30 de jan de 2018

Detestar o que ofende a Deus





"Orar é falar com Deus, é um diálogo com Deus. Esta é uma verdade básica que procuramos não perder de vista nas anteriores reflexões. Mas, para a oração ser um bom diálogo com Deus – como víamos –, tem que ser uma conversa de amor. Na realidade, toda a oração cristã deveria ser sempre uma procura muito sincera do Amor de Deus, um intercâmbio de amor entre Ele e nós.

Para isso, como acabamos de ver, precisamos da sinceridade. E como é possível dizer a Deus sinceramente que o amamos, se não nos importamos com aquilo que, na nossa vida, o ofende, nem que seja de leve? Seria como se, ao mesmo tempo que lhe dizemos “Senhor, eu te amo”, continuássemos friamente a espetar-lhe os pregos e a coroa de espinhos das nossas faltas e pecados.

Quanta razão não tem São Josemaria Escrivá quando diz que, para fazer a oração dos filhos de Deus, «temos que esforçar-nos para que não haja em nós a menor sombra de duplicidade. O primeiro requisito para desterrar este mal, que o Senhor condena duramente (cf. Mt 7,2123), é procurar comportar-nos com a disposição clara, habitual e atual, de aversão ao pecado. Energicamente, com sinceridade, devemos sentir, no coração e na cabeça, horror ao pecado grave. E, numa atitude profundamente arraigada, temos que detestar também o pecado venial deliberado, essas claudicações que, embora não nos privem da graça divina, debilitam os canais por onde ela nos chega» (Amigos de Deus, n. 243).

Inconformismo santo
Todos nós temos um monte de pecados veniais (é só deles que vamos falar nesta meditação), que já aderiram à nossa alma como musgo, como bolor, como plantas parasitas que roubam a “seiva” da alma, enfraquecem-na e, sobretudo, ferem o amor a Deus. Temos..., mas ficamos sem fazer nada ou quase nada para vencê-los.

Pecados veniais? A lista seria interminável. Bastem uns poucos exemplos corriqueiros: irritações e impaciências em casa e no trabalho, que se repetem de modo habitual; palavras e olhares que magoam; muitas concessões à preguiça, que nos levam a fazer mal o trabalho, a adiar os deveres que custam, a dedicar menos tempo que o devido a Deus e aos outros; caprichos da gula que não se justificam; curiosidade mórbida, que nos põe em perigo de pecar contra a castidade; pequenas maledicências, etc.

Tentamos justificar-nos dizendo que “ninguém é perfeito”, o que é uma grande verdade, mas é uma verdade que interpretamos mal, pois confundimos as fraquezas e limitações inevitáveis (que sempre existem, até nos santos), com as faltas que são evitáveis e deveriam ser evitadas, verdadeiros pecados veniais que, se quiséssemos e pedíssemos ajuda a Deus, poderíamos evitar. Temos que ser santamente inconformistas com eles.

Jesus nos lembra repetidas vezes que o primeiro mandamento é amar a Deus com todo o coração, com toda alma, com toda a mente e com todas as forças (Mc 12,30), e por isso, no livro do Apocalipse, revela a São João a “mágoa” que lhe produzem os cristãos que se conformam com um amor medíocre, contaminado pelo pecado venial consentido: Tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor... Não achei as tuas obras perfeitas diante de meu Deus (Apoc2,4 e 3,2).

«Os pecados veniais fazem muito mal à alma» (Caminho, n.329). Não nos esqueçamos nunca de que não é compatível falar carinhosamente com Deus, enquanto guardamos dentro da alma hábitos e pecados veniais, que são “parentes” daquelas cusparadas, tapas, chicotadas e espinhos que caíram sobre Cristo na Paixão, quando sofria pelos nossos pecados (cf. 1 Cor 15,3).

Meios a empregar
Então, o que havemos de fazer? Dizer a Deus, “sim, eu te amo”, e, ao mesmo tempo, empregarmos toda a força do nosso amor – robustecido pela graça de Deus – numa luta diária por vencer esses hábitos e pecados.

Meios para isso? Vários deles iremos comentá-los nos próximos capítulos. Mas, para já, podemos enunciar os principais: confissão frequente, com verdadeira dor dos pecados e com o desejo de nos corrigirmos e de reparar; exame de consciência todas as noites; pedir ao confessor conselhos e leituras que nos orientem nas nossas lutas concretas; e sermos mais mortificados (este será o próximo tema destas nossas reflexões).

Talvez você pergunte: – Empregando esses meios, será fácil vencer o pecado venial? Será possível, ainda que não seja fácil, sobretudo se esses pecados são hábitos que já têm raízes fortes. E, apesar de que não consigamos vencer todos os pecados veniais, poderemos ter muitas vitórias, porque Deus está conosco e quer “lutar conosco”, como dizia Pascal.

Pede-nos, porém: a humildade de não desanimar e sempre recomeçar a luta, mesmo que tornemos a cair nas mesmas faltas por fraqueza (o desânimo, aí, seria orgulho, vaidade de querer vernos a nós mesmos perfeitos); reforçar a oração e frequentar mais a comunhão para obtermos mais graça; e, especialmente, levantar-nos logo das quedas, retificando rapidamente e confessando-nos, quando for o caso.

Quero terminar citando mais um trecho do livro Caminho: «Sei que te portaste bem..., apesar de teres caído tão fundo. – Sei que te portaste bem, porque te humilhaste, porque retificaste, porque te encheste de esperança e a esperança te trouxe de novo ao Amor. – Não faças essa cara boba de surpresa; de fato, te portaste bem! Já te levantaste do chão... Agora, ao trabalho!» (n. 264)".

Professor Felipe Aquino na aula 92 do curso Espiritualidade Católica na Escola da Fé Online.


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