16 de fev de 2018

O que são as horas canônicas




Felipe Aquino:

"Os judeus costumavam rezar três vezes por dia: de manhã, ao meio-dia, no fim do dia (cf. SI 55, 17s) Os cristãos herdaram esta prática; todavia não Ihes era estranha a oração noturna, da qual Jesus e os Apóstolos deixaram precioso testemunho; cf. Lc 6,12 (Jesus passou a noite em oração antes de escolher os doze Apóstolos) e At 16,25 (Paulo e Silas, à meia-noite, cantavam os louvores de Deus na prisão de Filipos).

No século III Tertuliano (􀀀 após 220) mencionava cinco momentos de oração: aurora, terça, sexta, nona e vésperas, ou seja, ao nascer do dia, às 9h, ao meio-dia, às 15h e ao pôr do sol. Esta prática se expandiu e recebeu dois acréscimos: o da hora primeira (Prima, 7h) e o de Completas (oração antes do sono da noite). Além disso, os cristãos estimavam também a oração durante a noite. Foram principalmente os monges que, dedicando-se especialmente à oração e ao trabalho manual, contribuíram para a formação do Ofício Divino com as suas oito Horas Canônicas: Laudes (na aurora), Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas, Completas, além das Vigílias noturnas. Tal número foi observado durante séculos até o Concílio do Vaticano II, que suprimiu oficialmente o Ofício de Prima, por fazer duplicata, de certo modo, com o Ofício de Laudes; além disto, o Concilio não suprimiu as chamadas Horas Menores (Terça, Sexta e Noa), mas permitiu que se celebre uma só, escolhendo-se aquela mais adaptada ao momento em que se reza (a Terça, durante a manhã; a Sexta, por volta do meio-dia; a Noa, no decorrer da tarde).

Cada uma dessas Horas Canônicas tem sua motivação e sua ambientação espirituais, como passamos a ver: As Laudes e as Vésperas, como preces da manha e da tarde, são tidas como as Horas principais.

1) As Laudes (Louvores) têm por motivo inspirador o renascer da luz do dia após as trevas da noite. Esta Hora Canônica celebra, pois, a Ressurreição de Jesus, "luz verdadeira que ilumina todo homem" (Jo 1,9) e "Sol de Justiça, que nasce do alto" (Lc 1,78); por isto uma das tônicas dessa oração é a glorificação do Senhor, que obteve a vitória sobre a morte (daí a inserção do Cântico de Zacarias no final; cf. Lc 1,6879).

As Laudes, em resposta ao dom de Deus, tencionam consagrar ao Senhor o dia do cristão, dia de trabalho e esperanças. É São Basílio (􀀀 379) quem nos diz: "A oração da manhã tem por finalidade consagrar a Deus os primeiros movimentos de nossa alma e de nossa mente e, antes de nos ocuparmos com qualquer outra coisa, deixar que nosso coração se regozije pensando em Deus, segundo está escrito: 'Dei-me conta de Deus e me alegrei' (SI 77,4), pois o corpo não se deve entregar ao trabalho sem que antes tenhamos cumprido o que disse a Escritura: 'É a Vós que invoco, Senhor, desde a manhã, escutai-me, porque desde o raiar do dia Vos apresento minha súplica e espero' (SI 5,4s)" (Regulae fusius tractatae 37,3).

S. Cipriano (􀀀 258) observa ainda: "Deve-se rezar de manhã para que, pela oração matinal, seja celebrada a ressurreição do Senhor" (De oratione dominica 35).

2) As Vésperas tiram seu nome de Véspero (= Vênus), o astro luminoso que começa a brilhar logo que caem as trevas da noite. São, por isto, a oração que conclui o dia e dá início à noite. Entre as suas finalidades, está a de dar graças a Deus pelos benefícios recebidos pelo cristão durante o dia; além disto, as Vésperas comemoram a última Ceia do Senhor e a sua morte na Cruz, ambas ocorridas em hora vespertina. Mais elas devem avivar no orante a esperança da vinda consumada do Reino de Deus, que se dará no fim da jornada deste mundo, trazendo a luz sem ocaso. São palavras de S. Cipriano "Pedimos que venha de novo a nós a luz; rogamos pela vinda gloriosa de Cristo, que nos trará a graça da luz eterna" (De oratione dominica 35).

