23 de jun de 2017

O Apostolado de São Paulo

Irmãos, continuando a reflexão sobre história da Igreja, repasso aqui este excelente texto do Prof. Felipe Aquino sobre a vida do Apóstolo São Paulo.



São Paulo (5-67) teve um papel ímpar na história do Cristianismo nascente. Os Atos dos Apóstolos, narrado por São Lucas, companheiro de São Paulo, conta com detalhes a vida e a missão do Apóstolo dos gentios. Sugiro a leitura do excelente livro: Paulo de Tarso (Holfner, 1994), para quem desejar se aprofundar em sua vida e obra.

Paulo era judeu da Diáspora, nascido em Tarso (Cilícia), Turquia de hoje; recebeu a cultura grega que dominava a região. Seu pai comprou a cidadania romana, o que dava a ele a possibilidade de viajar por todo o Império Romano livremente. Sabia o grego, hebraico e latim. Aos 15 anos de idade foi para Jerusalém; estudou a Bíblia e as tradições judaicas na escola de Gamaliel (At 5,34; 22,3; 26,4) e tornou-se rabino. Deve ter aprendido a profissão de curtidor de couro, seleiro e fabricante de tendas. Era fariseu radical. Por volta do ano 33-34, aos 28 anos, era severo perseguidor dos cristãos, tendo aprovado o martírio de Santo Estêvão; se converteu quando o próprio Senhor lhe apareceu na estrada de Jerusalém para Damasco, onde foi batizado por Ananias (cf. At 9,19s). Cristo o escolheu para levar a Boa-nova aos gentios, os gregos pagãos. “Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome” (At 9,16). São Lucas relata três vezes o acontecimento fundamental para a vida da Igreja que foi a conversão de São Paulo (At 9,1s; 22,5-16; 26,9-18); e também aparece em Gálatas (cf. 1,12-17). Josef Holzner, citando Feine, um dos melhores conhecedores do Apóstolo, supõe que São Paulo pudesse estar aos pés da Cruz de Jesus com outros sacerdotes judeus, e imagina que a futura conversão de Paulo possa ser uma graça obtida aí no Calvário, como a do centurião romano que exclamou: “Verdadeiramente esse homem era filho de Deus” (Mc 15,39) (Holzner, 1994, p. 63).

Em seguida à sua conversão, Paulo permaneceu num lugar perto de Damasco chamado Arábia (33-36), por três anos. Certamente neste retiro Paulo compreendeu o que era ser verdadeiramente um crente e orar de verdade. Entendeu o que ele chamava de zelo pelas tradições paternas (Gl 1,14). Então, experimenta a verdadeira fé, [pistis] que lhe dá sentido a todas as coisas e acalma seu coração inquieto. Ele então experimenta que aquele que está em Cristo é uma nova criatura (2Cor 5,17).

Toda a teologia de Paulo está baseada na união com Cristo, que é o princípio, o meio e fim de toda a doutrina cristã. Para ele não houve a ‘crise’ da teologia moderna que contrapõe um Cristo da fé com o da História. “Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

A teologia de Paulo foi tão eloquente que alguns que a compreenderam mal, tentaram jogá-la contra os Evangelhos, como se fossem incompatíveis; porém, a Igreja, assistida e guiada pelo Espírito Santo soube ver aí o ensinamento inspirado por Deus. Paulo de certa forma trazia do judaísmo a semente de toda a fé católica que iria então desabrochar nele com a graça de Cristo.

Assim Jesus preparou esse homem de fogo para ser aquele que levaria o Seu nome aos pagãos, aos reis e aos filhos de Israel tendo sido apreendido por Cristo (Fl 3,12). Ele sentiu a mão do Senhor pesar sobre ele e sentiu sua vocação definida: Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho! (1Cor 9,16).

Toda a bagagem bíblica que Paulo adquiriu como rabino, discípulo de Gamaliel, foi muito importante para que a luz de Cristo jorrasse em sua mente e fizesse dele o maior teólogo cristão de todos os tempos, em cujos escritos todos os demais teólogos se debruçaram.

Nos anos 36-37 aproximadamente, Paulo se encontrou com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gl 1,18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30), expulso de Jerusalém. Ali ficou por cerca de 5 anos, até o ano 42. Parece-nos que Paulo passou alguns anos ainda em silêncio, aguardando um sinal e um chamado de Deus. As palavras do Profeta: Esperar em silêncio (Lm 3,26), podem ter sido para ele um programa de vida neste período. Certamente Paulo, afoito, teve de aprender uma frase que a Bíblia repete em vários lugares: Espera no Senhor (Sl 26), Sofre as demoras de Deus (Eclo 2,3).

