14 de out de 2017

História da Música Católica 2 - Idade Antiga (Patrística)



Em continuação ao post primeiro e anterior do nosso estudo sobre a história da música católica, post sobre a música nas Escrituras, trazemos agora a música no período Patrístico, período dos primeiros cristãos e dos chamados "Pais da Igreja":

Os primeiros cristãos, como vimos anteriormente, tinham o costume de cantar nas reuniões. Assim se seguiu em toda a história da Igreja. No período da Patrística também tivemos este aspecto marcante na vida dos primeiros cristãos. Vários relatos mostram que os mártires cantavam enquanto eram martirizados. Após o Edito de Milão em 313, que trouxe maior liberdade de culto aos cristãos, houve maior organização litúrgica e desenvolvimento da música entre eles.

As influências da cultura grega resulta no oriente, o canto bizantino (grego), e no ocidente, o canto gregoriano (latim). Entre os padres da Igreja marcados pela música temos Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho, São Gregório de Nazianzeno, São Basílio, São João Crisóstomo, entre outros.

Santo Agostinho reconhece a importância da música. Lembra das lágrimas que lhe caíram na catedral de Milão por causa dos cantos “não pelos seus acentos mas pelas palavras moduladas, pela sua justa expressão, pela pureza da voz”. Em outro momento ele diz que “cantar é próprio de quem ama”.

São Basílio ao falar do canto dos Salmos bíblicos, diz que a melodia é uma espécie de mel que Deus uniu ao medicamento (escritos bíblicos) para tornar mais fácil tomá-lo. Ele também fala que o ensinamento que se aprende de má vontade dificilmente permanece e o que se aprendeu com gozo e suavidade dura com mais firmeza em nosso espírito. E que o gozo melódico une-se à força da Palavra de Deus para fortalecer o cristão e levantar o homem caído. A música cristã neutraliza a força da música pagã. A música só traz benefícios à propagação do conhecimento da Palavra de Deus. A comunhão com o próximo é um dos frutos dos cantos na comunidade em oração: “o canto do salmo restabelece a amizade, reúne os que estavam desavindos, converte em amigos os que mutuamente se hostilizavam. Quem será ainda capaz de considerar como inimigo aquele com quem elevou uma só voz para Deus?

São João Crisóstomo em seus sermões diz que “os cantos são um grande atrativo para a nossa natureza, a ponto de secarem as lágrimas e calarem o pranto dos meninos de peito”. A respeito do poder da música ele diz que “Deus, vendo a indiferença de grande número de homens, que não têm afeição alguma à leitura das coisas espirituais e não podem suportar o trabalho sério do espírito que elas requerem, quis tornar-lhes este esforço mais agradável e tirar-lhes, inclusive, a sensação de fadiga”. O canto também imita e participa do louvor dos anjos na corte Divina. O canto coral gera comunhão e harmoniza diferenças sociais. São João Crisóstomo diz: “não há escravo, nem livre, nem rico, nem pobre, nem príncipe, nem súdito. Longe de nós essas desigualdades sociais: formamos todos um só coro, todos tomamos igualmente parte nos cânticos sagrados e a terra imita o céu”. Sobre o Salmo ele nos diz: "Cada verso dos salmos é suficiente para nos elevar a uma sabedoria eminente, reformar as nossas ideias e adquirir os maiores bens e, se meditamos atentamente sobre cada uma das palavras que o compõem, recolheremos disso frutos mais abundantes". "Tomai as palavras deste salmo como outras tantas pérolas para as conservar e meditá-las cuidadosamente em vossas casas. Repeti-o aos vossos amigos e às vossas esposas e, se a tribulação se apoderar da vossa alma, se sentis despertar em vós outro sentimento condenado pela razão, tende na vossa boca as palavras deste cântico divino".

Santo Atanásio também escreveu sobre a ação do Salmo no leitor orante: "a recitação repetida do salmo opera uma estruturação profunda do espírito do cantor, que contempla nas palavras dos salmos refletidos, como em espelho, os desejos e sentimentos do seu espírito".

Pseudo-Dionísio escreveu que “os cantos põem-nos em sintonia, primeiro como o nosso eu mais profundo; depois entre nós mesmos, e com os participantes na assembleia litúrgica; e desse modo, constituídos em um coro único de homens santificados, abrimo-nos aos mistérios sagrados”. No “uníssono dos cantos divinos, estamos em sintonia, não só com as realidades divinas, mas também conosco próprios, de tal modo que já não formamos senão um único e homogêneo corpo de homens santos”.

