a uma inflação e praga de ‘sinais’, creio seja lícito referir-me ao sinal de 13 de outubro de 1917 atestado por anticlericais e incrédulos. E por detrás do sinal é oportuno atender às coisas contidas naquele sinal:... arrepender-se dos próprios pecados... rezar... recitar o rosário... e que o inferno existe e podemos cair nele” (Renan II de Pinheiro e Pereira em Fátima e Pontmain).


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