Só os grandes homens são capazes de colocar a vontade de Deus acima de suas vontades.

Paulo era um erudito, diferente de Pedro e dos demais Apóstolos. É importante notar que Deus usou todos os talentos humanos desse homem para sua enorme missão apostólica. Ele aprendeu a eloquência de discutir e dominar a língua grega. Ao falar no Areópago de Atenas, aos pés do Partenon (At 17,28), ele cita uma passagem do seu compatriota Arato, que também consta na oração do poeta Cleanto a Júpiter: “Somos da sua raça”, e outra de Epimênedes: “Pois nele vivemos, nos movemos e somos”.

Na primeira Carta aos coríntios (15,32) ele cita duas frases tiradas de Menandro: “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, e também o provérbio: “As más companhias corrompem os costumes”. Na Epístola a Tito, seu fiel bispo de Creta, ele cita Epimênedes: “Os cretenses são sempre mentirosos, más bestas, ventres preguiçosos” (1,12). Paulo usou toda essa cultura grega do seu tempo a serviço da fé. Foi grande o trabalho intelectual do Apóstolo dos gentios; suas treze Cartas mostram isso. Certamente tudo isso foi fruto desses longos anos de meditação, estudo e oração.

Aí nasceu a teologia paulina que hoje bebemos. Thomas Edson disse que em todo gênio há 95% de transpiração e 5% de inspiração. Paulo conheceu a Cristo e o seu Evangelho na ‘contemplação do mistério de Cristo’, mas isso não dispensou a sua base cultural e religiosa anterior. Ele diz aos gálatas e coríntios sobre isso: “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11-12). Nesta época, Barnabé, talvez seu primo, que era discípulo em Antioquia, a importante comunidade cristã fundada por São Pedro, o levou para lá. No ano 44, Paulo e Barnabé foram encarregados pela comunidade de Antioquia para levar auxílio financeiro aos irmãos pobres de Jerusalém. Antioquia era a terceira maior cidade do Império Romano, após Roma e Alexandria, tinha mais de quinhentos mil habitantes na época; era a residência do legado imperial da Síria. Estava destinada a ser depois de Jerusalém, a segunda mãe da Igreja nascente. Paulo aí permaneceu vinte anos e partiu para evangelizar o mundo pagão. Era o lugar ideal para a expansão da fé cristã; seria a “Paris” do Oriente. Renan retratou Antioquia nos seguintes termos:

“Era uma mistura jamais vista de charlatães, comediantes, bufões, feiticeiros, sacerdotes impostores, bailarinas, heróis de circo e de teatro; uma cidade de corridas, jogos de gladiadores, bailes, cortejos e bacanais; um luxo desenfreado, toda a loucura do Oriente, as superstições mais doentias e as orgias mais fantásticas. Era o sonho de um fumante de ópio [...]” (Holzner, p. 91).

É nessa cidade, que tanto precisava de Jesus Cristo, que o Cristianismo cresceu. Nela as divindades sírias e os seus cultos faziam do assassinato e da impureza um serviço divino. O culto de Adônis e Astarte era a divinização do vício, e crianças e adultos lhe eram sacrificados e seus templos eram locais de prostituição. Antioquia era a capital internacional do vício. São Paulo logo começou a pregar; foi à Jerusalém e foi recebido pela comunidade cristã: “permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e pregando destemidamente o nome do Senhor” (At 9,28). E ali foi logo perseguido, e Jesus lhe diz: “Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque as gentes daqui não receberão o seu testemunho a meu respeito [...] vai porque eu te enviarei para longe aos gentios” (At 22,17s). Cristo guiava Paulo pelas mãos. Em Antioquia ele teve um êxtase marcante que narra na Segunda Carta aos coríntios; e que foi uma das maiores lições que recebeu. Paulo esteve com Pedro, como conta aos gálatas, depois de seu retiro nas Arábias: “Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias. Dos outros Apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor” (cf. Gl 1,18-19). Segundo os Atos dos Apóstolos (9,26; 11,29s; 15,2) São Paulo fez três viagens a Jerusalém antes de visitar por duas vezes a Galícia (Gl 1,19; At 11,29; 16,6; 18,23). O grande Apóstolo realizou três grandes viagens missionárias em terras pagãs, fundando comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia. Ele não impunha aos pagãos a circuncisão nem as obrigações da Lei de Moisés, mas concedia-lhes logo o Batismo depois de evangelizados. Por isso foi fortemente perseguido pelos judeus e também sofreu forte oposição dos cristãos vindos do judaísmo; os chamados “judaizantes”, que queriam que os pagãos fossem circuncidados antes do Batismo e abraçassem a Lei de Moisés.