São Clemente de Alexandria escreveu que Deus "ordenou o próprio universo por medida e submeteu a dissonância dos elementos à disciplina do acorde, para se fazer do mundo inteiro uma harmonia". Também disse que Deus criou o homem e fez "entrar o seu sopro neste belo instrumento". Em outro momento escreveu que "toda a nossa vida cristã é sempre um dia de festa e por esse motivo trabalhamos nos campos cantando hinos e entoamos cantos de louvor ao Senhor enquanto navegamos".

O canto nas assembleias deve ter o sentido de comunhão, ressaltando o conhecimento das Escrituras e influenciando nos comportamentos morais, isto é, na vida de santidade e conversão. Os santos Padres corrigem desvios e dão orientações. Denunciam ritualismos exagerados, falta de entusiasmo celebrativo e ensinam que não se pode juntar ao belo e santo canto a estridente vivência dos maus costumes.

São Basílio diz que os fornicadores, ladrões, etc, “estes, parece que cantam, mas na realidade não cantam”. Antônio José Ferreira no seu artigo complementa: “O verdadeiro canto é o interior: o canto exterior é o seu rosto”. E cita São Basílio que diz: “Sem voz também é possível cantar desde que, internamente, vibre o espírito. Cantamos, não para os homens, mas para Deus que pode escutar os nossos corações e penetrar na intimidade da nossa alma”. Ao explicar a passagem de Efésios 5,19, São João Crisóstomo diz “O que significa ‘em vossos corações’? Significa com a inteligência. Não suceda que, enquanto a boca está a dizer as palavras, a mente divague por qualquer parte: para que a língua seja escutada pela alma”. Sobre a agitação ele diz que alguns “vêem-se num estado de contínua agitação, dir-se-ia com acessos de loucura; pelo menos, pode dizer-se que mostram costumes impróprios de um lugar sagrado (...). O vosso espírito está preocupado com o que ouvis e vedes nos teatros e trazeis para os ritos da Igreja o que lá se pratica. Esta é a origem desses gritos exagerados que nada significam... Será que as vossas mãos concorrem para a vossa súplica, quando as agitais em todos os sentidos, sem descanso? A que propósito vêm esses gritos violentos, que bem podem mostrar a força dos vossos pulmões mas nada significam? Ousais misturar as diversões demoníacas com os hinos dos anjos que glorificam a Deus?”.

São Basílio diz em outro momento: “A língua cante e a mente trate de conhecer o sentido das palavras cantadas, para cantares com o espírito e também com a tua mente". Há uma prioridade da palavra e do canto interior sobre a melodia e a voz. Santo Agostinho disse: "A voz que se dirige aos homens é o som; a voz que se dirige a Deus é a piedade". Em outro momento escreveu: "não podereis experimentar a verdade do que cantais, se não começardes a praticar o que cantais".

Os Santos Padres denunciam o poder sedutor da música idolátrica e a imoralidade dos cantos pagãos. Antônio José Ferreira no seu artigo 'As fontes bíblico-patrísticas da música litúrgica' escreve: "Embora muitos cristãos frequentassem os espetáculos e teatros pagãos, contra a vontade dos pastores, recebendo uma influência prejudicial que se repercutia na vida cristã e na própria liturgia, não se pede aos cristãos que abandonem o canto, mas que o acolham como eco existencial da Palavra de Deus. São João Crisóstomo convida os pais e as mães a ensinarem os salmos aos filhos e a utilizá-los em casa. O canto como que permite ruminar a Palavra, prolongando a celebração nas diferentes situações da vida, tornando-se um 'estímulo eficaz para o culto existencial do cristão'. Os Padres fazem recomendações aos cantores e insistem nas atitudes pessoais de atenção e assimilação. Salientam 'com expressões musicais de grande beleza a existência como lugar primordial do culto cristão, assim como a necessária conexão entre liturgia e vida'. Canto interior e canto exterior exigem-se mutuamente".

Segundo Basurko, Santo Ambrósio de Milão e São Gregório de Naianzeno dizem que "são precisamente os salmos cantados entusiasticamente por toda a assembleia que convertem as largas horas das vigílias noturnas em momentos de verdadeiro prazer espiritual".

Diante de tudo isso vemos a importância do canto do povo, um canto que sai da alma para melhor mergulho nos mistérios divinos. Terminamos com uma frase de Santo Ambrósio que diz que o canto litúrgico é "bênção do povo, louvor de Deus, celebração da assembleia, harmonia universal, expressão de todos, profissão harmoniosa da fé, devoção magnífica, alegria da liberdade, grito de festa, explosão de alegria".

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