Os cristãos rezam as Vésperas como os operários da vinha da Igreja, que, no fim do seu dia de trabalho, se encontram com o Divino Patrão para receber o dom do seu amor. Como recompensa da labuta prestada (cf. Mt 20, 116). Ou ainda: o cristão, ao fim da caminhada de um dia, diz ao Senhor como os discípulos de Emaús: "Fica conosco, Senhor, porque o dia vai declinando" (Lc 24,29).

Consciente destes elementos, o orante procurará colocar o Ofício de Vésperas precisamente naquele horário que mais lhe possibilite conceber em si tais atitudes interiores.

3) Ofício das Leituras é o nome que tem atualmente o Antigo Ofício de Vigílias Pode ser celebrado a qualquer hora desde o anoitecer até o fim do dia seguinte; quando é recitado no coro, deve conservar a índole de louvor noturno. Este Ofício tenciona proporcionar ao povo de Deus um contato substancioso com a S Escritura e com as mais belas páginas dos autores de espiritual idade antigos e modernos Os textos bíblicos são selecionados de modo que se lêem no Ofício Divino as secções que não são lidas na Liturgia Eucarística; assim o cristão encontra na celebração da Liturgia o alimento correspondente à época do ano em curso (Advento, Natal, Epifania, Quaresma, Páscoa...). Nas festas dos santos foram retiradas do Lecionário todas as leituras cuja veracidade histórica era discutida; de preferência, lêem-se então os escritos dos santos celebrados.

A ausculta da palavra, tão característica do Ofício de Leituras, não deve levar a esquecer a nota de louvor que é típica da Liturgia das Horas. Por isto tal Ofício consta também de salmos, hino, oração e outras fórmulas. A prece de louvor ou de súplica é a resposta da criatura a Deus que lhe fala.

 Observa a Instrução da Congregação para o Culto Divino sobre a Liturgia das Horas: "Os Padres e os autores espirituais exortaram muitas vezes os fiéis... à oração noturna pela qual se expressa e excita a espera do Senhor, que há de voltar: 'Á meia-noite ouviu-se em grande clamor: eis que chega o esposo, saí ao seu encontro' (Mt 25,6).

'Vela;' pois não sabeis quando chegará o Senhor da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; vindo de repente, não vos encontre dormindo' (Mc 13,35s). São, portanto, dignos de louvor todos os que mantêm o caráter noturno do Ofício de leituras" (n° 72).

 4) Terça, Sexta, Noa. Situadas às 9h, às 12h, às 15h, estas três Horas Canônicas colocam-se ao longo do dia de trabalho para santifica-lo.

Cada qual evoca algum acontecimento do Evangelho ou dos Atos dos Apóstolos Com efeito, Terça recorda a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos e Maria SS, reunidos no Cenáculo "à hora terceira do dia" (At 2,15). Por isto o hino de Terça comemora o dom do Espírito e pede-o para a Igreja contemporânea. A mesma hora terceira está associada à crucifixão de Jesus, conforme Mc 15,25.

Sexta é a hora em que Pedro rezava no terraço de uma casa e teve importante visão que o levaria a batizar o centurião Cornélio sem lhe impor a circuncisão (At 10,9). É também, conforme Mt 27,45, a hora da agonia de Cristo na Cruz. O hino de Sexta faz alusão ao calor que muitas vezes se faz sentir ao meio-dia e pede ao Senhor queira extinguir o fogo das paixões, que em plena labuta pode arder nos corações dos homens.

Noa lembra a oração de Pedra e João no Templo, onde Pedro curou o paralítico, conforme At 3,1; evoca também a morte de Jesus na Cruz, segundo Mt 27,46. O hino desta Hora pede "seja a tarde luminosa numa vida permanente; e da santa morte o prêmio nos dê glória eternamente".

5) Completas é a oração que se deve dizer antes do repouso da noite, mesmo que este comece após a meia-noite.

Tem, antes do mais, caráter penitencial, pois se inicia com um exame de consciência (o cristão tem interesse em se julgar tão lucidamente quanto Deus o julga, enquanto lhe é dado usufruir do perdão e da misericórdia divina); faz-se um ato penitencial pelas faltas do dia, ato que, se conscientemente realizado, obtém o perdão dos pecados leves cometidos durante a jornada."


112ª aula do Curso de Espiritualidade Católica da Escola da Fé Online do Professor Felipe Aquino.


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"Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da Luz" Rm 13,12
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