A Primeira Viagem Missionária de São Paulo (At 13,1-15-35) foi nos anos 45 a 48, por inspiração do Espírito Santo. São Paulo, São Barnabé e São Marcos (o evangelista) foram enviados a pregar aos gentios (At 13,1-3). Partiram para a ilha de Chipre, estiveram nas cidades de Salamina e Pafos, depois Perge da Panfília [onde Marcos os deixou], Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe [atual Turquia]. Voltaram a Antioquia e depois foram para Jerusalém.

É indispensável que o leitor releia atentamente os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo para se inteirar detalhadamente da vida e de toda a fabulosa ação apostólica do grande Apóstolo dos gentios. Nesses escritos São Paulo traçou as bases de toda a teologia católica. Lendo-as compreendemos aquilo que Jesus disse aos Apóstolos na Última Ceia: “Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,12-13). Por meio de São Paulo, doutor em Sagrada Escritura, o Espírito Santo nos ensinou esta doutrina que Jesus não pôde ensinar aos Apóstolos.

Em 49 houve o importante Concílio de Jerusalém (At 15), quando Paulo e Barnabé foram defender junto aos Apóstolos a não necessidade da circuncisão para os gentios convertidos. Esta foi uma decisão fundamental para que o Cristianismo se desvinculasse do Judaísmo e não corresse o risco de se transformar apenas em mais uma facção judaica.

Depois disso, Paulo voltou para Antioquia e partiu para a segunda viagem apostólica de 49 a 52 (At 15,36; 18,22), onde pregou alegremente que os gentios não precisavam mais da circuncisão. Paulo acompanhado por Silvano passou por Derbe, Listra [onde se lhes juntou o jovem Timóteo], Icônio e Antioquia. Chegaram à Galácia, Trôade [onde se lhes juntou a Lucas], Neápolis, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas e Corinto, onde permaneceram dois anos e conheceram o procônsul Galião no ano 52, tendo depois voltado a Antioquia. De 49 a 50 ficaram em Filipos, de 50 a 51 em Tessalônica e Bereia; de 51 a 52 em Atenas e Corinto, onde escreveu as duas cartas aos tessalonicenses.

A terceira viagem missionária de São Paulo foi de 53 a 58. Paulo partiu de Antioquia com Tito, Timóteo, Gaio e Aristarco (At19,29). Seguiram para Éfeso onde Paulo permaneceu durante três anos (At 18,18-19), pregando na escola do reitor Tirano em Éfeso. Em Éfeso, enorme cidade com trezentos mil habitantes, capital da província romana da Ásia Menor, foram perseguidos pelos pagãos e seguiram para Laodiceia, Colossos, Hierápolis, Trôade, Macedônia, Antioquia e depois para Jerusalém (At 20,3; 21,16).

Paulo ficou em Éfeso de 54 a 57, onde escreveu a Carta aos Gálatas por volta de 54-55; a primeira Carta aos coríntios, em 56; em 57 escreveu a Segunda Carta aos coríntios e fugiu de Éfeso; entre 57-58 escreveu a Carta aos romanos e em 58 fez a última viagem a Jerusalém.

No fim desta terceira viagem, logo que Paulo entrou em Jerusalém, os judeus voltaram ao ataque: foi preso (At 21,27s), compareceu diante do Sinédrio e para escapar da morte foi transferido para Cesareia pelas autoridades romanas. Aí compareceu diante do procurador Félix e o rei Herodes Agripa. Depois de dois anos (58- 60), Paulo apelou para ser julgado pelo imperador (At 25,11) em Roma. No ano 60, acompanhado por São Lucas, partiu para Roma, preso e guardado por um centurião. Depois de terem naufragado na ilha de Malta, onde passaram o inverno, chegaram a Roma em 61. De 61 a 63 teve o seu primeiro cativeiro em Roma; aí escreveu as Cartas do cativeiro: Filêmon, Efésios, Colossenses e Filipenses.

Em Roma Paulo foi inocentado e solto. De 63 a 66 deve ter feito viagens pelo Oriente e Espanha como era seu desejo (Rm 15). Em 66 a 67 escreveu as epístolas pastorais: a primeira Carta a Timóteo e Tito. Em 67 teve o seu segundo cativeiro em Roma onde escreveu a segunda Carta a Timóteo e sofreu o martírio com São Pedro sob o imperador Nero (54-68).



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